O aftermath da tabela

”No reino do kitsch totalitário, as respostas são dadas de antemão
e excluem qualquer pergunta nova. Daí decorre que
o verdadeiro
adversário do kitsch totalitário é o homem que interroga. A pergunta é como
a faca que rasga a cortina do cenário para que se possa ver o que está atrás.”

Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser

Se você faz parte do campo “criativo” do “mercado”, com certeza você acompanhou a polêmica da tabela de preços semana passada – ou foi retrasada?. Depois da mariola da peteca, gostaria de tentar fazer alguma contribuição na transcendentalização da tabela para tentar discutir sobre algo mais produtivo. Claro que outras críticas já foram empreendidas por pessoas muito, muito, muito, mas muito mais competentes do que eu. Mas vou tentar acrescentar alguma coisa.

aftermath

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Dilemas do Design V: corporativismo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O design como conhecemos hoje só existe porque jovens de 20 a 30 anos se sujeitam a trabalhar como escravos para empresas que os usam como ferramentas.” – Charles Watson.

Muitos críticos sustentam que o indivíduo de hoje, diante de um suposto enfraquecimento dos tradicionais laços de identidade (família, trabalho, religião, panelinha etc.), tem abandonado o sentimento de identidade coletiva em proveito de condutas narcisistas e hedonistas. É uma leitura plausível, mas simplifica questões prementes, sobre as quais ainda pretendo discorrer em ensaios mais longos, fora dessa série dos dilemas do design. Leia mais…»

repressão (vadias redux)

Anteontem o espetáculo Hasard do ERROgrupo foi interrompido pela polícia, que alegava que os atores iriam ficar pelados, uma autuação por pré-crime. Minority Report na vida real, caso alguém ainda não tivesse percebido que vivemos numa estranha ficção.

Ceci n’est pas une Líder (por: Ricardo Wolffenbüttel / Agência RBS)

Na estranha ficção que por alguma razão chamamos de realidade, o corpo é uma coisa perigosa. É um segredo a ser mantido sob estrito controle. Muito curioso, já que afinal a experiência corporal, essa de ter um corpo e ser um corpo, de certa forma é a primeira de nossas vidas. Também não se trata de uma pura demonização do corpo, afinal o corpo em si não é transgressivo, ou mais precisamente no fundo é impossível abdicar do corpo. Trata-se de uma forma de jogar com o corpo, de um complexo e arriscado jogo, do qual não deveríamos nos manter ingênuos.

E há várias formas diferentes de ser ingênuo quanto ao assunto. É simplismo, por exemplo, dizer que o impulso sexual exige ser controlado, como se fosse um tipo de bomba atômica que assim que liberado destruiria mundos. Mas também é simplismo acreditar que a simples validação do impulso sexual resolve todos os problemas, como na mensagem da Marcha das Vadias de que “a mulher deve estar no controle da sua própria vida sexual”.

Nossa relação com o corpo é complexa, no sentido de ser uma miríade de tensões num balanço delicado. É muito fácil pegar apenas uma parte dessa bagunça e transformar numa história simples. Mas quase sempre essas histórias simples são um jogo cujas regras não nos permitem ganhar. Ler mais deste artigo

Debate FdD: por que os pilotos kamikazes usavam capacete?

Debate FdD é uma série de “posts coletivos” (em paralelo ao debates homônimos lançados em nosso facebook e tumblr) e este post é nossa primeira tentativa. A ideia é a seguinte: alguém lança uma questão e cada colaborador aqui do blog escreve brevemente o que pensa a respeito. Essa primeira pergunta eu roubei descaradamente do braincast 55, mas o ideal seria que você, leitor, nos enviasse suas próprias perguntas (deixe nos comentários). Agora vamos ao assunto do dia: segurança do trabalho!

Bolívar Escobar: Lembram daquele relato do kamikaze que sobreviveu ao seu vôo quase final porque caiu na água? Onde foi que vi isso? Seu depoimento era algo como “estou vivo, que vergonha”. Leia mais…»

E o Xico?

Bem no começo da facul li (no livro do Lobach se não me engano no Heskett, mas alguém pegou emprestado e não devolveu o meu, então não posso verificar agora) que havia uma enorme semelhança de forma entre os móveis modernistas e os moveis da seita religiosa Shaker. Na época, achei que isso devia ser só um acaso, uma semelhança sem qualquer explicação ou consequência. Hoje me questiono se nã pode haver alguma ligação mais direta.

Não que Gropius tenha espionado o escritório da Mãe AnnLee, ou qualquer teoria conspiratória do gênero (se bem que isso dava um belo conto). Mas o ambiente acadêmico alemão, que acaba gerando a Bauhaus (por mais que eles se pretendessem anti-acadêmicos, convenhamos, era uma faculdade alemã!), é o mesmo ambiente no qual, séculos antes, Lutero proclama as teses que vão dar origem ao protestantismo.

Ah, não! Será que esse post vai falar de religião? Ler mais deste artigo

vadias

Banksy girl & policemanDesigners de moda deviam fazer uma passeata anti-Marcha-das-Vadias. Segundo a lógica da Marcha, algo que se veste não pode afetar o desejo. E, se for assim, criar roupas é uma ocupação medíocre.

Claro, nem mesmo os organizadores da Marcha têm o disparate de sustentar uma coisa assim. O reclame é “minha roupa danada não é razão pra me estuprar”. Parece sensível, mas se pararmos pra pensar, isso assume um estuprador que tenha escolhido estuprar por razões lógicas, calmamente consideradas, praticamente um esquizofrênico. Devem existir pessoas assim, mas devem ser 3 no mundo. Talvez 4.

A maior parte dos estupros, bem como a maior parte das situações de sexo saudável entre adultos consensuais, é uma mistura de impulsos e sentimentos confusos. Nessa mistura, o desejo tem uma presença colossal.

E no entanto, não se pode falar no desejo, pois somos uma sociedade assolada pelo pudor. Ler mais deste artigo

Narcisismo ou o talento de rir por não haver talento algum

Quando aparentamos estar minimamente felizes ou infelizes em nossas timelines, o julgamento moral mais fácil é o de que estamos sofrendo cronicamente de falta de atenção. Claro que tal impressão pressupõe que existe uma forma mais nobre de satisfação emocional que não deveria ser exibida publica-mente. Ou ainda, na versão marxista: estamos consumindo um modelo de felicidade intercambiável e genérico que, enquanto mercadoria despojada de valor de uso, é alienante e não produz satisfação verdadeira.

Seja como for, mais legal seria questionar: a falta de atenção em si não pode ser motivo de satisfação? E mesmo que certas condutas emocionais possam funcionar como um tipo de estratégia predatória, isso seria suficiente para depreciarmos moralmente a ambição de parecer feliz? Não quero falar, pois, do que é ou deixa de ser felicidade, mas das nuances de uma possível celebração do eu narcisista na contemporaneidade. Interessa-nos, enquanto designers, compreender brevemente de que modo nossa vida emocional tem se transformado em conduta social por meio de objetos, imagens e rituais da atualidade. Leia mais…»

twitter^-1 ou a superficialidade contemporânea

caninha no estado cú de foca depois de 3 dias num banho de nitrogênio líquidoO certo é: sal, tequila, limão.

Exatamente nessa ordem.

A explicação funcionalista é a seguinte: O sal protege a gengiva, o limão tira o gosto. As duas coisas voltadas pra minimizar o estrago de uma tequila trevas. É mais ou menos o que você faria, em termos brasileiros, se estivesse tomando Velho Barreiro. Se você estivesse tomando uma Anísio Santiago, fazer a mesma coisa seria um grande desperdício, afinal uma pinga que custa mais de cem mangos a garrafa não é coisa da qual você tenha que se proteger. Mas aí é que mora a trapaça: Não tomamos por aqui tequilas ruins. Pode ter certeza que existe todo tipo de coisa bizarra por lá, no México, mas ninguém importa as tosqueiras. Afinal, se você vai pagar o (alto) custo de transporte, vale mais à pena importar a tequila que presta.

Em economês, isso tem um nome: Efeito Alchian-Allen. Precisamente, diz que quando se adiciona um custo fixo a dois produtos equivalentes B e C, aumenta-se o consumo do produto mais caro. A princípio isso é estranho, porque um aumento de preços nos levaria a buscar a versão mais barata, mas o que acontece é que você diminui a diferença proporcional entre os dois preços. Digamos que B custava $10 e C $20. O dobro! Mas quando você adiciona um custo fixo de $10, agora B custa $20 e C $30, já não é uma diferença tão absurda. Se o custo fixo fosse por exemplo $30, no final $40 x $50, já quase não faz diferença.

OK, mas o interessante é que isso pode acontecer ao contrário, quando você corta um custo fixo, tornando tudo igualmente mais barato, você pode aumentar o consumo do produto barato. É por isso que temos o Twitter! Ler mais deste artigo

Projetando focinheira para vampiros

twilight-saga-scene-cutPassei os últimos meses (e ainda continuo) em verdadeira maratona intelectual, tentando dar forma a minha pesquisa de doutorado sobre diferentes modos de enxergar as possibilidades e motivações para controle dos próprios desejos. Aproveitando o sucesso estrondoso da Saga Crepúsculo, começo tal pesquisa com uma leitura da saga.

Imagino que todos os leitores saibam – requisito mínimo de erudição pop – que um dos pontos centrais da história é a luta de alguns vampiros para controlar seus impulsos. Edward, o vampiro galã protagonista, passa a maior parte de Crepúsculo tentando controlar sua sede pelo sangue de Bella, sua amada. A cada momento, ele tem de lutar entre seu desejo vampiresco de matá-la com um chupão sanguinolento e seu humano, demasiado humano, amor romântico que o impele a protegê-la e a fruir de sua doce presença. Leia mais…»

O crítico de arte Reinaldo Azevedo: uma tentativa de entender seus comentários sobre Oscar Niemeyer

Sobre o assunto Niemeyer, postaram-se dúzias de comentários, elogios e críticas nas redes sociais. A crítica mais divulgada e comentada, sem dúvida alguma, foi a de Reinaldo Azevedo. Parei apenas hoje para ler os textos do comentarista sobre o assunto, e, ao que me parece, talvez seja interessante olhar mais profundamente o que este afirma, tentar entender seu ponto e, só depois, fazer algum julgamento sobre. Os textos em questão são esses, e vou tentar me esforçar para entender o que Reinaldo escreve.

Texto 1 - Morre Oscar Niemeyer, metade gênio e metade idiota – link
Texto 2 - Niemeyer e os zurros dos 100% idiotas – link
Texto 3 - Niemeyer, a obra e o pensamento. Ou ainda: Por que ser “poeta da curva” é superior a ser “poeta da linha reta”? – link -  Leia mais…»

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