sete questões

Pensar sobre design não deve se resumir a pensar relações profissionais de designers: Essas relações não existem sem um contexto. O projetar informa (é mais um dos processos que informam) esse mundo contemporâneo, e na medida em que existe uma escolha mais ou menos política de fazer o design ser paradigmático (tanto como forma de aumentar o preço do serviço quanto como uma justificativa da economia como criadora de felicidade, via “inovação”) as armadilhas de um tipo de pensamento que se limitasse à relações com clientes vão se tornar cada vez mais aparentes. Quero portanto deslocar a atenção para algumas questões interessantes hoje.

1: Matemática, ou a programabilidade

O rápido desenvolvimento do computador nas últimas décadas gerou todo tipo de efeitos não-óbvios. O primeiro deles é que com a miniaturização dos componentes é possível adicionar um computador a praticamente qualquer coisa física onde se possa imaginar um uso para algum tipo de computar. E computar é uma forma de inserir nessas coisas físicas uma qualidade matemática. O que isso gera?

Essa “parte matemática” tende a começar como uma simples adição, sem interferir com a natureza do objeto original. Esse processo é mais facilmente visível na internet. Estamos entendendo a internet como uma mistura de textos (livros, revistas) e programabilidade. A princípio, a internet se baseava em textos estáticos, mas com o passar do tempo a programabilidade do conteúdo se mostrou um potencial muito maior, de forma que cada acesso à uma página gera um novo “olhar” sobre aquele conteúdo, tornando a troca de informações muito mais dinâmica e poderosa.

Da mesma forma, é possível que desenvolvimentos semelhantes existam quando adicionamos programabilidade à outras coisas. Um exemplo interessante é o dinheiro, que vem sendo não só substituído por cartões eletrônicos, mas esses próprios cartões já incorporam chips. E embora as consequências de cada uma das inovações seja sempre benéfica, não há garantia de que o conjunto delas seja, já que cada uma delas altera o mundo em que vivemos, que é exatamente o contexto do design. Nos resta uma aceleração do processo que tende a aumentar a complexidade e diminuir o controle. E ainda existem mais 6 questões…»

As quatro trincheiras de uma guerra sem chão

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

MMA é a sigla para artes marciais mistas, modalidade esportiva que tem se tornado cada vez mais popular através do torneio UFC. Zumbis são criaturas fictícias que representam seres humanos mortos ou infectados, sedentos por cérebros saudáveis. Hipsters é a designação de uma subcultura que fetichiza a autenticidade por meio da negação da cultura mainstream. Por fim, “occupy” se refere aos recentes movimentos sociais de mobilizações e protestos urbanos que não demonstram um posicionamento político bem definido.

São muitas as relações possíveis entre esses quatro fenômenos contemporâneos, mas o “espírito de guerra” que os circunscreve é o que me parece mais sintomático. Embora tal aspecto humano e sua decorrente paisagem apocalíptica já estejam “eternizados” em diversos relatos mítico-religiosos – Babel, Troia, Atlântida etc. –, a aparente ausência atual de guerras “reais” pode estar sendo superada através de sua re-experiência sob a forma de consumo. Leia mais…»

Não somos aqueles por quem estávamos esperando

Muito se tem discutido, pelo menos no contexto específico dos estudantes de design de Curitiba, sobre engajamento ativo, representatividade, manifestos e mobilizações entre designers. É como se a tão aguardada regulamentação do design enaltecesse um senso de responsabilidade social como estratégia de valorização de nossa profissão. Segue-se o famoso lema de Gandhi “seja você a mudança que deseja ver no mundo”, que é muito próximo ao antigo ditado hopi [1] de que “nós somos aqueles por quem estávamos esperando”.

Minha reação permanece a mesma: não tenho nada com isso [2]. Ainda assim algumas pessoas insistem em “discutir” (eufemismo para negociação doutrinária) sobre o papel de minhas filosofices de design, como se devesse existir alguma finalidade ética ou política no que eu faço (ou deveria fazer) que possa contribuir de modo concreto para a sociedade. Geralmente minha resposta é “desculpe, mas não sou quem você esperava”. Leia mais…»

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 1

What a concept

Primeiro ato: Alguém faça o teste, um jovem de 23 anos com conta no Stumble versus um veterano de guerra com mais de 75 anos, qual dos dois conhece mais fatos aleatórios

A enceradeira tem esse nome por que o papel dela no universo é encerar o chão. Quando você conecta uma enceradeira na tomada e aperta o botão “liga ou desliga” dela, um disco na parte inferior começa a realizar movimentos circulares que lustram o chão. O cara que inventou a enceradeira colocou apenas esse movimento nela por que seu intuito devia ser, de fato, criar algo capaz de encerar o chão, e pronto. Quer dizer, você pode invertê-la e usar como toca discos, mas tal ação o faria digno de se tornar uma promessa a ser o novo Mr. Bean mais do que um gênio da música. Tirando isso, a enceradeira serve só pra encerar o chão. As pessoas enceram o chão para que ele fique limpo, já que sujeira no chão é uma coisa que pode causar doenças. Outras coisas que causam doenças: alimentos de procedência duvidosa, tomar banho e sair com cabelo molhado no vento, jornadas de trabalho estressantes.

Você não pode pedir para uma enceradeira lhe fazer um omelete por dois motivos muito simples: primeiro, ela não tem os instrumentos necessários para o manuseio dos ingredientes e ferramentas que produziriam um omelete. Ler mais deste artigo

pertencer e excluir

traseira do iMac 1998 da cor Bondi BlueO jogo do design, ao esconder e revelar intrincados níveis da realidade (ou, se você levar Flusser à sério, a própria realidade), aciona poderosos sentimentos. Podem não ser sentimentos poderosos do tipo “juro vingança e nunca mais dormirei na mesma cama antes de matar o maldito que alterou a marca original do Itaú”, mas certamente são sentimentos poderosos o suficiente para redirecionar os fluxos dos desejos da sociedade do espetáculo (e, através deles, os níveis de compra, e através deles, os indicadores econômicos — que de acordo com quem você pergunta são a única realidade que importa).

Vindo de uma perspectiva um pouco diferente, parece não fazer nenhum sentido que uma cor azul possa fazer qualquer diferença significativa de uma cor preta, como por exemplo quando a iMac original na sua cor bondy-blue deslocou a Apple da via da falência para o caminho de se tornar a maior empresa do mundo. É só uma cor!? Ou seja, por mais que eu perceba esse poder do design, também percebo que existe alguma coisa nele que não é tão fácil de explicar, que não é óbvio ou que não funciona de uma forma linear como a economia ou a física poderiam sugerir.

Uma das camadas dessa complexidade é a relação de pertencimento. Ler mais deste artigo

O Discurso da Minoria

A complexidade pela qual a sociedade cada vez mais se torna, constrói a seu favor ou contra grupos de pessoas que emitem certas opiniões, sendo que estas na medida do tempo passam por uma seleção que procura ratificar o mais provável para o desenvolvimento de todos. Essa escolha de discursos, claro, perfaz um emaranhado de detalhes no qual o fim é aquilo mais procurado: o poder. Pois, a busca incessante de controle move de maneira incessante cada uma das pessoas tanto na micro quanto na macropolítica e assim a fala de cada de um é reavaliada pelo grau de poder que ela emane. O mais interessante é que na nossa época contemporânea se abriu uma procura de preencher todos os campos sociais, não porque há uma ausência, ou seja, carente de poder, e sim ao contrário, requer o poder porque este já o tem e almeja uma elevação. Essa modo de proceder está bem explicado no comentário de Heidegger sobre o pensamento de Nietzsche, que de acordo com ele pode ser denominado de a filosofia da vontade de poder. Heidegger cita no ensaio “A Sentença de Nietzsche: Deus está morto”: Ler mais deste artigo

A fuga de Amy Winehouse

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Sabe da última? A cantora Amy Winehouse, premiada com 5 Grammy’s, morreu recentemente em Londres, com 27 anos. E se você disser “e eu com isso?”, todo mundo vai te olhar como se você fosse um estuprador.

Ora, ela era alcoólatra e drogada. Mas também era indiscutivelmente talentosa. Acima de tudo, a desgraça dela comovia as pessoas.

Em algum tumblr da vida encontrei a seguinte mensagem (autor desconhecido):

“Ela sabia o que ela era, uma viciada, uma romântica incurável, ela sabia que estava doente. (…) No entanto, ela era uma pessoa. Nós todos temos defeitos, vícios e situações obscuras”.

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Consumo estúpido

* texto originalmente publicado no blog Formas do Consumo

Imagino que sejam poucos os leitores que não guardaram na memória a campanha da Diesel que circulou aqui pelo Brasil no ano passado ou retrasado e cujo slogan nos oferecia o seguinte conselho: seja estúpido! Em cada uma das peças publicitárias, essa exortação era acompanhada de diferentes fotos e frases ilustrativas.

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Sobre o assassinato na escola de Realengo

[caso o título não esteja explícito o suficiente, saiba que este ensaio não tem nada a ver com Design. Opinião pessoal, você não precisa ler, etc...]

“Rapaz esquizofrênico invade escola do Realengo…” (vocês já sabem do resto). Que absurdo, não? Tanto que até nossa presidenta, ex-guerrilheira, fez questão de chorar. Tiroteio, violência, morte… isso agora é novidade no Rio de Janeiro? Acontece que foram crianças inocentes, numa escola. Não estamos falando das centenas de idosos doentes que morrem diariamente nas filas de hospitais públicos, nem dos 7.254 prisioneiros que foram condenados à morte nos Estados Unidos… estamos falando de crianças. Inocentes. Que estavam na escola. Um minuto de silêncio, por favor.

Isso nos faz esquecer que, recentemente, em São Paulo, uma moça jovem e rica planejou, com seu namorado, o assassinato de seus pais. Ok, foram 2 adultos (e não 12 crianças) que morreram nessa história. Do mesmo modo, ninguém mais se lembra daquele casal que jogou a filha pela janela, nem daquele rapaz que matou outro rapaz na livraria com um taco de beisebol, nem daquele adolescente que atirou em todo mundo no cinema, nem daquele goleiro que mandou matarem sua ex-namorada… Leia mais…»

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