A preponderância de uma quase-ausência

[Faz dois anos que um amigo meu se suicidou. Lendo um conto de Assionara Souza, flagrei-me vestindo uma camiseta que pertencia a ele. As citações que se intercalam com o texto abaixo reconstroem o conto que eu lia, publicado no livro “Os hábitos e os monges”, Kafka Edições, 2011, p. 92-93.
Dedico esta crônica àquele que esqueceu a camiseta comigo e que continua a me assombrar com certas perguntas disfarçadas de respostas.]

“As coisas faltam aos dias, às ruas, às mesas. A ausência das coisas trafega entre as pessoas sem que estas a percebam. As coisas faltam.”

Sabe aquela pessoa que você nunca viu na vida, mas que te dá a sensação de que você a conhece faz tempo? Então, agora suponha que, ao invés de uma pessoa, é um objeto. E que esse objeto apareceu na frente de sua casa quando a chuva parou, perguntando se você sabia que ele sempre esteve ali.

Você nunca soube. Sentia falta e não sabia. Leia mais…»

Um abraço é um ato solipsista não importa em quais deuses você não acredite

O Coiote corre atrás do Papa-léguas por que está sempre com muita fome. Ele tem tanta fome que nem lembra de usar o cartão de crédito dele pra pedir uma pizza, ele prefere encomendar aparato bélico pra dar um jeito de matar o pássaro por que ele tem muita, muita fome. Em compensação o Papa-léguas nunca tem fome, mas corre muito. Corre o suficiente pra escapar de todo e qualquer projeto feito pelo seu predador para capturá-lo e por isso a cadeia alimentar fica sempre incompleta. “Cadeia Alimentar” é o nome que os cientistas deram para definir a ordem de quem come quem nesse nosso planeta.Não existem animais de outro planeta na nossa cadeia alimentar por que ninguém nunca viu um e, portanto, ninguém sabe o que eles comem. Os cientistas dão nomes para muitas coisas, talvez eles tenham dado o nome do Papa-léguas também. Ler mais deste artigo

O riso de quem dança em círculos

Em todas as culturas, a medida cronológica de “ano” corresponde a um mesmo ciclo solar (ou melhor, da Terra ao redor do Sol).

Do ponto de vista religioso, os rituais de ano novo giram em torno do seguinte esquema: abolição do tempo passado, reaparição momentânea do caos primordial e retomada da cosmogonia (criação do universo).

Por conseguinte, cada fim/começo de ano nos faz abandonar provisoriamente a ideia de um tempo linear em virtude de um tempo circular.

Acontece que o tempo linear é uma invenção recente.

Enquanto que nas sociedades pré-socráticas o tempo circular “rodava eternamente”, por assim dizer, nossa atual consciência histórica nos faz ver uma direção que leva a roda do tempo a algum lugar. Leia mais…»

Submarinos, ocupações e mudanças

Wall Street e os estudantes da USP. Movimentos sociais recentes que seguem uma tendência à “ocupação” em favor de uma determinada causa.

A princípio, faço minhas as palavras de meu colega Eduardo Ferreira: reivindico por meu direito de não ter uma opinião sobre o assunto. Não significa, contudo, que eu não me importo com tais fenômenos. Significa que eu não quero aproveitar estes eventos para fazer o mesmo que eles já fazem: dar lição de moral.

O problema não são as lições de moral, o problema é o desgaste que elas sofrem em decorrência da necessidade crescente que temos em reafirmá-las. Leia mais…»

Imaginário, demasiado imaginário

[Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. É também um texto mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura.]

Aqueles que acompanham meu trabalho sabem que tenho muito apreço à denominada Escola do Imaginário. Recentemente participei de um congresso sobre esta linha de pensamento e voltei um tanto desiludido. Não com o congresso em si, nem com os autores ou qualquer pessoa, mas com uma certa ortodoxia do Imaginário.

No decorrer do evento, fui anotando algumas manias discursivas. A primeira delas é um modo de ser eclético, plural, abrangente e transversal, sempre se pautando em argumentos relativistas (mas nem um pouco céticos). Ou seja, o imaginário abarca tudo e todos, sendo qualquer corrente ou doutrina passível de ser adequada enquanto “forma simbólica”, nos termos de Cassirer. Leia mais…»

A fuga de Amy Winehouse

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Sabe da última? A cantora Amy Winehouse, premiada com 5 Grammy’s, morreu recentemente em Londres, com 27 anos. E se você disser “e eu com isso?”, todo mundo vai te olhar como se você fosse um estuprador.

Ora, ela era alcoólatra e drogada. Mas também era indiscutivelmente talentosa. Acima de tudo, a desgraça dela comovia as pessoas.

Em algum tumblr da vida encontrei a seguinte mensagem (autor desconhecido):

“Ela sabia o que ela era, uma viciada, uma romântica incurável, ela sabia que estava doente. (…) No entanto, ela era uma pessoa. Nós todos temos defeitos, vícios e situações obscuras”.

Leia mais…»

Entre erros e acertos

* texto originalmente publicado nos tópicos de discussão de nosso Google Groups.

Hoje eu li um post do philosopherlikes e me identifiquei bastante, pois refletia algumas coisas que eu estava pensando atualmente. Achei interessante o pressuposto de que estar errado é necessário em qualquer pretensão filosófica. Quando se tem medo de estar errado, a ponto de não arriscar um palpite, a possibilidade filosófica de estar errado deixa de existir. Estou dizendo isso porque, desde quando eu comecei com este blog, minhas concepções foram mudando bastante.

No começo, a ideia do grupo de estudos (que foi abandonada) trazia um tom demasiado acadêmico e ao mesmo tempo ingênuo. Eu acreditava que discussões filosóficas sobre Design, abertas a qualquer pessoa interessada, poderiam ser mais construtivas se houvesse um espaço destinado só para isso. Porém, após um ano, reconheci alguns empecilhos. O primeiro é que a maioria dos designers interessados em filosofia são instrospectivos, isto é, não gostam muito de interagir (sim, eu me incluo nisso). Tentando superar, sob diversas formas, tal dificuldade, descobri um segundo obstáculo: a maioria daqueles que gostam de interagir pensam que são mais espertos do que os outros, contrariando aquele princípio básico de “estar errado”. Leia mais…»

O design, o imaginário – das observações – parte 1

Nascemos. Crescemos um pouquinho e nossos pais já nos colocam na escola e acabamos passando metade do nosso tempo em função disso. Depois de uns 13 anos fazendo isso entramos num curso pré-vestibular, que consiste em rever tudo aquilo visto ao longo desse monte de tempo. Acabamos passando todo nosso tempo em função disso. Passamos no vestibular e ficamos no mínimo quatro anos no que se chama universidade. E esse é o início de tudo.

Quando saímos da universidade temos duas opções básicas: seguir estudando (especialização, mestrado) ou ir para o “mercado”. E sim, todo mundo fica perguntando se você já está trabalhando ou o que pretende fazer – porque se você não faz alguma coisa dessas você é nada mais que um estorvo. (E falo porque é o que acontece comigo há 6 meses, desde que saí da faculdade) Ler mais deste artigo

Identidade brasileira?

* texto originalmente publicado no Universo Humanus.

“Identidade brasileira é mistura, abertura, sincretismo, miscigenação…” – esse velho papo-furado de designer/marqueteiro sempre me incomodou. Quando o assunto é identidade cultural, o lugar comum para se evitar a enxurrada bosta-nova do futebol, samba e carnaval é falar de uma suposta mistura cultural entre regiões, sotaques, etnias, folclores, etc. Ora, eu sou brasileiro e, assim como boa parte dos brasileiros, nunca tive contato direto com uma xilogravura nordestina, por exemplo. Logo, não me parece que a identidade (unidade de características de diferenciação) brasileira seja tão plural e eclética como se diz por aí.

Os designers em geral, comprometidos com a originalidade e o ineditismo, costumam ter uma noção confusa e duvidosa com relação a identidades nacionais (não somente a brasileira). Afinal, em tempos de globalização e geração y, como definir os traços que caracterizam um povo perante os demais? Particularmente, acho interessante a perspectiva de Rafael Cardoso (2008) sobre a identidade como algo indissociável do conceito de memória. Leia mais…»

Mentira, sinceridade e consumo

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Como todas as palavras que se referem ao ser humano, o consumo nunca possuirá definições precisas e inquestionáveis. A opinião é necessária, sendo que a própria opinião também pode ser considerada uma forma de consumo. Por exemplo, parte da minha opinião sobre o consumo foi literalmente consumida da opinião de Jean Baudrillard, que por sua vez digeriu e defecou outras opiniões, chegando à seguinte conclusão: o consumo não é literalmente real.

Para explicar isso, recorro a uma frase de Kafka que dizia mais ou menos assim: confissão e mentira são a mesma coisa; não podemos dizer o que somos, justamente porque somos isso; podemos dizer apenas aquilo que não somos, ou seja, somente a mentira. Seria então o consumo uma forma de mentira? Apenas se a mentira for entendida como contrário da verdade e não da sinceridade – você pode falar a verdade sem ser sincero, mas o consumo parece ser algo maior que a verdade e a mentira, talvez algo como uma “mentira sincera”. Leia mais…»

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