O design, o imaginário – primeiras noções

(Primeiramente peço desculpas pelo longo intervalo entre postagens, já que minha ideia é postar textos curtos, com uma frequência maior…) Como já comentei em minha primeira postagem no blog (há bastante tempo atrás), no último semestre de 2010 escrevi meu tcc falando sobre design editorial e imaginário. Neste texto procuro lançar algumas noções dos estudos do imaginário relacionadas ao design.

Ao longo da vida, o ser humano acumula referências, informações. Posteriormente, estas referências servem como um ponto de partida, como catalisador para criações e novas vivências. O imaginário é isto, é o que move os indivíduos. E, portanto, pode-se dizer que é um reservatório/motor (SILVA, 2006).  O imaginário, segundo Maffesoli, é sempre social, nunca individual. Os indivíduos são imersos em imaginários passíveis de alterações, pois os indivíduos são, ao mesmo tempo, autores e atores dos imaginários a que se submetem. Os indivíduos apreendem e constroem no imaginário, são sujeitos receptores e emissores, sempre ativos. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte XL – Sonhos e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora muitos não tenham gostado, eu adorei a produção cinematográfica de A Origem (Inception, 2010). Entre os filmes que nos questionam sobre o que é sonho e o que é realidade – Waking Life, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Vanilla Sky, etc –, o meu preferido é o Mr. Nobody (2009), mas neste post partiremos de questões mais simples, implantadas em nossa mente através d’A Origem: existem sonhos coletivos? O tempo no sonho passa mais devagar? Podemos ter um sonho dentro de outro sonho? O que são os sonhos lúcidos? E, sobretudo, quais seriam as possíveis relações entre sonhos e Design?

Em primeiro lugar, nunca houve e talvez nunca haja um consenso entre os pesquisadores sobre o que é um sonho. Enquanto os neurocientistas, por exemplo, encaram o sonho como uma espécie de reorganização das informações absorvidas durante o dia, os psicólogos junguianos acreditam que, quando sonhamos, entramos em uma vida psíquica desconhecida, pertencente a um passado longínquo e, ao mesmo tempo, a um futuro remoto. “Trata-se de um mundo bem diverso do mundo exterior, um mundo em que o pulso do tempo bate infinitamente devagar” (JUNG, 2000, p. 280). Leia mais…»

Considerações gerais sobre filosofia do design

Em meu primeiro post neste blog, quero fazer uma delineação geral dos problemas que acredito enquadrarem-se no âmbito de uma filosofia do design. Trata-se, sobretudo, de pensar o design de um ponto de vista humanístico – ou seja, colocando o humano em sua complexidade subjetiva como ponto principal de referência. E pensá-lo em dois planos nem sempre possíveis de serem separados. 1. No plano da produção: Quais as fontes da criatividade? Quais as motivações para a realização da atividade do design? Quais os deveres morais do designer? Etc. 2. No plano da recepção: quais as relações que pessoas estabelecem com imagens e objetos pensados em suas formas? Qual é o impacto sociocultural do design? Etc.

Será importante, logo de início, definir o que é design. De uma maneira ampla, eu diria que o design é a atividade que trabalha a forma das coisas, e também a forma resultante de tal atividade. Definição que desperta questionamentos: como se trabalha a forma das coisas no design? Com que objetivo? Quais formas resultam de tal atividade?

Para começar a responder a essas perguntas, será interessante observar que o design possui sempre três dimensões – quando uma delas está ausente, dificilmente se pode continuar falando em design. A primeira dimensão do design é evidentemente aquela da forma, a partir da qual o definimos. Mas a forma pela forma, a forma como um fim em si mesma – ou seja, o esteticismo – está muito mais na esfera da arte do que na do design. Com efeito, para se falar em design, seria preciso que estivessem presentes também suas outras duas dimensões: a dimensão funcional (ou de utilidade material) e a dimensão simbólica. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXIII – o Projeto de um Vir a Ser

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Em minha pseudo-experiência com Design, vejo que a concepção final de qualquer produto ou peça gráfica raramente corresponde ao primeiro esboço. No entanto, geralmente essa concepção final traz consigo muito mais sentido do que a primeira tentativa, como se fosse uma ideia que sempre existiu, só estava esperando para ser descoberta. Assumir tal pressuposto, além de contrariar a grande maioria dos métodos de Design, significa assumir, entre outras coisas, a existência de um destino. Mas para evitar o misticismo deste termo, chamarei aqui de realidade em potência: os pensamentos que amanhã teremos, a ação que realizaremos e até as consequências daquilo que ainda não aconteceu já existem potencialmente no aqui e no agora. Trata-se da autonomia de algo que está para acontecer.

Um exemplo dessa autonomia se encontra em nossas próprias emoções: amor, ódio, alegria e tristeza não acontecem através da vontade, apenas acontecem. É sempre provável que haja uma causa, ainda que seja difícil de ser reconhecida, mas a questão é que os afetos antecipam potencialmente o futuro devido a uma espécie de prontidão inconsciente. Para Jung (2002, p. 273), “é difícil decidir se a manifestação autônoma do inconsciente deve ser interpretada como efeito (portanto histórica) ou como finalidade (portanto teleológica e de antecipação)”. Isso porque enquanto nossa consciência pensa cronologicamente, nosso inconsciente é atemporal. Aquilo que consideramos inovador, por exemplo, é resultado de uma predição do destino através de uma ampla investigação de fatores retrospectivos (do passado). “Tudo o que será acontece à base daquilo que foi e que ainda é (…) um traço de memória” (op. cit.). Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXII – o Design da Programação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Google before you tweet is the new think before you speak. Dizem que estamos na era da informação. Mas a informação sempre existiu: etimologicamente ela significa a forma no interior das coisas. É como se a informação fosse o software e a coisa fosse o hardware. O que acontece é que atualmente não há mais sentido em se ter as coisas, apenas em conhecê-las e experimentá-las. Mais do que isso, em compartilhar informações. A sociedade dedica-se cada dia mais à produção de informações, de serviços, de gestão e de programação. E o designer, a princípio, se dedica à produção de coisas.

Na verdade, desde sempre o ser humano modifica as coisas que o rodeiam. E desde sempre produz informação. Por este motivo, entendemos a história da humanidade como o processo através do qual o homem transforma a natureza em cultura. A ideia de progresso, no entanto, se torna relativa quando percebemos o seguinte círculo vicioso: as coisas produzidas pelo homem, ditas artificiais, regressam à natureza na forma de detritos. Por isso a produção de informação está tão na moda, isto é, a cultura não-material. Trata-se daquilo que Flusser (2010) chama de não-coisas. “E estas não-coisas são simultaneamente efêmeras e eternas” (op. cit., p. 103). Seguindo este raciocínio, nossas mãos tornam-se supérfluas (não podemos pegar uma não-coisa), ao passo que as pontas dos dedos se tornam nosso instrumento de decisão. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXX – Sensibilidade Mítica

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Seguindo a temática vigente em nosso círculo web-social, falarei hoje sobre a sensibilidade mítica. Enquanto seres humanos, nós não podemos conhecer o infinito, os deuses ou tudo aquilo que nos parece misterioso. Ainda assim, em algum momento da vida todos nós já refletimos, o mínimo que seja, sobre isso. Nós ansiamos por algum sentido, por um Deus, por uma conexão. Em linhas gerais, os mitos são as metáforas personificadas dessa conexão com os deuses (aquilo que é desconhecido). Mas precisamos dar uma piscadela quando usamos o termo “deuses” – somente assim é possível uma abordagem sobre o infinito (em nossa condição finita) que evite a metafísica e que sinalize nosso uso consciente de ficções.

Como eu disse, não pretendo falar sobre mitos (para isso, escute o AntiCast), mas sobre a sensibilidade mítica. Trata-se daquilo que, potencialmente, todos nós temos: dar sentido ao mundo através dos mitos. É ter consciência de que o outro mundo, o mundo invisível, existe e está personificado no mundo visível. A história das civilizações e o próprio indivíduo são manifestações desse outro mundo, os meios pelos quais os deuses podem se tornar reais em toda a sua autonomia divina. Contudo, segundo Hollis (2005, p. 20), “essa sensibilidade mítica não pode ser recuperada – está perdida para nós há muito tempo”. A moderna confiança no controle, na repetição e na previsibilidade nos deixou à deriva de qualquer experiência mítica. Essa mudança na sensibilidade humana nos trouxe benefícios, nos deu a sensação de dignidade e nos valorizou enquanto indivíduos, mas também nos trouxe danos. Leia mais…»

O Design, o Imaginário – sobre a origem, ou uma introdução

Foram quatro anos estudando design gráfico na UFPel (Universidade Federal de Pelotas, RS), no Instituto de Artes e Design. Na verdade, me graduei em Artes visuais com habilitação em design gráfico, um curso que não existe mais e está formando sua última turma. Hoje a UFPel conta com dois bacharelados em design: gráfico e digital.

Meus dois primeiros anos tiveram a grade curricular igual a do curso de artes (habilitações em pintura/escultura/gravura): dois semestres de fundamentos da linguagem visual, quatro de história da arte, três de filosofia da arte, um semestre introdutório a cada uma das quatro habilitações e semiótica.

O programa das aulas de semiótica abordava a vertente francesa, menos comum nos cursos de artes, comunicação e design, onde são mais difundidas as ideias da semiótica americana. Tive contato com ela durante apenas um semestre e confesso que nesse curto período tornou-se difícil de entender ou até mesmo de gostar de entender. Leia mais…»

Bonecas para adultos

Fotografia por California is a placeVocê sabe o que são as “real dolls”? Gostaria de ter uma? Com certeza pensaria duas vezes em dar de presente para alguém já que estas bonecas reais, além de custarem de 5 a 50 mil dólares, são comercializadas no mercado de produtos eróticos/pornográficos. O designer Matt McMullen, da empresa Abyss Creations, desenvolveu as bonecas sexuais mais realistas que você poderia ver. Só faltam andar e falar.

Atualmente, são comercializadas cerca de 400 bonecas ao ano em várias regiões do mundo, como Europa, Japão, Canadá e Estados Unidos. A aquisição das bonecas é feita somente sob encomenda, através do website da empresa, onde o cliente pode customizar a sua a partir de um menu de opções disponíveis. Lá é possível escolher desde medidas corporais até cor de cabelo, olhos e tipo de lingerie. A boneca dos seus sonhos! Lembrando que também é possível comprar bonecos do gênero masculino, transsexuais ou apenas o torso. Contudo, a Abbys Creations não desenvolve bonecas mutiladas ou com qualquer tipo de deficiência física, nem replica imagens de pessoas e não trabalha com corpos infantis. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVIII – a Sombra de Baudrillard

* texto originalmente publicado no Design Simples.

De modo semelhante ao post sobre o Flusser, hoje apresentarei um pouco do pensamento de Jean Baudrillard (1929 – 2007), “a primeira sombra de dúvida ou negação em face da inexorabilidade racional e afirmativa do desenho industrial” (Zulmira Ribeiro Tavares in BAUDRILLARD, 2008, p. 230). Refiro-me àquela que é considerada sua magnum opus, “O Sistema dos Objetos”, que trata do discurso que os objetos de design manifestam ao serem consumidos, isto é, aquilo que escapa de essencial ao designer e que, nos objetos, adquire (simbolicamente) vida própria.

O termo “sistema” carrega consigo uma ideia de dimensão fechada, independente, de autonomia da área estudada, de imanência. No entanto, embora Baudrillard adote o estruturalismo como perspectiva teórica, no intuito de garantir o rigor da sistematização do tema, reconhece o risco de cair em uma análise forçada, na qual o foco de estudo passe demotivo a mero pretexto frente ao instrumental adotado. Isso porque há uma nítida preocupação com o nível conotativo, ou mesmo inconsciente, que sinaliza uma dimensão maior e de organização simbólica: “além de um certo tamanho, qualquer objeto, mesmo o fálico de uso (carro, foguete) torna-se receptáculo, vaso, útero – aquém, faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)” (BAUDRILLARD, 2008, p. 33). Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVI – Articulação e Criatividade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.” [Jorge Luis Borges em Ficções, 1944, p. 92]

Qual a relação entre a criatividade e o tempo? Em primeiro lugar, o tempo é uma criação humana. E como grande parte das criações humanas, baseia-se no princípio da distinção: você distingue o que veio antes e o que veio depois. Note que essa distinção não é natural, mas sim uma gambiarra da sua mente para compreender o mundo. Contudo, este truque se desfaz quando você se questiona: o que antecede a distinção?

Para respondermos isso, é necessário uma outra distinção. Cientificamente, sabe-se que há basicamente dois pontos de vistas para compreendermos os fenômenos. A concepção mecanicista, na qual a tradição positivista se baseia, enxerga todo e qualquer fenômeno como sendo resultado de uma causa, considerando a existência de determinados elementos imutáveis que alteram as relações entre si segundo determinadas leis fixas (como o tempo, por exemplo). Por outro lado, há a concepção finalista (ou energética, teleológica, quântica, etc.) que entende os fenômenos partindo do resultado para a causa, considerando uma espécie de “energia” que se mantém constante e que produz um estado de equilíbrio no seio das mutações que os fenômenos manifestam. Leia mais…»

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