Dilemas do design III: o ainda-não-ser

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

No último post mencionei o caráter de “ainda-não-ser” do design e terminei dizendo que, para driblar esta incoerência da ação projetada, buscamos por certos “padrões” projetuais. O pressuposto implícito em tais padrões é o de que, assim como um produto de design, o usuário seria previsível dentro de um contexto inevitável.

Se por um lado isso pode ser traduzido como uma forma de imposição de um comportamento padrão (manipulação midiática etc.), por outro, também pode significar a reinvenção do próprio conceito de “usuário”, induzindo a rupturas de comportamentos-padrão. Leia mais…»

E o Xico?

Bem no começo da facul li (no livro do Lobach se não me engano no Heskett, mas alguém pegou emprestado e não devolveu o meu, então não posso verificar agora) que havia uma enorme semelhança de forma entre os móveis modernistas e os moveis da seita religiosa Shaker. Na época, achei que isso devia ser só um acaso, uma semelhança sem qualquer explicação ou consequência. Hoje me questiono se nã pode haver alguma ligação mais direta.

Não que Gropius tenha espionado o escritório da Mãe AnnLee, ou qualquer teoria conspiratória do gênero (se bem que isso dava um belo conto). Mas o ambiente acadêmico alemão, que acaba gerando a Bauhaus (por mais que eles se pretendessem anti-acadêmicos, convenhamos, era uma faculdade alemã!), é o mesmo ambiente no qual, séculos antes, Lutero proclama as teses que vão dar origem ao protestantismo.

Ah, não! Será que esse post vai falar de religião? Ler mais deste artigo

O que é um “modelo”?

3210838977_26d9efb96e_oA suposição é a seguinte: superada a consciência da morte e o pavor de colocar moedas em um bolso furado e perdê-las para sempre, provavelmente um dos maiores medos que ainda resta a ser enfrentado pelo homem é o de ser impossibilitado de comunicar seus pensamentos de alguma forma. O  caminho longo e tortuoso que separa o emaranhado dentro da cabeça de um ser humano até o papel (ou a atmosfera, ou o arquivo digital, ou um show de mímica) é um fantasma conhecido e já espremido por diversos filósofos e estudantes de mestrado mundo afora.

Um deles, chamado Ludwig Wittgenstein, parece ter ficado tão assombrado diante de tal fantasma que motivou-se a publicar seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, dissertando principalmente sobre o fato da linguagem ser apenas um “disfarce” para os reais pensamentos, e que portanto ela era o verdadeiro problema que deveria ser solucionado pelos filósofos. O teor de sua obra, em síntese, era a busca por uma linguagem científica precisa o suficiente para transpor essas barreiras e então dar um fim à maioria dos problemas que ela causava para a filosofia – que poderia, então, tornar-se uma área voltada para a exploração de soluções que realmente importassem para as pessoas – saúde, educação etc. Basicamente, o que ele queria provar era que todos os circulóquios e ensaios filosóficos eram mera questão de linguagem. A partir da publicação de seu Tractatus, uma nova filosofia poderia começar. Ler mais deste artigo

Dilemas do design II: dualismos

dualismos* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Todo projeto é uma forma camuflada de escravidão? – Emil Cioran

O profissional de design representa SIM um dos protagonistas da contemporaneidade na medida em que ele atua no seio de um processo (dentre muitos outros) de produção-distribuição-consumo que se estabeleceu, no decorrer das últimas décadas, como força motriz social. Uma perspectiva otimista consideraria o design, neste contexto, como novo ponto de encontro e convergência de uma miríade disciplinar que fundamentaria a reflexão intelectual e informaria a uma práxis cultural crítica e inovadora. Se for o caso, e obviamente quero crer que sim, o embasamento necessário ao exercício da “profissão design” estaria seguindo um trajeto contínuo de inter-relações dos vários campos do saber e tipos de sensibilidades. Projetar, planejar, gerenciar e produzir seriam condutas que superariam a mera reprodução, repetição e utilização das técnicas (mesmo das mais atuais). Leia mais…»

Da imagem literária ao design da escolha

Dentre as várias maneiras de se relacionar literatura e design, uma que me parece profícua é através da questão, amplamente explo-rada por Tom Mitchell (confira o post do Daniel a respeito), sobre o que “quer” uma imagem. Grosso modo, o que Mitchell nos ensina é que uma imagem é um engodo que quer nos atrair para o prazer estético, ela exige uma interpretação e empenha-se em nos “escan-dalizar” para que dela desviemos ou nela fixemos nosso olhar.

Por meio do viés literário (especialmente em Kafka e Kundera), contudo, suspeito que possa haver outra característica fundamental da imagem (e talvez mais pertinente para se pensar design): uma vez que ela nunca “ocorre agora”, mas está sempre já realizada e ao mesmo tempo sempre por vir, ela quer nos desvincular do fluxo temporal colocando-nos diante de nossas escolhas. Leia mais…»

O Designer enquanto autor

O texto a seguir é uma tradução livre que fiz de um ensaio de Michael Rock para a revista Eye, cuja versão original também pode ser lida online. Acredito que a discussão que esse ensaio traz é bastante frutífera e ele apresenta alguns modelos de autoria que foram usados em outras áreas e como eles poderiam ser utilizados no design. Não vou fazer pontuações em relação ao texto aqui no post, mas nos comentários, para que não fique mais extenso.

Essa tradução foi realizada porque me deu algumas bases para essa discussão no meu projeto de graduação. E, como tal, também foi distribuída em formato de fanzine na UFPE. Se alguém tiver interesse nesse formato – que foi feito para tornar a leitura um pouco mais leve – só entrar em contato, eu passo o arquivo pronto para impressão ou como e-zine mesmo. 

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O que realmente significa chamar o designer gráfico de autor? Ler mais deste artigo

Narcisismo ou o talento de rir por não haver talento algum

Quando aparentamos estar minimamente felizes ou infelizes em nossas timelines, o julgamento moral mais fácil é o de que estamos sofrendo cronicamente de falta de atenção. Claro que tal impressão pressupõe que existe uma forma mais nobre de satisfação emocional que não deveria ser exibida publica-mente. Ou ainda, na versão marxista: estamos consumindo um modelo de felicidade intercambiável e genérico que, enquanto mercadoria despojada de valor de uso, é alienante e não produz satisfação verdadeira.

Seja como for, mais legal seria questionar: a falta de atenção em si não pode ser motivo de satisfação? E mesmo que certas condutas emocionais possam funcionar como um tipo de estratégia predatória, isso seria suficiente para depreciarmos moralmente a ambição de parecer feliz? Não quero falar, pois, do que é ou deixa de ser felicidade, mas das nuances de uma possível celebração do eu narcisista na contemporaneidade. Interessa-nos, enquanto designers, compreender brevemente de que modo nossa vida emocional tem se transformado em conduta social por meio de objetos, imagens e rituais da atualidade. Leia mais…»

Dilemas do design I: o não-estar

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Tudo o que atualmente se pretende marginal, irracional, revoltado, “anti-arte”, anti-design, etc., desde o pop ao psicodélico e à arte na rua, tudo isso obedece, quer queira quer não, à mesma economia do signo. Tudo isso é design. Nada escapa ao design: eis a sua fatalidade. – Jean Baudrillard em Para uma crítica da Economia: Política do signo (Rio de Janeiro: Elfos, 1995, p. 206).

Uma das maiores contradições do design, ao menos no Brasil, reside no fato de que a crescente propagação/repercussão da ideia de “design” parece ser inversamente proporcional à valorização da mesma. Mesmo com certa “regulamen-tação” pré-aprovada, o hipsterismo implícito em nossa postura profissional (não sou designer de sobrancelhas, o povo banalizou etc.) não passa de um placebo que, ao invés de gerar valor, apenas nos reduz a panelinhas descartáveis no mercado. Leia mais…»

twitter^-1 ou a superficialidade contemporânea

caninha no estado cú de foca depois de 3 dias num banho de nitrogênio líquidoO certo é: sal, tequila, limão.

Exatamente nessa ordem.

A explicação funcionalista é a seguinte: O sal protege a gengiva, o limão tira o gosto. As duas coisas voltadas pra minimizar o estrago de uma tequila trevas. É mais ou menos o que você faria, em termos brasileiros, se estivesse tomando Velho Barreiro. Se você estivesse tomando uma Anísio Santiago, fazer a mesma coisa seria um grande desperdício, afinal uma pinga que custa mais de cem mangos a garrafa não é coisa da qual você tenha que se proteger. Mas aí é que mora a trapaça: Não tomamos por aqui tequilas ruins. Pode ter certeza que existe todo tipo de coisa bizarra por lá, no México, mas ninguém importa as tosqueiras. Afinal, se você vai pagar o (alto) custo de transporte, vale mais à pena importar a tequila que presta.

Em economês, isso tem um nome: Efeito Alchian-Allen. Precisamente, diz que quando se adiciona um custo fixo a dois produtos equivalentes B e C, aumenta-se o consumo do produto mais caro. A princípio isso é estranho, porque um aumento de preços nos levaria a buscar a versão mais barata, mas o que acontece é que você diminui a diferença proporcional entre os dois preços. Digamos que B custava $10 e C $20. O dobro! Mas quando você adiciona um custo fixo de $10, agora B custa $20 e C $30, já não é uma diferença tão absurda. Se o custo fixo fosse por exemplo $30, no final $40 x $50, já quase não faz diferença.

OK, mas o interessante é que isso pode acontecer ao contrário, quando você corta um custo fixo, tornando tudo igualmente mais barato, você pode aumentar o consumo do produto barato. É por isso que temos o Twitter! Ler mais deste artigo

Por um contemporâneo palintrópico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O problema do contemporâneo não é novidade e talvez nunca tenha sido propriamente contemporâneo. Sob o viés da história (“oficial”), desde o renascimento e a modernidade já nos preocupávamos com certa contemporaneidade – termo que não se resume a um tempo atual, mas se refere antes a um “estar junto” em tempos diferentes.

Por outro lado, no âmbito do design parece haver uma exigência de nos tornarmos contemporâneos de nosso tempo e de outros tempos através de produções que, por vezes, denunciam alguns delays históricos.  Leia mais…»

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