Do livre afeto não arbitrável

Negar o livre-arbítrio é entendido, no senso comum, como negar liberdade. Ainda que fosse uma simples questão de resistência contra um suposto determinismo mecânico e fatalista do universo, nunca sabemos se essa resistência já faz parte de tal mecanismo fatal. Contudo, não é só disso que se trata. As pessoas entendem livre-arbítrio como exercício pleno de liberdade, o que implica (conscientemente ou não) partir da premissa de que, sem a intencionalidade do livre-arbítrio, seremos sempre escravos de nossas “pulsões animais” – enfim, aquela separação agostiniana mente-corpo recalcada na civilização moderna.

Logo, entender o livre-arbítrio como sinônimo de liberdade significa considerar-se naturalmente aprisionado: acredita-se que nossas pulsões irracionais são destrutivas (pois nosso corpo é vil) e que, no entanto, por algum motivo (Deus ou coisa do gênero), nós temos a dádiva do livre-arbítrio (a dádiva da mente), que não nos deixa à mercê de nossas vontades e desejos mais perversos. E mesmo dentro dessa concepção judaico-cristã, livre-arbítrio ainda parece ser mais uma questão de controle (das pulsões) do que de liberdade. Leia mais…»

Dilemas do Design V: corporativismo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O design como conhecemos hoje só existe porque jovens de 20 a 30 anos se sujeitam a trabalhar como escravos para empresas que os usam como ferramentas.” – Charles Watson.

Muitos críticos sustentam que o indivíduo de hoje, diante de um suposto enfraquecimento dos tradicionais laços de identidade (família, trabalho, religião, panelinha etc.), tem abandonado o sentimento de identidade coletiva em proveito de condutas narcisistas e hedonistas. É uma leitura plausível, mas simplifica questões prementes, sobre as quais ainda pretendo discorrer em ensaios mais longos, fora dessa série dos dilemas do design. Leia mais…»

Saussure, língua, xadrez

xadrezImagine que você vai jogar uma partida de xadrez. Quando, após organizar o tabuleiro e se sentar em frente a seu oponente, você pega uma peça qualquer – a rainha, por exemplo – e move de uma casa para outra, você faz mais do que carregar um pedaço de madeira por alguns centímetros: você realiza uma jogada! (eu sei, é fantástico). Você já parou para refletir o que constitui esse ato misterioso de realizar uma jogada? Isto é, o que existe a mais na jogada além do ato de mudar de lugar um pedaço de madeira?

Se seguirmos os ensinamentos do linguista Ferdinand de Saussure, a resposta seria: a inserção do ato em um sistema de regras. A diferença é que realizar uma jogada é um ato “estruturado” por um sistema de regras (as regras do xadrez), enquanto carregar um pedaço de madeira por alguns centímetros é apenas um ato físico (na verdade, essa separação não é tão simples de fazer, mas vamos manter a reflexão em um nível simplificado por enquanto). Se não existissem regras de xadrez, não poderia existir jogada. Leia mais…»

A essência incompleta das coisas ou por que a incompletude é tudo que existe

* texto originalmente publicado na edição 42 da revista abcDesign. Ilustrações minhas neste post.

Em termos filosóficos, pensar sobre uma possível “essência” das coisas está fora de moda há muito tempo. Mesmo que, por exemplo, a essência do design pareça residir numa necessidade a ser sanada, o contraponto mais simples seria dizer que essa necessidade é também projetada, no sentido de ser uma tentativa prévia de explicar as coisas quando algo sai terrivelmente errado.

Talvez esta seja a única essência que aparentemente ainda permanece em voga a nível cotidiano: as coisas tendem a dar errado. Leia mais…»

Dilemas do Design IV: sinal x significado

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Encerrei meu último post tentando explicitar que a relação binária do sinal x significado não nos esclarece como e por que um objeto ou uma imagem indica estritamente alguma coisa ou alguma ideia (ao invés de outra coisa ou outra ideia). Mas me parece que, em última instância, essa indicação nunca é totalmente estrita e, somente por isso, o design é possível.

Por exemplo: quando compramos um instrumento musical (um violão, uma flauta), conseguimos executar seus diversos mecanismos porque o designer que projetou tal instrumento baseou-se em funções que suspostamente já conhecemos (se fôssemos músicos), em ideias que já possuímos, em uma linguagem comum e em valores preestabelecidos.

Porém, na medida em que utilizamos este novo instrumento, nossa relação com ele pode adquirir um significado diferente daquele com o qual estávamos habituados a ter com outros instrumentos, sendo que desta nova relação podem surgir novas formas de composição musical. Leia mais…»

repressão (vadias redux)

Anteontem o espetáculo Hasard do ERROgrupo foi interrompido pela polícia, que alegava que os atores iriam ficar pelados, uma autuação por pré-crime. Minority Report na vida real, caso alguém ainda não tivesse percebido que vivemos numa estranha ficção.

Ceci n’est pas une Líder (por: Ricardo Wolffenbüttel / Agência RBS)

Na estranha ficção que por alguma razão chamamos de realidade, o corpo é uma coisa perigosa. É um segredo a ser mantido sob estrito controle. Muito curioso, já que afinal a experiência corporal, essa de ter um corpo e ser um corpo, de certa forma é a primeira de nossas vidas. Também não se trata de uma pura demonização do corpo, afinal o corpo em si não é transgressivo, ou mais precisamente no fundo é impossível abdicar do corpo. Trata-se de uma forma de jogar com o corpo, de um complexo e arriscado jogo, do qual não deveríamos nos manter ingênuos.

E há várias formas diferentes de ser ingênuo quanto ao assunto. É simplismo, por exemplo, dizer que o impulso sexual exige ser controlado, como se fosse um tipo de bomba atômica que assim que liberado destruiria mundos. Mas também é simplismo acreditar que a simples validação do impulso sexual resolve todos os problemas, como na mensagem da Marcha das Vadias de que “a mulher deve estar no controle da sua própria vida sexual”.

Nossa relação com o corpo é complexa, no sentido de ser uma miríade de tensões num balanço delicado. É muito fácil pegar apenas uma parte dessa bagunça e transformar numa história simples. Mas quase sempre essas histórias simples são um jogo cujas regras não nos permitem ganhar. Ler mais deste artigo

A estética humeana no design

ou O dia em que eu me espantei ainda mais por designers não estudarem filosofia

Eu preciso, antes de mais nada, confessar uma coisa: sou um analfabeto filosófico. Eu nunca li Kant, Platão, muito menos Wittgenstein. E venho neste blog, participar como colaborador. Se eu nunca mais postar aqui, saibam que fui demitido.

Apesar disso, eu prezo pelas minhas inquietações: vivo sempre naquele limite hipócrita do “eu não sei, mas gostaria de saber quando tiver tempo”. E, surpreendentemente, às vezes o tempo chega. Esses dias, estive ouvindo algumas aulas de Oxford sobre Estética e Filosofia da arte que me têm sido bastante esclarecedoras. Desde a primeira aula – sobre Platão –, constatei o óbvio: o Design tem muito o que aprender com a Estética.

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Debate FdD: por que os pilotos kamikazes usavam capacete?

Debate FdD é uma série de “posts coletivos” (em paralelo ao debates homônimos lançados em nosso facebook e tumblr) e este post é nossa primeira tentativa. A ideia é a seguinte: alguém lança uma questão e cada colaborador aqui do blog escreve brevemente o que pensa a respeito. Essa primeira pergunta eu roubei descaradamente do braincast 55, mas o ideal seria que você, leitor, nos enviasse suas próprias perguntas (deixe nos comentários). Agora vamos ao assunto do dia: segurança do trabalho!

Bolívar Escobar: Lembram daquele relato do kamikaze que sobreviveu ao seu vôo quase final porque caiu na água? Onde foi que vi isso? Seu depoimento era algo como “estou vivo, que vergonha”. Leia mais…»

Dilemas do design III: o ainda-não-ser

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

No último post mencionei o caráter de “ainda-não-ser” do design e terminei dizendo que, para driblar esta incoerência da ação projetada, buscamos por certos “padrões” projetuais. O pressuposto implícito em tais padrões é o de que, assim como um produto de design, o usuário seria previsível dentro de um contexto inevitável.

Se por um lado isso pode ser traduzido como uma forma de imposição de um comportamento padrão (manipulação midiática etc.), por outro, também pode significar a reinvenção do próprio conceito de “usuário”, induzindo a rupturas de comportamentos-padrão. Leia mais…»

Comentário sobre a multi/inter/transdisciplinaridade

Meu post é breve, e nasce com um intuito mais corretivo do que de novidade, e o assunto é a multidisciplinaridade do design. Muita gente afirma que o design é interdisciplinar, e essa transdisciplinaridade do campo é algo que influencia substancialmente sua epistemologia, e torna suas fronteiras demasiada fluidas para se falar de um “é/não é” design. Ler mais deste artigo

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