repressão (vadias redux)

Anteontem o espetáculo Hasard do ERROgrupo foi interrompido pela polícia, que alegava que os atores iriam ficar pelados, uma autuação por pré-crime. Minority Report na vida real, caso alguém ainda não tivesse percebido que vivemos numa estranha ficção.

Ceci n’est pas une Líder (por: Ricardo Wolffenbüttel / Agência RBS)

Na estranha ficção que por alguma razão chamamos de realidade, o corpo é uma coisa perigosa. É um segredo a ser mantido sob estrito controle. Muito curioso, já que afinal a experiência corporal, essa de ter um corpo e ser um corpo, de certa forma é a primeira de nossas vidas. Também não se trata de uma pura demonização do corpo, afinal o corpo em si não é transgressivo, ou mais precisamente no fundo é impossível abdicar do corpo. Trata-se de uma forma de jogar com o corpo, de um complexo e arriscado jogo, do qual não deveríamos nos manter ingênuos.

E há várias formas diferentes de ser ingênuo quanto ao assunto. É simplismo, por exemplo, dizer que o impulso sexual exige ser controlado, como se fosse um tipo de bomba atômica que assim que liberado destruiria mundos. Mas também é simplismo acreditar que a simples validação do impulso sexual resolve todos os problemas, como na mensagem da Marcha das Vadias de que “a mulher deve estar no controle da sua própria vida sexual”.

Nossa relação com o corpo é complexa, no sentido de ser uma miríade de tensões num balanço delicado. É muito fácil pegar apenas uma parte dessa bagunça e transformar numa história simples. Mas quase sempre essas histórias simples são um jogo cujas regras não nos permitem ganhar. Ler mais deste artigo

vadias

Banksy girl & policemanDesigners de moda deviam fazer uma passeata anti-Marcha-das-Vadias. Segundo a lógica da Marcha, algo que se veste não pode afetar o desejo. E, se for assim, criar roupas é uma ocupação medíocre.

Claro, nem mesmo os organizadores da Marcha têm o disparate de sustentar uma coisa assim. O reclame é “minha roupa danada não é razão pra me estuprar”. Parece sensível, mas se pararmos pra pensar, isso assume um estuprador que tenha escolhido estuprar por razões lógicas, calmamente consideradas, praticamente um esquizofrênico. Devem existir pessoas assim, mas devem ser 3 no mundo. Talvez 4.

A maior parte dos estupros, bem como a maior parte das situações de sexo saudável entre adultos consensuais, é uma mistura de impulsos e sentimentos confusos. Nessa mistura, o desejo tem uma presença colossal.

E no entanto, não se pode falar no desejo, pois somos uma sociedade assolada pelo pudor. Ler mais deste artigo

pertencer e excluir

traseira do iMac 1998 da cor Bondi BlueO jogo do design, ao esconder e revelar intrincados níveis da realidade (ou, se você levar Flusser à sério, a própria realidade), aciona poderosos sentimentos. Podem não ser sentimentos poderosos do tipo “juro vingança e nunca mais dormirei na mesma cama antes de matar o maldito que alterou a marca original do Itaú”, mas certamente são sentimentos poderosos o suficiente para redirecionar os fluxos dos desejos da sociedade do espetáculo (e, através deles, os níveis de compra, e através deles, os indicadores econômicos — que de acordo com quem você pergunta são a única realidade que importa).

Vindo de uma perspectiva um pouco diferente, parece não fazer nenhum sentido que uma cor azul possa fazer qualquer diferença significativa de uma cor preta, como por exemplo quando a iMac original na sua cor bondy-blue deslocou a Apple da via da falência para o caminho de se tornar a maior empresa do mundo. É só uma cor!? Ou seja, por mais que eu perceba esse poder do design, também percebo que existe alguma coisa nele que não é tão fácil de explicar, que não é óbvio ou que não funciona de uma forma linear como a economia ou a física poderiam sugerir.

Uma das camadas dessa complexidade é a relação de pertencimento. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte LII – Feminino Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Quando eu estava na faculdade, o pessoal de engenharia achava que todos os designers, sem exceção, eram gays. Mesmo em tempos de emancipação sexual, parece que o Design é de fato um lugar privilegiado para homossexuais. Entendendo sexualidade como parte de nossa identidade subjetiva, não acredito em homossexualidade. O que existe, desde os primórdios da humanidade, são relações homo-afetivas que, exceto em questões políticas, são iguais às relações hetero-afetivas. De todo modo, o Design não me parece algo “homossexual”. Antes disso, parece-me algo feminino.

Para Baudrillard (1991), o feminino contradiz a oposição masculino/feminino na medida em que é indispensável para ambos. Enquanto o mundo masculino tem o poder, relacionado historicamente ao conceito de produção, o mundo feminino tem a potência da sedução, que é necessária ao poder. Logo, todo tipo de produção está subordinado à sedução feminina, o que contraria o discurso feminista tradicional já que, neste sentido, a mulher possui uma posição privilegiada na cultura ocidental. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXIX – Sexo e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Eu já falei algumas vezes que Design é igual prostituição: uma profissão digna e respeitável (sem ironias) que exerce, antes de qualquer coisa, uma das mais belas atividades humanas. E não há nada de errado em cobrar por isso. O que me parece errado é transar com quem você ama e continuar acreditando que existe um propósito “funcional” para tudo. No entanto, assim como o Design, o sexo também pode ser pragmático: pode haver uma função ou utilidade (como procriação), sanar uma necessidade específica (carência ou stress), cumprir com determinados requisitos e métodos (anticoncepcionais, coito interrompido, ciclo menstrual) e até ser sustentável (sexo tântrico). E o que dizer sobre a masturbação ou a pornografia?

Para o psicólogo James Hillman (1989, p. 22), trata-se de uma “anestesia, como um tranquilizante enquanto você assiste TV”. Isso porque, se outrora a indústria pornográfica já esteve associada com as ideias de culpa, vergonha e fantasia, atualmente ela tem se tornado cada vez mais explícita, cotidiana e efêmera. Mas como isso se reflete em nosso comportamento e no design contemporâneo? Desde pequenos, somos treinados a saber, a alcançar e a fazer o que queremos fazer. Somos “independentes”, estimulados a caminhar com nossas próprias pernas e saber para onde estamos indo. Toda essa exigência, se não estiver relacionada diretamente com a pornografia e a masturbação, certamente favorece a famosa teoria freudiana da repressão do desejo sexual. Leia mais…»

Bonecas para adultos

Fotografia por California is a placeVocê sabe o que são as “real dolls”? Gostaria de ter uma? Com certeza pensaria duas vezes em dar de presente para alguém já que estas bonecas reais, além de custarem de 5 a 50 mil dólares, são comercializadas no mercado de produtos eróticos/pornográficos. O designer Matt McMullen, da empresa Abyss Creations, desenvolveu as bonecas sexuais mais realistas que você poderia ver. Só faltam andar e falar.

Atualmente, são comercializadas cerca de 400 bonecas ao ano em várias regiões do mundo, como Europa, Japão, Canadá e Estados Unidos. A aquisição das bonecas é feita somente sob encomenda, através do website da empresa, onde o cliente pode customizar a sua a partir de um menu de opções disponíveis. Lá é possível escolher desde medidas corporais até cor de cabelo, olhos e tipo de lingerie. A boneca dos seus sonhos! Lembrando que também é possível comprar bonecos do gênero masculino, transsexuais ou apenas o torso. Contudo, a Abbys Creations não desenvolve bonecas mutiladas ou com qualquer tipo de deficiência física, nem replica imagens de pessoas e não trabalha com corpos infantis. Leia mais…»

O Sutiã

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Era Cristã romana

sutiã ou soutien (do francês soutien: suporte) é peça componente da indumentária feminina que tem como objetivo sustentar e proteger o seio. É difícil apontar um início para o uso do sutiã, na Grécia já se utilizava uma faixa, por razão dos banhos e em virtude da mobilidade da mulher. Na Era Cristã romana era chamado de strophium, constituía-se também em uma faixa que sustentava os seios nas atividades atléticas. Possuíam objetivos práticos como facilitar os movimentos e também estéticos, a pureza, status e de idealização das divindades. De 1893 até 1912 foram várias tentativas fracassadas para colocar o sutiã no mercado. O espartilho só caiu em desuso após a patente do sutiã com o nome de brassière, em 1914 feita pela americana Mary Phelps Jacob. Por razão do vestido decotado, com lenços e faixas amarrou seus seios para assim sustentá-los e moldá-los. Na década de 60 o sutiã passaria novamente por uma crise, o Bra Burning. Leia mais…»

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