terminologias e sotaques

menininha lendo FoucaultFrente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em Tudo o que é sólido desmancha no ar) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.

Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.

Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa. Ler mais deste artigo

O que é um “modelo”?

3210838977_26d9efb96e_oA suposição é a seguinte: superada a consciência da morte e o pavor de colocar moedas em um bolso furado e perdê-las para sempre, provavelmente um dos maiores medos que ainda resta a ser enfrentado pelo homem é o de ser impossibilitado de comunicar seus pensamentos de alguma forma. O  caminho longo e tortuoso que separa o emaranhado dentro da cabeça de um ser humano até o papel (ou a atmosfera, ou o arquivo digital, ou um show de mímica) é um fantasma conhecido e já espremido por diversos filósofos e estudantes de mestrado mundo afora.

Um deles, chamado Ludwig Wittgenstein, parece ter ficado tão assombrado diante de tal fantasma que motivou-se a publicar seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, dissertando principalmente sobre o fato da linguagem ser apenas um “disfarce” para os reais pensamentos, e que portanto ela era o verdadeiro problema que deveria ser solucionado pelos filósofos. O teor de sua obra, em síntese, era a busca por uma linguagem científica precisa o suficiente para transpor essas barreiras e então dar um fim à maioria dos problemas que ela causava para a filosofia – que poderia, então, tornar-se uma área voltada para a exploração de soluções que realmente importassem para as pessoas – saúde, educação etc. Basicamente, o que ele queria provar era que todos os circulóquios e ensaios filosóficos eram mera questão de linguagem. A partir da publicação de seu Tractatus, uma nova filosofia poderia começar. Ler mais deste artigo

Da imagem literária ao design da escolha

Dentre as várias maneiras de se relacionar literatura e design, uma que me parece profícua é através da questão, amplamente explo-rada por Tom Mitchell (confira o post do Daniel a respeito), sobre o que “quer” uma imagem. Grosso modo, o que Mitchell nos ensina é que uma imagem é um engodo que quer nos atrair para o prazer estético, ela exige uma interpretação e empenha-se em nos “escan-dalizar” para que dela desviemos ou nela fixemos nosso olhar.

Por meio do viés literário (especialmente em Kafka e Kundera), contudo, suspeito que possa haver outra característica fundamental da imagem (e talvez mais pertinente para se pensar design): uma vez que ela nunca “ocorre agora”, mas está sempre já realizada e ao mesmo tempo sempre por vir, ela quer nos desvincular do fluxo temporal colocando-nos diante de nossas escolhas. Leia mais…»

vadias

Banksy girl & policemanDesigners de moda deviam fazer uma passeata anti-Marcha-das-Vadias. Segundo a lógica da Marcha, algo que se veste não pode afetar o desejo. E, se for assim, criar roupas é uma ocupação medíocre.

Claro, nem mesmo os organizadores da Marcha têm o disparate de sustentar uma coisa assim. O reclame é “minha roupa danada não é razão pra me estuprar”. Parece sensível, mas se pararmos pra pensar, isso assume um estuprador que tenha escolhido estuprar por razões lógicas, calmamente consideradas, praticamente um esquizofrênico. Devem existir pessoas assim, mas devem ser 3 no mundo. Talvez 4.

A maior parte dos estupros, bem como a maior parte das situações de sexo saudável entre adultos consensuais, é uma mistura de impulsos e sentimentos confusos. Nessa mistura, o desejo tem uma presença colossal.

E no entanto, não se pode falar no desejo, pois somos uma sociedade assolada pelo pudor. Ler mais deste artigo

quando se fixa um centro, não se avista a circunferência.

Será preciso, primeiro, partir-lhes as orelhas, para que aprendam a ouvir com os olhos? – Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 40.

Tem sido impossível arranjar tempo pra escrever porque estou me mudando para SP, mas antes que 2012 termine, quero registrar que eu AINDA acho que a confusão e o ruído (ao invés de clareza) podem ser bastante úteis no design.

A pergunta que marcou meu ano foi “por que não é preciso ter olhos para enxergar as coisas?”, quando eu explicava para alguém (não lembro quem) minha pesquisa de mestrado. A resposta foi algo como: veja, não é apenas uma questão de percepção, porque nem sempre existe um “eu” que enxerga as coisas. Leia mais…»

Real, existente e ficcional

Você está em casa, com seus pais, vendo frivolidades na internet, e aí chega sua mãe, com uma foto em mãos. É um bebê. “Olhe, meu filho, como você era!” Você não lembra dessa foto, porque era muito novo; você sequer se reconhece. Então, é mesmo você? Qual a relação entre aquela imagem bidimensional do bebê e você, respirando nesse exato momento?

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Um corpo sem órgãos infectado de imagens

O pensamento de um indivíduo não se reduz às limitações de sua língua, contexto, história de vida, genética etc. Pode ser condicionado, mas não “determinado” (e toda essa conversa fiada behaviorista, cognitivista, estruturalista).

Claro que nossas ideias não possuem, todavia, características inerentes em si mesmas; existem apenas no confronto com outras ideias, como um ready-made: a ideia de um mictório como obra de arte (Duchamp) só existe quando ela se confronta com o lugar da obra de arte, mas não se distingue diretamente do mictório de um banheiro público qualquer. Quero dizer que minha ideia, meu pensamento e até meu “eu” não passam de correlatos de meu próprio olhar sobre outras ideias, pensamentos e “eus”. Leia mais…»

Os sonhos [imagem e psicanálise : parte II]

Os sonhos são fenômenos realmente intrigantes.  Eis que, durante o sono, diversas imagens aparecem para nossa consciência. Imagens estas que podem se ligar em um todo coerente de maneira muito semelhante com o que ocorre em nossa vida desperta ou que podem aparecer em construções completamente incoerentes, que nos deixam bastante perplexos.

É difícil saber como começar a pensar sobre os sonhos. O sonho requer uma explicação do tipo “por que será que sonhamos”? Ou isso seria o mesmo que perguntar “por que será que percebemos coisas quando acordados (vemos, escutamos etc.)”? De todo modo, podemos ao menos perguntar: por que será que sonhamos aquilo que sonhamos? Qual a diferença entre nossa percepção no sonho e na vida desperta? Os sonhos possuem significados? Ou melhor, os sonhos podem ser interpretados?

Em A interpretação dos sonhos — normalmente considerada não apenas a primeira obra propriamente psicanalítica como também a magnum opus freudiana –, Freud aborda diversas das questões acima, focando nas últimas. A resposta de Freud é que sim, os sonhos possuem significados, embora tais significados não sejam aqueles que interpretações mágicas dizem revelar. Não se trata de uma espécie de premonição cifrada como no famoso sonho bíblico do Faraó interpretado por José, no qual sete vacas magras devoram sete vacas gordas [1], mas, como veremos, de um peculiar discurso do inconsciente. Antes de explicarmos melhor essa noção freudiana, entretanto, será importante refletirmos sobre as questões levantas acima. Vejamos: Leia mais…»

Consumo ateu e o fetichismo contemporâneo

O que ateísmo tem a ver com consumo? O recalque da proibição pela negação da mesma [1]. Quando falamos de fetichismo (nossa crença de que certas mercadorias são “objetos mágicos”), a tendência é considerar que a “manifestação teológica” do produto nada mais é do que uma expressão “comum” da realidade social. Em nível de discurso, é o mesmo que dizer que Deus está morto/não existe [2] – o que implica negativa, proibitiva e necessariamente continuar acreditando em alguma ideia de “Deus”.

Se entendermos “Deus” como uma autoridade onipotente e opressiva, sua queda ou ausência paradoxalmente significa, ao invés de liberdade, proibições cada vez mais severas. Quando não há dogma ou fetichismo religioso, o mais comum é dedicar-se a uma busca incondicional da felicidade sob o ilusório pressuposto dostoievskiano de que “tudo é permitido”. Para tanto, em vez de se recalcar desejos ou prazeres ilícitos, passa-se a recalcar o recalque em si, ou seja, a própria proibição que nos priva de tais desejos e prazeres. Leia mais…»

O inconsciente [Imagem e psicanálise : parte I]

O inconsciente é, sem dúvida, um dos conceitos mais importantes — se não o mais importante — da psicanálise. É crucial compreender logo de saída que não se trata, para Freud, apenas de dizer que não temos acesso a parte de nossa mente. Freud pensa o inconsciente como um sistema mental específico. O sistema inconsciente — representado pela sigla Ics, para ficar mais fácil diferenciá-lo do termo ordinário, usado como adjetivo — está em oposição ao sistema consciente/pré-consciente (Cs/Pcs), que é aquele nos quais circulam os pensamentos momentaneamente presentes na consciência ou facilmente acessíveis a ela — por isso chamados pré-conscientes, já que não são propriamente conscientes: só estão inconscientes momentaneamente, pois nada os impede de aparecerem para a consciência. Ou seja, se você não está pensando naquilo que você comeu no almoço neste exato momento, mas poderia pensar sobre isso agora que eu mencionei o assunto, então não diríamos que as ideias (estou usando o termo de maneira genérica, para não complicar o assunto) que compõem seu pensamento sobre seu almoço são conscientes, mas também não diríamos que são inconscientes, e sim pré-conscientes. A distinção entre consciente e pré-consciente não interessa muito a Freud, por isso ele costuma agrupar os dois na sigla Cs/Pcs. Leia mais…»

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