De onde saiu esse tal de Papai Noel?

A figura do Papai Noel sempre me despertou curiosidade. Por que exatamente no Natal, ou seja, no aniversário de Jesus Cristo, aparece uma figura tão estranha quanto um velho gordo que dirige um trenó puxado por renas voadoras, tem duendes como ajudantes e o hábito de descer as chaminés das casas para deixar presentes para as crianças? A hipótese mais óbvia que me vinha à mente era a de que, de alguma forma, Papai Noel era a versão moderna de alguma entidade pagã que acabou se ligando ao Natal ao longo de assimilações cristãs e seculares. Fui dar uma pesquisada para ver se minha intuição se confirmava…

Noël é Natal em francês, portanto, aqui no Brasil, o personagem já aparece diretamente ligado ao Natal. Mas o mesmo não ocorre nos Estados Unidos, lugar em que tal personagem ganha forma. Santa Claus, como é conhecido em inglês, seria uma americanização de São Nicolau (Saint Nicholas), cujo nome original é Sinter Klaas, nome este que teria sido americanizado para Santa Claus e, durante o século XIX, ligado à figura que hoje conhecemos. Essa é a história mais difundida. Daria até para dizer “oficial”, embora haja diversas versões sobre como teria se dado essa assimilação. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte LXII – Esconder e Revelar

* texto originalmente publicado no Design Simples.

A concepção e o desenvolvimento de um projeto de design (gráfico, produto, moda, editorial, etc.) parecem girar em torno de duas atitudes fundamentais: revelar e esconder.

Por conseguinte, alguns projetos são mais “transparentes” – revelam suas estruturas, suas formas e sua mensagem – e outros projetos são mais “secretos”, de modo a esconder muitos aspectos que os constituem.

No entanto, esta dualidade nunca é muito clara – e aparentemente favorece o escondimento. Sabemos como um carro funciona, por exemplo, mas nunca sabemos exatamente como ele funciona, quais são os processos envolvidos, etc. Do mesmo modo, entendemos o conteúdo de um livro ou de um cartaz, mas não sabemos exatamente como aquilo foi elaborado. Leia mais…»

Consumo e Design: seduções simbólicas

* texto publicado originalmente no Formas do Consumo e ampliado para o Filosofia do Design.

Desde criança, existia algo (que eu não sabia o quê) que me fascinava em cartazes, livros, histórias em quadrinhos, filmes, etc. Algo sutil e efêmero mas que, de certo modo, parece ter vida própria. Então decidi estudar Design Gráfico para aprender a fazer aquilo que sempre me chamou atenção.

Olhando agora, no entanto, percebo que eu fico mais entusiasmado em entender como aquele algo funciona do que propriamente em fazer aquilo funcionar. Leia mais…»

Imaginário, demasiado imaginário

[Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. É também um texto mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura.]

Aqueles que acompanham meu trabalho sabem que tenho muito apreço à denominada Escola do Imaginário. Recentemente participei de um congresso sobre esta linha de pensamento e voltei um tanto desiludido. Não com o congresso em si, nem com os autores ou qualquer pessoa, mas com uma certa ortodoxia do Imaginário.

No decorrer do evento, fui anotando algumas manias discursivas. A primeira delas é um modo de ser eclético, plural, abrangente e transversal, sempre se pautando em argumentos relativistas (mas nem um pouco céticos). Ou seja, o imaginário abarca tudo e todos, sendo qualquer corrente ou doutrina passível de ser adequada enquanto “forma simbólica”, nos termos de Cassirer. Leia mais…»

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»

O design, o imaginário – primeiras noções

(Primeiramente peço desculpas pelo longo intervalo entre postagens, já que minha ideia é postar textos curtos, com uma frequência maior…) Como já comentei em minha primeira postagem no blog (há bastante tempo atrás), no último semestre de 2010 escrevi meu tcc falando sobre design editorial e imaginário. Neste texto procuro lançar algumas noções dos estudos do imaginário relacionadas ao design.

Ao longo da vida, o ser humano acumula referências, informações. Posteriormente, estas referências servem como um ponto de partida, como catalisador para criações e novas vivências. O imaginário é isto, é o que move os indivíduos. E, portanto, pode-se dizer que é um reservatório/motor (SILVA, 2006).  O imaginário, segundo Maffesoli, é sempre social, nunca individual. Os indivíduos são imersos em imaginários passíveis de alterações, pois os indivíduos são, ao mesmo tempo, autores e atores dos imaginários a que se submetem. Os indivíduos apreendem e constroem no imaginário, são sujeitos receptores e emissores, sempre ativos. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte XL – Sonhos e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora muitos não tenham gostado, eu adorei a produção cinematográfica de A Origem (Inception, 2010). Entre os filmes que nos questionam sobre o que é sonho e o que é realidade – Waking Life, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Vanilla Sky, etc –, o meu preferido é o Mr. Nobody (2009), mas neste post partiremos de questões mais simples, implantadas em nossa mente através d’A Origem: existem sonhos coletivos? O tempo no sonho passa mais devagar? Podemos ter um sonho dentro de outro sonho? O que são os sonhos lúcidos? E, sobretudo, quais seriam as possíveis relações entre sonhos e Design?

Em primeiro lugar, nunca houve e talvez nunca haja um consenso entre os pesquisadores sobre o que é um sonho. Enquanto os neurocientistas, por exemplo, encaram o sonho como uma espécie de reorganização das informações absorvidas durante o dia, os psicólogos junguianos acreditam que, quando sonhamos, entramos em uma vida psíquica desconhecida, pertencente a um passado longínquo e, ao mesmo tempo, a um futuro remoto. “Trata-se de um mundo bem diverso do mundo exterior, um mundo em que o pulso do tempo bate infinitamente devagar” (JUNG, 2000, p. 280). Leia mais…»

Considerações gerais sobre filosofia do design

Em meu primeiro post neste blog, quero fazer uma delineação geral dos problemas que acredito enquadrarem-se no âmbito de uma filosofia do design. Trata-se, sobretudo, de pensar o design de um ponto de vista humanístico – ou seja, colocando o humano em sua complexidade subjetiva como ponto principal de referência. E pensá-lo em dois planos nem sempre possíveis de serem separados. 1. No plano da produção: Quais as fontes da criatividade? Quais as motivações para a realização da atividade do design? Quais os deveres morais do designer? Etc. 2. No plano da recepção: quais as relações que pessoas estabelecem com imagens e objetos pensados em suas formas? Qual é o impacto sociocultural do design? Etc.

Será importante, logo de início, definir o que é design. De uma maneira ampla, eu diria que o design é a atividade que trabalha a forma das coisas, e também a forma resultante de tal atividade. Definição que desperta questionamentos: como se trabalha a forma das coisas no design? Com que objetivo? Quais formas resultam de tal atividade?

Para começar a responder a essas perguntas, será interessante observar que o design possui sempre três dimensões – quando uma delas está ausente, dificilmente se pode continuar falando em design. A primeira dimensão do design é evidentemente aquela da forma, a partir da qual o definimos. Mas a forma pela forma, a forma como um fim em si mesma – ou seja, o esteticismo – está muito mais na esfera da arte do que na do design. Com efeito, para se falar em design, seria preciso que estivessem presentes também suas outras duas dimensões: a dimensão funcional (ou de utilidade material) e a dimensão simbólica. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXIII – o Projeto de um Vir a Ser

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Em minha pseudo-experiência com Design, vejo que a concepção final de qualquer produto ou peça gráfica raramente corresponde ao primeiro esboço. No entanto, geralmente essa concepção final traz consigo muito mais sentido do que a primeira tentativa, como se fosse uma ideia que sempre existiu, só estava esperando para ser descoberta. Assumir tal pressuposto, além de contrariar a grande maioria dos métodos de Design, significa assumir, entre outras coisas, a existência de um destino. Mas para evitar o misticismo deste termo, chamarei aqui de realidade em potência: os pensamentos que amanhã teremos, a ação que realizaremos e até as consequências daquilo que ainda não aconteceu já existem potencialmente no aqui e no agora. Trata-se da autonomia de algo que está para acontecer.

Um exemplo dessa autonomia se encontra em nossas próprias emoções: amor, ódio, alegria e tristeza não acontecem através da vontade, apenas acontecem. É sempre provável que haja uma causa, ainda que seja difícil de ser reconhecida, mas a questão é que os afetos antecipam potencialmente o futuro devido a uma espécie de prontidão inconsciente. Para Jung (2002, p. 273), “é difícil decidir se a manifestação autônoma do inconsciente deve ser interpretada como efeito (portanto histórica) ou como finalidade (portanto teleológica e de antecipação)”. Isso porque enquanto nossa consciência pensa cronologicamente, nosso inconsciente é atemporal. Aquilo que consideramos inovador, por exemplo, é resultado de uma predição do destino através de uma ampla investigação de fatores retrospectivos (do passado). “Tudo o que será acontece à base daquilo que foi e que ainda é (…) um traço de memória” (op. cit.). Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXII – o Design da Programação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Google before you tweet is the new think before you speak. Dizem que estamos na era da informação. Mas a informação sempre existiu: etimologicamente ela significa a forma no interior das coisas. É como se a informação fosse o software e a coisa fosse o hardware. O que acontece é que atualmente não há mais sentido em se ter as coisas, apenas em conhecê-las e experimentá-las. Mais do que isso, em compartilhar informações. A sociedade dedica-se cada dia mais à produção de informações, de serviços, de gestão e de programação. E o designer, a princípio, se dedica à produção de coisas.

Na verdade, desde sempre o ser humano modifica as coisas que o rodeiam. E desde sempre produz informação. Por este motivo, entendemos a história da humanidade como o processo através do qual o homem transforma a natureza em cultura. A ideia de progresso, no entanto, se torna relativa quando percebemos o seguinte círculo vicioso: as coisas produzidas pelo homem, ditas artificiais, regressam à natureza na forma de detritos. Por isso a produção de informação está tão na moda, isto é, a cultura não-material. Trata-se daquilo que Flusser (2010) chama de não-coisas. “E estas não-coisas são simultaneamente efêmeras e eternas” (op. cit., p. 103). Seguindo este raciocínio, nossas mãos tornam-se supérfluas (não podemos pegar uma não-coisa), ao passo que as pontas dos dedos se tornam nosso instrumento de decisão. Leia mais…»

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