Resenha: Design Para um Mundo Complexo

CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012. ISBN 978-85-405-0098-3

livro laranja, picolé laranja

combina com picolé de cajá!

O livro é laranja! Que tipo de designer pode não amar um livro laranja?

Trata-se sem dúvida de um livro para agradar designers. A cor, as ilustrações cool, o pequeno formato, o tom de conversa, a argumentação semi-científica, tudo feito para que designers amem o livro.

Podemos dizer que é um livro promissor, no seguinte sentido: Ele promete muito. O título é uma referência à um dos livros mais bombásticos da teoria do design, “Design para o Mundo Real” do Papaneck, que basicamente dizia que tudo o que os designers faziam era frescura e que as calamidades contemporâneas exigiam um design engajado — típica ideologia de dominar o mundo. E encontramos a mesma pretensão em Rafael Cardoso, quando ele diz que a complexidade torna obsoleto aquele mundo real, quando ele diz que os livros são o real conhecimento, quando dá um título nietzscheano para sua conclusão: “Novos valores para o design”. Certamente que o autor negaria isso, várias passagens ensaiam uma pretensa humildade, mas vale desconfiar dessa máscara: Afinal, o conteúdo do livro são respostas para todos os problemas do design. Ler mais deste artigo

o design e a internerd

xkcd commemorates the end of Geocities

xkcd commemorates the end of Geocities (Photo credit: secretlondon123)

Na página 207 do livro “Design para um mundo complexo” Rafael Cardoso afirma que:

A internet jamais teria alcançado sua repercussão atual se não fosse pela elaboração das interfaces gráficas que dão sustentação à world wide web. (…) Em suma, do ponto de vista de sua difusão social, a rede é um fenômeno tanto de design quanto de informática.

Essa afirmação está errada, fatualmente, mas o problema maior é quão monstruosamente enganosa ela é. Ler mais deste artigo

O mais profundo é a pele.

Este texto foi originalmente publicado no blog Robô Alcoólatra

Ontem assisti à A Pele que Habito de Almodôvar. Surpreendente. Esse é o adjetivo que mais se encaixa nesse filme, pois apesar de estar algumas das características principais da filmografia almodovariana, ainda tem um passo mais além, entrando no assunto contemporâneo da bioética. O espanhol jogou todo o seu clima burlesco num filme que se aproxima de um thriller dos anos 30 e um de terror científico que encontramos nos dias de hoje (Centopeia Humana). A começar pelo título mesmo, em qual pele nós habitamos hoje em dia? Ficamos emergidos num anacronismo, onde vemos diante de nós um avanço científico e no outro, grande asseguramento de valores tradicionais para dar justificação a certos caminhos que na verdade já são altamente sem-sentido. Porém, perduramos naquele sentimento de permanecermos presos e acomodados a uma lei que enfraquece, já que tenta calcular o incalculável: a natureza humana. Ler mais deste artigo

Nietzsche: o filosofar com o martelo

Como tô cheio de coisas do mestrado pra resolver, sem vir idéias para escrever um tema que ligue a filosofia ao design. Decidi por hora escrever sobre um filósofo, deste modo, os leitores podem retirar algo que contribua de alguma forma do texto abaixo. Resolvi escrever sobre Nietzsche se tiver uma boa aceitação, posso quem sabe escrever mais sobre alguns dos filósofos que tenho mais afinidade.

Sobre o filósofo alemão Nietzsche posso afirmar que é um dos pensadores mais conhecidos tanto para especialistas quanto para leigos, principalmente se restringirmos ao âmbito da filosofia. Pois ao perguntamos a um leigo a cerca da filosofia muito possível que ele reportará seja aos gregos, aqui refiro a Platão e Aristóteles, ou a Nietzsche, talvez um ou outro que possa indicar Marx devido a grande influência política no século XX ou citar Freud por confundi-lo como inserido na classe dos filósofos. Porém, raramente você verá alguém reportar, por exemplo, a Kant; que como se sabe foi o grande divisor de  águas da filosofia depois de Aristóteles. Podemos colocar talvez Sartre, mas sinceramente hoje em dia, Sartre não carrega tanta publicidade como tempos atrás e hoje quem ouviu falar de Sartre, também ouviu falar de Kant; diferente de Nietzsche. Mas com toda essa comoção ao pensamento de Nietzsche será que as pessoas conhecem Nietzsche? Refletem sobre seus pensamentos? Claro que não. Tanto mais porque, muitos utilizam da filosofia de Nietzsche como espécie de auto-ajuda, recorrendo a aforismo soltos sem qualquer identificação com a obra em si.

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Articulação Simbólica – fase de qualificação

Sexta-feira passada ocorreu a banca de qualificação de minha pesquisa de mestrado (PPG-Design UFPR). Pra quem desconhece estas etapas acadêmicas, não se trata de um exame final e definitivo, trata-se apenas de uma pré-avaliação onde alguns professores verificam se eu estou apto ou não a prosseguir com minha pesquisa. Nessa ocasião, tive a oportunidade de ser examinado pelos seguintes professores: Stephania Padovani (minha orientadora), Gloria Kirinus (minha co-orientadora), Rogério de Almeida (FE-USP) e Maristela Ono (PPGTE UTFPR).

Evidentemente, não venho aqui falar de meu desempenho em particular. Quero apenas compartilhar aquilo que foi praticamente uma palestra sobre Filosofia do Design, ministrada pelos professores mencionados. Afinal, diferente do que seria um exame final, a banca de qualificação não serve somente para avaliar o trabalho, mas principalmente para contribuir com ele e enriquecê-lo, uma vez que ele ainda não foi concluído. Leia mais…»

Ficções de um mar sem fundo

* texto originalmente publicado no Universo Humanus.

Você já se sentiu como se estivesse vivendo uma ficção? Se sim, leia o livro “Ficções que Curam” (Healing Fiction), de James Hillman. Em linhas gerais, o psicólogo nos explica por que as criações ficcionais dão sentido ao mundo. Por exemplo, quando você “pensa” que não está mais apaixonado por alguém, na verdade você está amando, pela primeira vez, quem você já amou um dia. Somente quando nos afastamos da história da qual fazemos parte é que ela começa a fazer sentido – nós encaixamos as peças.

Eis a verdadeira liberdade humana, afastar para retornar, como Santo Agostinho dizia: “não vás fora de ti, retorne a ti mesmo; no interior do homem é que reside a verdade”. Amar algo ou alguém profundamente nos dá mais coragem para viver na medida em que, na verdade, somente assim somos capazes de dar sentido à nossa existência. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXIX – o Destino de Argan

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Existe uma crise profunda do Design. É assim que Giulio Carlo Argan (1993) inicia o capítulo A Crise do Design em seu livro História da Arte como História da Cidade. Após nossa breve pincelada sobre Flusser e Baudrillard, hoje conheceremos um pouco do pensamento deste historiador italiano e teórico da arte. Em seu livro Projeto e Destino (2000), Giulio Carlo Argan (1909-1992) contrapõe destino – aquilo sobre o qual o homem não tem controle – a projeto, isto é, toda tentativa humana de controlar conscientemente seu próprio futuro. Logo, projetar é uma tentativa de tomar as rédeas do destino. Seria então a crise do Design um destino que não conseguimos projetar?

É necessário ainda entendermos que a ideia de história não é, para Argan, apenas algo retrospectivo. É também prospectivo e teleológico, isto é, aponta para o futuro na medida em que a história é colocada em prática no ato de projetar. O conceito de moral, por exemplo, seria uma espécie de projeto da humanidade para a sua própria existência. Por outro lado, a ideia de programação, ao contrário de projeto, não envolve escolha ou decisão, mas uma ordem preestabelecida, calculada e mecânica. Seguindo este raciocínio, a crise do Design manifesta-se na crescente divergência entre programação e projeto. Frente às diversas contradições que surgem sucessivamente na sociedade, aos poucos estaríamos substituindo o pensamento dialógico do projeto (o diálogo entre passado e futuro) pelas soluções dialéticas da programação (a busca pela síntese), apagando da sociedade toda forma de existência histórica. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVIII – a Sombra de Baudrillard

* texto originalmente publicado no Design Simples.

De modo semelhante ao post sobre o Flusser, hoje apresentarei um pouco do pensamento de Jean Baudrillard (1929 – 2007), “a primeira sombra de dúvida ou negação em face da inexorabilidade racional e afirmativa do desenho industrial” (Zulmira Ribeiro Tavares in BAUDRILLARD, 2008, p. 230). Refiro-me àquela que é considerada sua magnum opus, “O Sistema dos Objetos”, que trata do discurso que os objetos de design manifestam ao serem consumidos, isto é, aquilo que escapa de essencial ao designer e que, nos objetos, adquire (simbolicamente) vida própria.

O termo “sistema” carrega consigo uma ideia de dimensão fechada, independente, de autonomia da área estudada, de imanência. No entanto, embora Baudrillard adote o estruturalismo como perspectiva teórica, no intuito de garantir o rigor da sistematização do tema, reconhece o risco de cair em uma análise forçada, na qual o foco de estudo passe demotivo a mero pretexto frente ao instrumental adotado. Isso porque há uma nítida preocupação com o nível conotativo, ou mesmo inconsciente, que sinaliza uma dimensão maior e de organização simbólica: “além de um certo tamanho, qualquer objeto, mesmo o fálico de uso (carro, foguete) torna-se receptáculo, vaso, útero – aquém, faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)” (BAUDRILLARD, 2008, p. 33). Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVII – Decodificando Flusser

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora eu já tenha mencionado Flusser em alguns de meus posts, hoje farei um ensaio “introdutório” ao pensamento deste filósofo tcheco-brasileiro para compensar minha gafe (graças à generosa edição do @mizanzuk) no primeiro programa do AntiCast. Nascido e falecido em Praga, Vilém Flusser (1920-1991) viveu entre 1940 e 1972 no Brasil, onde realizou boa parte de um amplo trabalho filosófico que encara a imagem e o artefato como princípios básicos da existência humana. Diferentemente de outros pensadores de mídias (como Barthes, McLuhan, Baudrillard, etc.), Flusser ultrapassa muitas limitações metodológicas a favor de uma reflexão aberta do pensamento humano (no sentido mais amplo que isso possa ter).

Design e comunicação são, para ele, desdobramentos interdependentes de um mesmo fenômeno, a saber, o processo de codificação da experiência. Significa que projetar é in-formar, isto é, dar forma à matéria seguindo uma determinada intenção. Logo, o produto de design é ao mesmo tempo modelo e informação: ao transformar as relações entre o usuário e seu entorno, atribui uma função e um significado ao mundo. Embora isso pareça simples, o paradoxo do Design se revela em sua ambiguidade de ser simultaneamente uma atividade natural e artificial. Se por um lado configura uma habilidade imanente ao homem, por outro, compõe um universo regido por uma semântica e uma dinâmica próprias. Leia mais…»

In Search of Semiotics – David Sless

Resenha de Keyan G. Tomaselli, tradução livre de Marcos Beccari

In Search of Semiotics (Em Busca da Semiótica) é um livro tão importante quanto controverso. Ele pode até mesmo interromper algumas das formas mais impenetráveis da semiótica, que aterrorizam os estudantes e acadêmicos. Basicamente, o livro é, nas palavras de Sless, uma “biografia semiótica”, isto é, sua própria trajetória neste campo: como o autor chegou a um acordo com a Semiótica, domou-a e tornou-a acessível aos não iniciados.

Sless captura este campo de estudos e reexamina os seus conceitos básicos. Segundo o autor, trata-se de uma atividade necessária, um retorno às raízes. No entanto, ao contrário de muitas outras teorias oriundas de uma variedade de disciplinas que há muito tempo esqueceram suas derivações, as quais remontam um baralho de cartas para reavaliações, Sless reafirma uma forma da Semiótica que continua sua intenção analítica inicial, livre de hegemonias textuais.

Sless não perdoa ninguém. Numerosos teóricos sagrados são derrubados um após o outro: o modelo de transmissão de comunicação, que equivocadamente assume a “troca” e o “compartilhamento”; o estruturalismo, que ignora o papel que os leitores projetados desempenham na estrutura dos textos; Roland Barthes e sua análise do discurso, que assumem o “compartilhamento” e a homogeneidade de leitores; o método de análise do discurso e a semiótica imperialista, que eliminam os autores e distanciam dos leitores o objeto de estudo; entre outros autores como Herbert Read. Entre as celebridades desafiadas por Sless, destacam-se are Judith Williamson, Umberto Eco, Michael Foucault, Brunsden e Morely, Jaques Derrida e Frederick Jameson, Terrence Hawkes, John Fiske e Stuart Hall. Se perguntarem por que Sless deixou de fora a Semiologia de Pierre Giraud, a resposta é que a tradução em inglês é temperada com os erros, contradições e obscuridades. O próprio Giraud começa seu livro com a mais simples das metáforas do modelo básico de transmissão. Nenhuma dessas abordagens, diz Sless, justifica as mentiras ou mal-entendidos ou até mesmo o próprio processo de comunicação em si. Leia mais…»

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