improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

opção fnord

A Ford logo subverted to read Fnord

Logo, subvertida (Photo credit: Wikipedia)

A vida é feita de opções. Frase tão trivial que quase não diz nada. Mas esconde algo: Um pressuposto perigoso de que a vida deve ser (ou simplesmente é) modelada pelo nosso condicionamento verbal.

É óbvio. Não?
Nosso cérebro macaco é extremamente flexível. Tão flexível que consegue até fazer coisas inúteis como processar palavras. Mergulhados na cultura como estamos, esquecemos como uma palavra carece de praticidade. Mas imagine-se perdido numa floresta sem o manual do escoteiro mirim, e me diga: Para que você usaria uma palavra? (Gritar por socorro não precisa de palavras, qualquer som claramente não animal serve).

Contraste isso com a vasta utilidade cultural das palavras: Utilidade para lidar com outros seres humanos, na prática passar outros para trás. Ler mais deste artigo

Simplificando: tudo que existe, existe.

Sugestão para monografia de graduação em filosofia: provar que o personagem Capitão Caverna, do Hanna Barbera, foi baseado no Mito da Caverna de Platão.

A ideia de que existe algo chamado trabalho aconteceu de repente porque o homem (isso a muito tempo atrás, antes da implementação do ato de “bater o ponto”) percebeu que seu tempo era dividido em, basicamente, duas coisas: realizar tarefas cujo objetivo eram garantir a sua sobrevivência, e realizar tarefas sem nenhum objetivo aparente, apenas para relaxar, se divertir ou extravasar seus instintos sexuais. Foi dado portanto o nome de “trabalho” para as coisas que o homem faz que o ajudam a sobreviver. As coisas que não o ajudam a sobreviver recebem vários outros nomes.

A concepção de que existe um tempo para trabalhar e um tempo para fazer coisas que não necessariamente auxiliam na sobrevivência durante a semana é bastante atual, se pensarmos bem. Retrocedendo a fita cassete da história do homem antropológico, podemos acabar deparando nossas pessoas com o simpático Gronk, o homem-das cavernas, que trabalhava em uma jornada desumana mais de vinte horas por dia sem descanso todos os dias. Ele inclusive acordava no meio da noite para trabalhar um pouquinho. Esse trabalho noturno consistia em ficar dando umas voltinhas ao redor da cama carregando uma lança ou algum outro objeto pontiagudo para atravessar o pescoço de algum animal selvagem que se atrevesse a tentar utilizar a cabeça de Gronk ou de algum de seus amigos como fonte de nutrientes. Ler mais deste artigo

O inconsciente [Imagem e psicanálise : parte I]

O inconsciente é, sem dúvida, um dos conceitos mais importantes — se não o mais importante — da psicanálise. É crucial compreender logo de saída que não se trata, para Freud, apenas de dizer que não temos acesso a parte de nossa mente. Freud pensa o inconsciente como um sistema mental específico. O sistema inconsciente — representado pela sigla Ics, para ficar mais fácil diferenciá-lo do termo ordinário, usado como adjetivo — está em oposição ao sistema consciente/pré-consciente (Cs/Pcs), que é aquele nos quais circulam os pensamentos momentaneamente presentes na consciência ou facilmente acessíveis a ela — por isso chamados pré-conscientes, já que não são propriamente conscientes: só estão inconscientes momentaneamente, pois nada os impede de aparecerem para a consciência. Ou seja, se você não está pensando naquilo que você comeu no almoço neste exato momento, mas poderia pensar sobre isso agora que eu mencionei o assunto, então não diríamos que as ideias (estou usando o termo de maneira genérica, para não complicar o assunto) que compõem seu pensamento sobre seu almoço são conscientes, mas também não diríamos que são inconscientes, e sim pré-conscientes. A distinção entre consciente e pré-consciente não interessa muito a Freud, por isso ele costuma agrupar os dois na sigla Cs/Pcs. Leia mais…»

Imagem e psicanálise [prefácio]

De uma maneira geral, eu não diria que meu olhar sobre o design ou sobre a imagem é majoritariamente psicanalítico. É verdade que desde o mestrado tenho me interessado por psicanálise, mas sempre como um referencial auxiliar. Havia percebido que a psicanálise é um referencial extremamente interessante para pensarmos sobre as vinculações afetivas com imagens e objetos materiais. E, se encararmos o design como um mediador imagético de nossas relações com objetos e superfícies, fica claro que a psicanálise pode ser bastante interessante para se pensar o design.

Faço essa pequena apresentação para dizer que a psicanálise tem ocupado um lugar cada vez mais central no meu pensamento. Embora eu não tenha formação específica em psicanálise, desde o ano passado tenho realizado extensa pesquisa sobre o tema, lendo bastante Freud e Lacan e entrando na psicanálise sobretudo através de uma via filosófica. Estou preparando um curso de análise da imagem com foco em psicanálise. Assim, intensifiquei ainda mais minhas pesquisas psicanalíticas e queria aproveitar esse momento para começar uma série de posts aqui no blog sobre imagem e psicanálise. Como gostaria que os textos possam servir também como apoio às eventuais aulas, eles terão um formato mais didático e fechado do que meus outros posts. Leia mais…»

De onde saiu esse tal de Papai Noel?

A figura do Papai Noel sempre me despertou curiosidade. Por que exatamente no Natal, ou seja, no aniversário de Jesus Cristo, aparece uma figura tão estranha quanto um velho gordo que dirige um trenó puxado por renas voadoras, tem duendes como ajudantes e o hábito de descer as chaminés das casas para deixar presentes para as crianças? A hipótese mais óbvia que me vinha à mente era a de que, de alguma forma, Papai Noel era a versão moderna de alguma entidade pagã que acabou se ligando ao Natal ao longo de assimilações cristãs e seculares. Fui dar uma pesquisada para ver se minha intuição se confirmava…

Noël é Natal em francês, portanto, aqui no Brasil, o personagem já aparece diretamente ligado ao Natal. Mas o mesmo não ocorre nos Estados Unidos, lugar em que tal personagem ganha forma. Santa Claus, como é conhecido em inglês, seria uma americanização de São Nicolau (Saint Nicholas), cujo nome original é Sinter Klaas, nome este que teria sido americanizado para Santa Claus e, durante o século XIX, ligado à figura que hoje conhecemos. Essa é a história mais difundida. Daria até para dizer “oficial”, embora haja diversas versões sobre como teria se dado essa assimilação. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte LXII – Esconder e Revelar

* texto originalmente publicado no Design Simples.

A concepção e o desenvolvimento de um projeto de design (gráfico, produto, moda, editorial, etc.) parecem girar em torno de duas atitudes fundamentais: revelar e esconder.

Por conseguinte, alguns projetos são mais “transparentes” – revelam suas estruturas, suas formas e sua mensagem – e outros projetos são mais “secretos”, de modo a esconder muitos aspectos que os constituem.

No entanto, esta dualidade nunca é muito clara – e aparentemente favorece o escondimento. Sabemos como um carro funciona, por exemplo, mas nunca sabemos exatamente como ele funciona, quais são os processos envolvidos, etc. Do mesmo modo, entendemos o conteúdo de um livro ou de um cartaz, mas não sabemos exatamente como aquilo foi elaborado. Leia mais…»

Consumo e Design: seduções simbólicas

* texto publicado originalmente no Formas do Consumo e ampliado para o Filosofia do Design.

Desde criança, existia algo (que eu não sabia o quê) que me fascinava em cartazes, livros, histórias em quadrinhos, filmes, etc. Algo sutil e efêmero mas que, de certo modo, parece ter vida própria. Então decidi estudar Design Gráfico para aprender a fazer aquilo que sempre me chamou atenção.

Olhando agora, no entanto, percebo que eu fico mais entusiasmado em entender como aquele algo funciona do que propriamente em fazer aquilo funcionar. Leia mais…»

Imaginário, demasiado imaginário

[Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. É também um texto mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura.]

Aqueles que acompanham meu trabalho sabem que tenho muito apreço à denominada Escola do Imaginário. Recentemente participei de um congresso sobre esta linha de pensamento e voltei um tanto desiludido. Não com o congresso em si, nem com os autores ou qualquer pessoa, mas com uma certa ortodoxia do Imaginário.

No decorrer do evento, fui anotando algumas manias discursivas. A primeira delas é um modo de ser eclético, plural, abrangente e transversal, sempre se pautando em argumentos relativistas (mas nem um pouco céticos). Ou seja, o imaginário abarca tudo e todos, sendo qualquer corrente ou doutrina passível de ser adequada enquanto “forma simbólica”, nos termos de Cassirer. Leia mais…»

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»

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