A necessidade de mitos e heróis para o design enquanto cultura

Olá, em minha estréia tardia aqui no blog de antemão peço desculpas, pela falta de coerência, linearidade e muitas vezes sentido, mas estas idéias me atordoavam e precisavam ser jogadas ao ar, e venho aqui jogá-las em forma de ensaio, para aprimorá-las e lapidá-las.

Enquanto designer, duas questões sempre foram muito difíceis de responder, logo mesmo nos primeiros anos de faculdade quando me perguntavam, o que é design? E em seguida, quem é que são os mitos, ícones ou ídolos da sua profissão no Brasil, ou mesmo no mundo? Confesso que hoje, mesmo quase três anos de profissional trabalhando na área como bacharel em design, ainda tenho dificuldade de delinear uma resposta coesa bem definida e direta, que não seja recheada “ééés, ou “ahmms”. Muito se deve a indefinição da profissão, que está longe de ser objetiva e clara, devido a muitos fatores tratados de maneira muito nobre no estudo da filosofia do design, que temos levado em nosso grupo de estudo, e mais a sério pelo nosso estimado colega Beccari, mais o que irei focar aqui neste ensaio, é uma crença pessoal de que isso se deve a falta de uma cultura de design na própria profissão, creio eu que talvez antes de uma própria filosofia do design, se essa existe, há a falta de uma atmosfera de design uma cultura, recheada de símbolos, ícones e outros elementos que se definem em sua complexidade para cada um que se diga designer. Bom, como manda o figurino, traçaremos algumas definições aqui. Leia mais…»

O Design, o Imaginário – sobre a origem, ou uma introdução

Foram quatro anos estudando design gráfico na UFPel (Universidade Federal de Pelotas, RS), no Instituto de Artes e Design. Na verdade, me graduei em Artes visuais com habilitação em design gráfico, um curso que não existe mais e está formando sua última turma. Hoje a UFPel conta com dois bacharelados em design: gráfico e digital.

Meus dois primeiros anos tiveram a grade curricular igual a do curso de artes (habilitações em pintura/escultura/gravura): dois semestres de fundamentos da linguagem visual, quatro de história da arte, três de filosofia da arte, um semestre introdutório a cada uma das quatro habilitações e semiótica.

O programa das aulas de semiótica abordava a vertente francesa, menos comum nos cursos de artes, comunicação e design, onde são mais difundidas as ideias da semiótica americana. Tive contato com ela durante apenas um semestre e confesso que nesse curto período tornou-se difícil de entender ou até mesmo de gostar de entender. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXV – O Saber e a Opinião

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Acredito que em todo curso universitário nós aprendemos que nossa opinião não vale nada: quando você tem uma ideia nova, pode ter certeza que alguém já pensou nisso antes. E talvez muito tempo atrás, e talvez muitas pessoas. Isso é bom para algumas coisas e ruim para outras. É bom para entendermos que, diferentemente do âmbito profissional, estudar não é competição. Você não está concorrendo com o seu professor – se você acha que está, ou o seu professor acha, todo mundo sai perdendo. A finalidade é construir conhecimento e, portanto, trata-se de uma escolha. Ninguém é obrigado a aprender; à priori, aprendemos porque escolhemos aprender.

A parte ruim é que isso acaba criando uma resistência ao ato de pensarmos por nós mesmos. Por exemplo: por que todo mundo aprende Semiótica no Design? É mais fácil assumir simplesmente que, se sempre foi assim, deve ter um bom motivo e seria perda de tempo procurar entendê-lo. Cuidado: uma coisa é não ter tempo para aprender (o que é até compreensível), outra coisa é não dar a mínima para isso. Ora, se você não dá a mínima, você não quer aprender e, neste caso, você não pode ter nenhuma opinião mesmo. Eu não posso dizer que acho Semiótica inútil se eu não sei o que é Semiótica. Leia mais…»

Contra o método – o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend

Um dos maiores pesadelos dos estudantes de Design é a tal da metodologia científica, cobrada nos trabalhos de graduação e, dependendo da instituição, até em simples exercícios projetuais. Embora eu entenda que a academia tenha certas exigências e linguagens, confesso que os melhores trabalhos que eu fiz na faculdade foram aqueles que a metodologia científica não era solicitada, sendo assim mais livres com relação ao formato de entrega. Hoje eu compreendo o porquê da metodologia científica ser exigida, mas ainda acredito que o aprendizado de Design não tem nada a ganhar com essa exigência.

Apesar de o método positivista ainda ser inegavelmente predominante em todos os cursos acadêmicos, o que muitos não sabem é que ele não é necessariamente obrigatório: sua função é apenas demonstrar o aprendizado e a capacidade do aluno em realizar uma pesquisa, mas caso o aluno consiga demonstrar isso utilizando outro método, não haveria (teoricamente) nenhum problema.  Claro que o mais fácil e mais “eficaz” (termo geralmente valorizado no Design) é fazer do jeito que o professor sugere (ou exige) ao invés de estudar, por conta e risco, o que há por detrás das inúmeras posturas metodológicas. Por isso tentarei neste texto, apoiado no anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, levantar algumas provocações no intuito de estimular o estudo de um campo que, em minha opinião, é indispensável ao ensino de Design: epistemologia.

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Filosofia do Design, parte XVIII – o Designer Bem-Sucedido

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora me faltem dados estatísticos concretos, tenho a intuição de que o número de psicólogos que se formam por ano é maior do que o número de engenheiros. Com a mesma intuição, porém, creio que a demanda brasileira por engenheiros é maior do que por psicólogos. Logo, a maioria dos psicólogos trabalha com RH, secretaria ou até almoxarifado. Parece familiar? Não responda ainda. Lembre-se apenas de quando você estava aprendendo a tabuada na escola e me diga se o seu estereótipo de bem-sucedido era, por acaso, o contador ou o contabilista.

Não, bem-sucedido pra uma criança (e pra qualquer um) é o pugilista que ganha 5 milhões numa noite, a modelo que recebe 15 milhões por desfile, o cantor que arrebata 500 milhões num disco. Situando-nos, agora sim, no Design, vemos a falta de interesse dos alunos pela produção acadêmica (muitos se formam sem ter um único artigo publicado) e a consequente dificuldade de argumentar sobre seus projetos. Talvez o ideal do designer bem-sucedido dos professores, necessariamente pós-graduados, não seja o mesmo ideal dos alunos. A questão “como posso aplicar isso no mercado?” revela a grande distância entre o que é ensinado e o que o mercado exige. Por outro lado, entre os alunos, muitos desconhecem o verdadeiro papel da academia diante do mercado de trabalho, embora tenham optado (ou foram forçados?) a ingressar em uma faculdade. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XII – Obstáculos Transdisciplinares

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Recentemente participei de um congresso sobre Epistemologia no qual, em determinada ocasião, coloquei o tema transdisciplinaridade em discussão. Embora pareça lugar comum, notei que todos os palestrantes se diziam transdisciplinares, haja vista que a proposta do evento, bem como a de seus realizadores, apoia-se no diálogo entre as diversas áreas do conhecimento.

Inicialmente mencionei o caso de um colega meu que, com formações acadêmicas bastante distintas, até agora não obteve êxito em concursos para professor universitário. Sua trajetória generalista, isto é, não especializada, aparentemente não tem sido muito bem quista. Eu mesmo tenho me deparado com situação semelhante: em minhas tentativas (no Brasil) para doutorado em Filosofia ou Psicologia, por exemplo, sou aconselhado a fazer antes uma graduação ou mestrado nessas áreas. A lógica é simples: se eu faço doutorado em Filosofia e não tenho nenhuma formação filosófica, pressupõe-se que eu a obtive de maneira autodidata. E o autodidatismo, evidentemente, é algo que questiona o próprio sentido do meio acadêmico. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XI – Pseudo-Filosofias

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Muitos alunos e colegas, após refletirem e estudarem um pouco de filosofia ou psicologia, me procuram nos corredores para compartilhar seus mais novos estalos heurísticos. Eu sempre tento contribuir mais do que criticar, mas muitos equívocos básicos são cometidos e às vezes o culpado acaba sendo eu mesmo por tê-los simplesmente motivado. Pois bem, na verdade tais equívocos não são privilégios só nossos, reles mortais, mas também de muitos PhDeuses por aí. Por isso, hoje minha tentativa é de pura crítica, pronto para também ser criticado, com o intuito de registrar minha opinião frente àquilo que tem se tornado frequente nas discussões filosóficas do Design às quais eu pude presenciar.

Considerado um dos maiores filósofos da atualidade, Ken Wilber é o fundador da Psicologia Integral, Transpessoal ou Cósmica, tanto faz, e propõe simplesmente a integração de todas as áreas do conhecimento. Isso mesmo, trata-se de uma “Teoria de Tudo”, em seus próprios termos, unificando questões universais como vida, mente, alma, espírito e matéria. Calcado no discurso de Jung (essa é a pior parte), Wilber aproxima-se da psicologia de Abraham Maslow, conhecido no marketing pela “pirâmide das necessidades humanas”. Arrisco-me a dizer, perdoem-me os semioticistas de plantão, que isso tudo percorre o mesmo caminho da Semiótica peirceana que, apropriando-me do discurso do crítico de arte Affonso de Sant’Anna e do filósofo Gilles Deleuze, não passa de um “projeto falido cientificamente”. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte VI – O Design como Articulador Simbólico

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Em algumas aulas e oficinas, muitos alunos têm me perguntado: mas afinal, como esse tal do Imaginário se aplica no mercado? Pois é, não é culpa deles e, por isso, tentarei descrever aqui um breve panorama de alguns exemplos restritos a apenas um dos cânones do Imaginário: Carl G. Jung. Isso porque talvez seja o nome mais conhecido pelas pessoas em geral e, sobretudo, porque representa o principal autor que estou utilizando em minha dissertação.

Não há como, porém, eu deixar de falar de alguns trabalhos de meu colega Ivan Mizanzuk, meu tutor e companheiro nessas trilhas do Imaginário. Em seu TCC (2007), Ivan nos explica que a principal contribuição de Jung foi o conceito de “inconsciente coletivo”. Intrigado com o fato de seus pacientes relatarem sonhos idênticos a mitos de culturas distantes e, muitas vezes, já extintas, Jung supõe uma espécie de “memória coletiva” da humanidade. Trata-se de uma parte de nossa psique que seria atemporal e muito semelhante entre as pessoas, contendo aquilo que Jung chama de “arquétipos”. Em poucas palavras, são estruturas vazias ou padrões imutáveis que, ao se encontrarem com uma determinada cultura, manifestam-se através dos “símbolos” que, em sua vez, são imagens mentais que constroem a ponte entre o inconsciente e o consciente. O “mito” seria então a organização narrativa destes símbolos em uma unidade entre o indivíduo, o coletivo e o cosmos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte II – Um Estigma Totalizador

* texto publicado originalmente no Design Simples.

Não é novidade falarmos que o Design apresenta uma definição epistemológica indeterminada. No contexto nacional, nota-se que o CNPq classifica Design como sendo parte das Ciências Sociais Aplicadas (veja a Plataforma Lattes), tangenciando, portanto, às Ciências Humanas e às Ciências Exatas. A CAPES, por sua vez, insere o Design em uma área independente e confusa chamada “Arquitetura, Urbanismo e Design” (veja o relatório de 2009). Especificamente em pesquisa, a produção filosófica nunca esteve incluída entre os temas de pós-graduação (veja o Snapshot de 2008).

Mas a questão é: será que toda essa taxonomia tem funcionado no Design? Analisemos um exemplo simples. Quando um designer realiza uma pesquisa sobre Estética, mas sem ter estudado o mínimo que já foi construído na área de Filosofia sobre esse tema, seu trabalho só terá validade em um contexto restrito (seu cliente ou seu professor). A partir do momento que tal pesquisa é apresentada a algum filósofo, ou qualquer um que tenha estudado Estética (disciplina da Filosofia), o trabalho deixa de comunicar aquilo que se propunha. Ou seja, qualquer trabalho que se limita a uma determinada teoria, ou mesmo à postura de quem o executa, deixa de cumprir com a sua função comunicacional quando se apresenta àqueles que não compartilham da mesma teoria ou postura. Leia mais…»

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