Sobre a teoria linguística de Saussure

Em meu último post aqui no blog, levantei algumas questões introdutórias ligadas à linguagem, utilizando como referência principal a teoria da linguagem de Saussure. Um ponto que ficou em aberto foi o do quanto e de que formas o sujeito seria, de certo modo, colonizado pela linguagem. Eu apresentei então somente um aspecto da questão — que não pode de modo algum ser considerado uma resposta –  e pretendo refletir melhor sobre o assunto em um próximo post, inclusive mostrando como a teoria do Saussure de fato só trata de uma pequena área da esfera da linguagem, embora muitas de suas ideias sejam aplicáveis também em outros lugares, como mostrarão os estruturalistas. Antes de fazer isso, porém, achei que seria pertinente escrever uma exposição minimamente aprofundada de alguns aspectos da teoria do Saussure — é isso que farei no presente post. Utilizarei como guia principal o Curso de linguistica geral (CLG), compilação das notas dos alunos dos cursos de Saussure ministrados a partir de 1906 e que é o principal registro das teorias do linguista. A edição consultada do CLG foi: SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006 (disponível neste link). Leia mais…»

Comentário sobre a multi/inter/transdisciplinaridade

Meu post é breve, e nasce com um intuito mais corretivo do que de novidade, e o assunto é a multidisciplinaridade do design. Muita gente afirma que o design é interdisciplinar, e essa transdisciplinaridade do campo é algo que influencia substancialmente sua epistemologia, e torna suas fronteiras demasiada fluidas para se falar de um “é/não é” design. Ler mais deste artigo

O que é um “modelo”?

3210838977_26d9efb96e_oA suposição é a seguinte: superada a consciência da morte e o pavor de colocar moedas em um bolso furado e perdê-las para sempre, provavelmente um dos maiores medos que ainda resta a ser enfrentado pelo homem é o de ser impossibilitado de comunicar seus pensamentos de alguma forma. O  caminho longo e tortuoso que separa o emaranhado dentro da cabeça de um ser humano até o papel (ou a atmosfera, ou o arquivo digital, ou um show de mímica) é um fantasma conhecido e já espremido por diversos filósofos e estudantes de mestrado mundo afora.

Um deles, chamado Ludwig Wittgenstein, parece ter ficado tão assombrado diante de tal fantasma que motivou-se a publicar seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, dissertando principalmente sobre o fato da linguagem ser apenas um “disfarce” para os reais pensamentos, e que portanto ela era o verdadeiro problema que deveria ser solucionado pelos filósofos. O teor de sua obra, em síntese, era a busca por uma linguagem científica precisa o suficiente para transpor essas barreiras e então dar um fim à maioria dos problemas que ela causava para a filosofia – que poderia, então, tornar-se uma área voltada para a exploração de soluções que realmente importassem para as pessoas – saúde, educação etc. Basicamente, o que ele queria provar era que todos os circulóquios e ensaios filosóficos eram mera questão de linguagem. A partir da publicação de seu Tractatus, uma nova filosofia poderia começar. Ler mais deste artigo

O enigma relativista

Quando se tenta pensar por conta própria e expor o que se pensa, a reação padrão é: mas você não está simplesmente encaixando as coisas em tuas próprias categorias, baseando-se numa visão parcial e limitada sobre o mundo?

Em qualquer circunstância, a resposta mais adequada seria: mas em que momento eu disse que não estou fazendo isso? Daí convém estabelecer um tipo provisório de acordo epistemológico: se algum de nós pensa que não está “encaixando” as coisas em categoria particulares, enxergando o mundo de forma imparcial, tal como ele é em “si mesmo”, então não há como continuar a conversa.

O interessante é que a indagação inicial remete a uma visão relativista ingênua (previamente auto-sabotada), uma vez que a grande dificuldade do relativismo consiste em levar em conta nossos próprios pressupostos, e não em tentar dissociar-se deles. Leia mais…»

improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

Definir para discutir

O tema que eu gostaria de fato de abordar nessa coluna é a respeito do design como linguagem, mas minha pesquisa ainda é inconclusa, ou por demais rasteira para valer a pena apresentá-la a público já. Portanto, trago antes, algo que já assumo um posicionamento faz algum tempo, mas sem nunca ter empreendido um debate de fato sobre o assunto. Pra variar, o assunto gira em torno da bendita definição do design. Ou melhor, não do design, mas do designer. Quero, então, aqui, colocá-la à prova, justamente para que ou ela evolua, ou eu a chute de uma vez para escanteio. Agora, a definição.

Designer faz projeto de interface funcional pragmática.

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opção fnord

A Ford logo subverted to read Fnord

Logo, subvertida (Photo credit: Wikipedia)

A vida é feita de opções. Frase tão trivial que quase não diz nada. Mas esconde algo: Um pressuposto perigoso de que a vida deve ser (ou simplesmente é) modelada pelo nosso condicionamento verbal.

É óbvio. Não?
Nosso cérebro macaco é extremamente flexível. Tão flexível que consegue até fazer coisas inúteis como processar palavras. Mergulhados na cultura como estamos, esquecemos como uma palavra carece de praticidade. Mas imagine-se perdido numa floresta sem o manual do escoteiro mirim, e me diga: Para que você usaria uma palavra? (Gritar por socorro não precisa de palavras, qualquer som claramente não animal serve).

Contraste isso com a vasta utilidade cultural das palavras: Utilidade para lidar com outros seres humanos, na prática passar outros para trás. Ler mais deste artigo

O inconsciente [Imagem e psicanálise : parte I]

O inconsciente é, sem dúvida, um dos conceitos mais importantes — se não o mais importante — da psicanálise. É crucial compreender logo de saída que não se trata, para Freud, apenas de dizer que não temos acesso a parte de nossa mente. Freud pensa o inconsciente como um sistema mental específico. O sistema inconsciente — representado pela sigla Ics, para ficar mais fácil diferenciá-lo do termo ordinário, usado como adjetivo — está em oposição ao sistema consciente/pré-consciente (Cs/Pcs), que é aquele nos quais circulam os pensamentos momentaneamente presentes na consciência ou facilmente acessíveis a ela — por isso chamados pré-conscientes, já que não são propriamente conscientes: só estão inconscientes momentaneamente, pois nada os impede de aparecerem para a consciência. Ou seja, se você não está pensando naquilo que você comeu no almoço neste exato momento, mas poderia pensar sobre isso agora que eu mencionei o assunto, então não diríamos que as ideias (estou usando o termo de maneira genérica, para não complicar o assunto) que compõem seu pensamento sobre seu almoço são conscientes, mas também não diríamos que são inconscientes, e sim pré-conscientes. A distinção entre consciente e pré-consciente não interessa muito a Freud, por isso ele costuma agrupar os dois na sigla Cs/Pcs. Leia mais…»

Do espanto contra a hipótese

[O texto abaixo estava engavetado há um bom tempo porque eu nunca consegui "digeri-lo". Espero que alguém consiga.]

Tenho uma teoria: a hipótese é sempre nula. A problemática que a antecede não é um problema, ela já está resolvida em si: houve um julgamento anterior, sem hipóteses ou experimentos, na medida em que chamamos isso de “problema”.

Disso decorre que quaisquer levantamentos, estatísticas ou citações não comprovam a existência de um problema – são desdobramentos meramente inferenciais da hipótese que supostamente fundamentam.

Nossa capacidade de raciocinar, nossa atitude cognoscente, coloca-nos numa posição privilegiada com relação aos objetos de estudo, sobretudo quando somos nós os objetos, fazendo-nos desprezar o que há por detrás de quem raciocina. Leia mais…»

Design, biogenética e a virtualização do real

* texto gerado a partir de mini-palestra ministrada na Edição Zero do R Design Curitiba 2012. Slides disponíveis <aqui>.

Devo esclarecer que sou completamente leigo em biogenética, física quântica e demais assuntos que serão tratados a seguir. Acontece que o tema “ficção x real”, sobre o qual tenho me debruçado ultimamente, parece ser mais fácil de explicar através de exemplos ao invés de conceitos filosóficos – talvez porque eu ainda não tenha domínio suficiente. Então me arrisco a preparar uma “salada sci-fi” no intuito de apenas ilustrar o que eu penso sobre a virtualização do real.

A física quântica parte basicamente da ideia de que, se não há nenhum observador, toda a realidade é vazia em si mesma. Não significa que a realidade não existe (ou que ela é fruto da imaginação de alguém), significa que a realidade é sempre distorcida. Nossa percepção de algo faz parte do algo percebido, de tal modo que, se retirarmos nossa perspectiva de observação, perderemos a coisa observada em si. Leia mais…»

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