A morte do design – Parte I

Ainda no primeiro período, em História do Design, eu lembro do meu professor pôr a questão do que é design. Em suas divagações e questionamentos, ele chegou a perguntar-nos se Madonna não seria um artefato de design; ela é projetada para se comportar de determinadas maneiras, para cantar e se vestir com intuitos específicos e manobrar pelo mercado de forma planejada. Durante um tempo, aquilo foi uma piada interna, e das boas. Mas agora, passados quatro anos: e aí, Madonna é um artefato de design?

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vadias

Banksy girl & policemanDesigners de moda deviam fazer uma passeata anti-Marcha-das-Vadias. Segundo a lógica da Marcha, algo que se veste não pode afetar o desejo. E, se for assim, criar roupas é uma ocupação medíocre.

Claro, nem mesmo os organizadores da Marcha têm o disparate de sustentar uma coisa assim. O reclame é “minha roupa danada não é razão pra me estuprar”. Parece sensível, mas se pararmos pra pensar, isso assume um estuprador que tenha escolhido estuprar por razões lógicas, calmamente consideradas, praticamente um esquizofrênico. Devem existir pessoas assim, mas devem ser 3 no mundo. Talvez 4.

A maior parte dos estupros, bem como a maior parte das situações de sexo saudável entre adultos consensuais, é uma mistura de impulsos e sentimentos confusos. Nessa mistura, o desejo tem uma presença colossal.

E no entanto, não se pode falar no desejo, pois somos uma sociedade assolada pelo pudor. Ler mais deste artigo

twitter^-1 ou a superficialidade contemporânea

caninha no estado cú de foca depois de 3 dias num banho de nitrogênio líquidoO certo é: sal, tequila, limão.

Exatamente nessa ordem.

A explicação funcionalista é a seguinte: O sal protege a gengiva, o limão tira o gosto. As duas coisas voltadas pra minimizar o estrago de uma tequila trevas. É mais ou menos o que você faria, em termos brasileiros, se estivesse tomando Velho Barreiro. Se você estivesse tomando uma Anísio Santiago, fazer a mesma coisa seria um grande desperdício, afinal uma pinga que custa mais de cem mangos a garrafa não é coisa da qual você tenha que se proteger. Mas aí é que mora a trapaça: Não tomamos por aqui tequilas ruins. Pode ter certeza que existe todo tipo de coisa bizarra por lá, no México, mas ninguém importa as tosqueiras. Afinal, se você vai pagar o (alto) custo de transporte, vale mais à pena importar a tequila que presta.

Em economês, isso tem um nome: Efeito Alchian-Allen. Precisamente, diz que quando se adiciona um custo fixo a dois produtos equivalentes B e C, aumenta-se o consumo do produto mais caro. A princípio isso é estranho, porque um aumento de preços nos levaria a buscar a versão mais barata, mas o que acontece é que você diminui a diferença proporcional entre os dois preços. Digamos que B custava $10 e C $20. O dobro! Mas quando você adiciona um custo fixo de $10, agora B custa $20 e C $30, já não é uma diferença tão absurda. Se o custo fixo fosse por exemplo $30, no final $40 x $50, já quase não faz diferença.

OK, mas o interessante é que isso pode acontecer ao contrário, quando você corta um custo fixo, tornando tudo igualmente mais barato, você pode aumentar o consumo do produto barato. É por isso que temos o Twitter! Ler mais deste artigo

O crítico de arte Reinaldo Azevedo: uma tentativa de entender seus comentários sobre Oscar Niemeyer

Sobre o assunto Niemeyer, postaram-se dúzias de comentários, elogios e críticas nas redes sociais. A crítica mais divulgada e comentada, sem dúvida alguma, foi a de Reinaldo Azevedo. Parei apenas hoje para ler os textos do comentarista sobre o assunto, e, ao que me parece, talvez seja interessante olhar mais profundamente o que este afirma, tentar entender seu ponto e, só depois, fazer algum julgamento sobre. Os textos em questão são esses, e vou tentar me esforçar para entender o que Reinaldo escreve.

Texto 1 - Morre Oscar Niemeyer, metade gênio e metade idiota – link
Texto 2 - Niemeyer e os zurros dos 100% idiotas – link
Texto 3 - Niemeyer, a obra e o pensamento. Ou ainda: Por que ser “poeta da curva” é superior a ser “poeta da linha reta”? – link -  Leia mais…»

improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

design sem nome

* texto originalmente publicado no Design Aqui.

“Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.”

Gosto da ideia de comemorar o “dia do designer” em 5 de novembro, não tanto pelo nascimento de Aloísio Magalhães, mas pela coincidência com a celebração da Conspiração da Pólvora, especificamente da “noite das fogueiras” em memória a Guy Fawkes (se você é designer, você sabe ou deveria saber do que estou falando). Pois a coincidência aqui é bastante precisa: ela nos faz lembrar que as verdadeiras utopias, ao contrário daquelas que ainda vigoram no design (Bauhaus e Ulm), foram criadas para serem provisórias. Leia mais…»

Placebos

Ah, você quer salvar o país com a força do seu voto. Pode admitir. Todos nós sofremos dessa bobeira um dia na vida. É meio ridículo, mas não precisa ficar com vergonha. É preciso um certo cinismo (eu diria, “no bom sentido”, mas qual é o bom sentido disso?) pra admitir que uma parte no meio de 170 milhões não vale nada. Menos que um peido. Mas tudo bem, eles vão cuidar de você. Eles vão resolver todos os problemas. Eles vão fazer passar essa gripe crônica que é a consciência. Quem são eles, você pergunta?

"vou mudar esse país com a força do meu voto" "Own, que fofo! Posso tirar uma foto?" Ler mais deste artigo

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 3

Bucky

Primeiro ato: alguém faça o teste, peça para um professor entrar na sala vestido de palhaço e depois entreviste os alunos para ver quantos acham que ele é um militante esquerdista.

Depois que sua primeira filha morreu, aos 2 anos de idade, Richard Buckminster Fuller, no ápice de sua depressão, declarou: “ou eu páro de viver, ou eu começo a viver pensando. E eu quero pensar”. Por trás dessa convicta frase estava a motivação que o levou a iniciar o projeto “Guinea Pig B”, cujo andamento descreve em seu livro Critical Path. A ideia por trás do projeto era simples: qual é o máximo que uma pessoa comum pode fazer em prol do desenvolvimento da raça humana como um todo? É muito fácil se identificar com tal premissa já que todos nós, incluindo o Eike Batista, os senadores, os descendentes de japoneses, árabes, africanos, os pescadores, os operadores de telemarketing, os assaltantes, todos todos, somos pessoas comuns.

Buckminster Fuller também. Ele era uma pessoa tão comum que fracassou diversas vezes tentando fazer funcionar suas invenções, foi rejeitado, sofreu críticas, tinha astigmatismo muito forte também e ainda por cima acabou morrendo da mesma forma que muitas pessoas morrem quando ficam muito velhas. Ele sabia que as pessoas morrem depois que ficam muito muito velhas, então decidiu publicar 30 livros. Ler mais deste artigo

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 2

Se ninguém visse o sol nascendo, ele nasceria do mesmo jeito? Aliás, se ninguém visse o sol nascendo, alguem conseguiria ver alguma outra coisa? (foto por L. Miyake, via flickr)

Primeiro ato: Alguém faça o teste: escolham algumas expressões aleatórias que ouvimos diariamente (“calorias”, “fumo passivo” ou “terrorismo”) e pesquisem se a primeira aparição delas no mundo foi proferida da boca de um cientista ou de um publicitário.

Segurem essa, subjetivistas: o sol nasce de novo todas as vezes depois que ele se põe. É engraçado constatar que isso pode ser afirmado com uma certeza absoluta, pois provavelmente não existe alguém no mundo que assista o sol se pondo pensando “pronto, agora já era, agora é só lágrimas, adeus”. O sol sempre nasce de novo por que isso é um fato cuja observação gerou uma certeza, digamos, cientificamente comprovada. A ciência começou a funcionar mais ou menos assim. Não sabemos ainda por quê o sol nasce sempre ou que forças fazem o sol nascer sempre, o que sabemos é que de fato, com 100% de chances, ele vai surgir de novo no horizonte amanhã por volta das 6 horas da manhã. Portanto, terminem logo de imprimir esse jornal, escondam depressa todo o ouro, corram para as colinas e continuem fazendo todas as coisas que devem ser feitas logo antes das 6 da manhã.
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