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	<title>Filosofia do Design</title>
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		<title>Em que medida somos colonizados pela linguagem?</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 01:23:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel B. Portugal</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Esta questão foi levantada no meu post Saussure, língua, xadrez e gerou debates antes mesmo que eu tentasse respondê-la – tentativa que farei agora. Vejamos: o que disse no tal post, e que de modo algum é uma ideia original, foi o seguinte: dado que a língua tem como elementos irredutíveis os fonemas (no caso [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6807&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" alt="" src="http://imagensdoclaustro.files.wordpress.com/2012/05/livros-biblioteca.jpg?w=346&#038;h=259" width="346" height="259" />Esta questão foi levantada no meu post <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2013/04/18/saussure-lingua-xadrez/" target="_blank"><em>Saussure, língua, xadrez</em></a> e gerou debates antes mesmo que eu tentasse respondê-la – tentativa que farei agora. Vejamos: o que disse no tal <em>post</em>, e que de modo algum é uma ideia original, foi o seguinte: dado que a língua tem como elementos irredutíveis os fonemas (no caso da linguagem falada) ou letras (no caso da linguagem escrita), e dado que os fonemas e as letras existem em número limitado, as combinações possíveis entre tais elementos são finitas, de tal modo que seria possível – como faz Borges em <em>A Biblioteca de Babel</em> – imaginar uma biblioteca na qual estivessem compiladas todas as combinações possíveis das letras do alfabeto. Ora, em tal biblioteca estariam, assim, todos os textos possíveis de serem escritos: este post, a bíblia, o texto ganhador do prêmio Jabuti do ano que vem etc.<span id="more-6807"></span></p>
<p>Ora, embora tal biblioteca evidentemente não exista em nenhum canto do universo, o fato é que sua existência virtual já é suficiente para nos fazer pensar que, quando falamos ou escrevemos, não estaríamos fazendo mais do que selecionar algum texto dessa biblioteca &#8212; ou seja, não estaríamos propriamente criando nada, apenas atualizando uma das potencialidades da língua. Adiante, tentarei mostrar como a discussão a que nos leva esse exemplo só leva em conta uma dimensão da linguagem. Antes, porém, gostaria de falar sobre algumas supostas refutações à ideia exposta acima que foram feitas em comentários ao post anterior e que acredito não fazerem muito sentido.</p>
<p>1. Para imaginarmos tal biblioteca, temos que supor livros com certo número de páginas (300, digamos), de modo que livros gigantescos (por exemplo, o livro <em>A secular age</em>, do Charles Taylor, com suas 874 páginas) não estariam incluídos e precisaríamos juntar alguns volumes para ter o livro. Pensando assim, entretanto, poderíamos imaginar bibliotecas com exemplares cada vez menores até chegar a apenas uma página. E até, se fôssemos adiante, poderíamos chegar ao próprio fato da existência das letras e de sua alternância.</p>
<p>Tudo que se pode dizer aqui é que sem dúvida alguma a ideia da biblioteca é uma conseqüência justamente do caráter “digital” do sistema lingüístico, isto é, de que ele possui alguns caracteres básicos que permitem a existência de todo sistema. Uma letra só pode ser a, b, c, d etc. não pode estar “entre” a e b. Em um sistema analógico, por outro lado, não há caracteres básicos ou dígitos, como poderíamos pensar ser o caso de uma representação por desenho. De todo modo, não vejo no que este ponto invalidaria a ideia da biblioteca.</p>
<p>2. Como assim está tudo previsto? E Guimarães Rosa? E James Joyce?</p>
<p>Até onde eu sei, Guimarães Rosa e James Joyce também escrevem utilizando as letras do alfabeto, de tal modo que seus textos seriam tão “previstos” &#8212; isto é, fariam parte da biblioteca virtual, quanto os demais. A motivação para esta “crítica” entretanto é clara: trata-se de autores que subvertem o padrão da língua. O que ocorre aqui, como em muitos outros lugares, é uma confusão com as diversas dimensões da linguagem.</p>
<p>Sem dúvida, é bastante difícil lidar com tais dimensões, mas parece que é preciso separar algumas delas para uma reflexão minimamente fecunda. No que diz respeito à consideração acima, é preciso separar a dimensão da possibilidade das combinações dos elementos primários do sistema da língua da dimensão das regras do sistema da língua. Com efeito, se imaginarmos os livros que compõem a Biblioteca de Babel, veremos que para cada livro composto mais ou menos de acordo com as regras da língua (i.e., contendo majoritariamente palavras existentes combinadas de maneira sintaticamente coerente) existirão milhares de livros que não o fazem (livros que contém em sua maioria coisas como: erwbrnerbenrb nrbeebr erern breerebrebnbenbwbewe rewrnwbwebnrtmtrnmnbr tnbrntbtne). Quando certos autores inventam novas palavras e jogam com a sintaxe, eles podem estar subvertendo esta segunda dimensão da linguagem, mas não a anterior.</p>
<p>Seja como for, para tentar responder a pergunta-título deste post, o principal ponto é observar que mesmo estas duas dimensões não são suficientes para compreendermos a linguagem e seu uso. O fato é que a comunicação humana envolve muitas outras coisas além do sistema da língua, ou melhor dizendo, a fala, para se constituir propriamente como uma fala, depende de muitas outras coisas além de sua “estruturação” pelo sistema de regras da língua. A fala, sendo um acontecimento concreto, só existe na relação com outras falas, isto é, ela possui um lugar específico que faz com que ela ganhe um significado para nós. Esta fala, considerada em seu lugar específico é, grosso modo, o que se chama de enunciado, e a dimensão em questão no enunciado é a dimensão discursiva da linguagem.</p>
<p>Alguns dos autores que mais famosamente refletiram sobre essa dimensão da linguagem são Bakhtin e Foucault. Embora as perspectivas dos dois autores sejam um tanto diversas, podemos dizer que os dois querem estudar aspectos relacionados à linguagem fugindo tanto, por um lado, da visão ingênua de que a fala é simplesmente a materialização de uma intenção individual (Bakhtin chama tal postura de subjetivismo idealista) e, por outro, da visão de que a fala é totalmente subordinada a um sistema que paira sobre ela, intacto, e lhe dá sua forma (Bakhtin chama tal postura de objetivismo abstrato). Desnecessário dizer que a proposta de Saussure não é tão dura e reducionista quanto essa descrição do objetivismo abstrato faz parecer, mas o ponto aqui é que ela deixa fora das considerações a dimensão discursiva da linguagem.</p>
<p>Mas o que seria, afinal, tal dimensão discursiva? é difícil definir essa dimensão. Prova disso é que Foucault passa boa parte de sua <em>Arqueologia do saber</em> tentando definir termos como enunciado e discurso. Um ponto esclarecedor é a comparação que o filósofo faz entre enunciado, frase e proposição. Enquanto a frase é um conjunto de signos considerado por sua adequação às regras da língua e a proposição um conjunto de signos considerado por seu valor de verdade, o enunciado é um conjunto de signos considerado em seu aparecimento singular e na relação com outros enunciados que lhe deram seu lugar. Daí que, como escreve Foucault, “um enunciado tem sempre margens povoadas por outros enunciados” (<em>Arqueologia do saber</em>. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2012, p. 118).</p>
<p>Já que comecei o post falando de um texto de Borges, vou aproveitar outro – parte também de sua obra <em>Ficções</em> – que ajuda a compreender melhor a dimensão discursiva da linguagem. Falo do conto intitulado Pierre Menard, autor do <em>Quixote</em>. Neste conto, o narrador fala sobre Pierre Menard e sua empreitada de escrever um texto igual ao <em>Dom Quixote</em>, embora obviamente não se tratasse de realizar uma cópia mecânica, mas, de alguma forma, de chegar ao mesmo texto, sendo ele Pierre Menard, no século XX, e não Cervantes, no século XVII. No fim da vida, após anos de esforço, havia conseguido escrever dois capítulos de seu <em>Dom Quixote</em>. Em um dado momento, o narrador compara sua obra com a de Cervantes:<img class="alignright" alt="" src="http://www.margaritasemcensura.com/blog/wp-content/uploads/foto_5(10).jpg" width="336" height="450" /></p>
<blockquote><p>[...] o fragmentário Quixote de Menard é mais sutil que o de Cervantes. Este, de uma forma tosca, opõe as ficções cavalheirescas à pobre realidade provinciana de seu país; Menard escolhe como “realidade” a terra de Carmen durante o século de Lepanto e Lope. Que espanholadas essa escolha não teria sugerido a Maurice Barrès ou ao doutor Rodríguez Laretta! Menard, com toda a naturalidade, evita-as. Em sua obra não há ciganices nem conquistadores, nem místicos, nem Filipe II, nem autos-de-fé. Proscreve a cor local ou não lhe dá atenção (BORGES, J. L. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 41).</p></blockquote>
<p>Ou seja, a mesma série de signos (a combinação de letras que compõem o Dom Quixote) pode formar enunciados bastante diferentes em contextos discursivos diferentes. Embora o próprio espanhol tenha sem dúvida mudado do século XVII para o XX, é bastante óbvio que as diferenças apontadas pelo narrador no trecho acima dizem respeito a outra ordem – justamente à ordem discursiva.</p>
<p>Com base nesta perspectiva, poderíamos dizer que a existência da Bilioteca de Babel nada diz de tão relevante assim sobre a colonização do sujeito pela linguagem: uma vez que os significados deslizam incessantemente sob os significantes. O Dom Quixote pode estar lá, mas trata-se do Dom Quixote de Cervantes ou do Dom Quixote de Pierre Menard, ou de todos os possíveis outros? Ou seja, mesmo que tenhamos que escolher uma sequencia de signos dentre combinações finitas, os significados possíveis dessas combinações poderiam ser consideradas infinitas – ou ao menos pertencente a outro tipo de finitude.</p>
<p>Concluímos então que a perspectiva discursiva nos leva de volta a uma autonomia do sujeito frente a sua fala? De maneira alguma! Na verdade, o contexto discursivo – ou formação discursiva, como prefere Foucault – pode ser visto também como uma espécie de estrutura, mesmo que muito diferente da língua. Seja como for, o fato é que o sujeito, nesta perspectiva, será encarado como emergindo nos interstícios das malhas discursivas e, assim, de certo modo, como “colonizado” pela linguagem (agora considerada nessa nova dimensão).</p>
<p>Vale ressaltar que colonizado não significa aqui “escravizado”, apenas que o campo discursivo oferece os horizontes possíveis para os sujeitos; é ele que, como escreve Foucault “[prescreve] uma posição definida a qualquer sujeito possível”. O sujeito, entretanto (e talvez esta seja uma leitura por demais lacaniana de foucault, mas enfim&#8230;), constitui-se frente a essa prescrição, ou seja, frente àquilo que Lacan chamará de Lei, mas possui certa autonomia frente a ela, não é mero efeito dela, como propõem leituras reducionistas dos dois autores.</p>
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		<title>A morte do design &#8211; Parte I</title>
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		<pubDate>Mon, 13 May 2013 03:01:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Souza</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ainda no primeiro período, em História do Design, eu lembro do meu professor pôr a questão do que é design. Em suas divagações e questionamentos, ele chegou a perguntar-nos se Madonna não seria um artefato de design; ela é projetada para se comportar de determinadas maneiras, para cantar e se vestir com intuitos específicos e [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6777&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda no primeiro período, em História do Design, eu lembro do meu professor pôr a questão do que é design. Em suas divagações e questionamentos, ele chegou a perguntar-nos se Madonna não seria um artefato de design; ela é projetada para se comportar de determinadas maneiras, para cantar e se vestir com intuitos específicos e manobrar pelo mercado de forma planejada. Durante um tempo, aquilo foi uma piada interna, e das boas. Mas agora, passados quatro anos: e aí, <em>Madonna é um artefato de design?</em></p>
<p><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tumblr_lxyn69ijqi1qf3k9uo1_5001.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-6794" alt="tumblr_lxyn69ijQI1qf3k9uo1_500" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tumblr_lxyn69ijqi1qf3k9uo1_5001.jpg?w=630&#038;h=266" width="630" height="266" /></a></p>
<p><span id="more-6777"></span>Há algum tempo, eu tenho umas desconfianças de que grande parte de nossas vidas – nossas realidades – são narrativas, ficções. Eu já falei <a href="https://vimeo.com/64863628">um pouco</a> disso <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2012/12/15/real-existente-e-ficcional/">por aqui</a> e o pessoal do Filosofia fala disso quase sempre. E, se de fato tomarmos a perspectiva d&#8217;o designer enquanto <a href="http://2x4.org/ideas/2/">narrador</a> ou <a href="http://pt.scribd.com/marcos_beccari/d/82634283-Articulacao-Simbolica-uma-abordagem-junguiana-aplicada-a-Filosofia-do-Design">articulador simbólico</a>, podemos dizer que nós <em>modelamos a realidade</em>.</p>
<p><a href="https://alemdoespetaculo.wordpress.com/page/2/"><img class="wp-image-6783 alignright" alt="es-muss-sein" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/es-muss-sein.jpg?w=257&#038;h=359" width="257" height="359" /></a>Mas o que isso <em>realmente </em>significa? Não seria abstrato demais? Ou vago demais? Afinal de contas, todos modelamos a realidade daqueles que nos cercam – mesmo daqueles que sequer conhecemos – se adotarmos uma perspectiva caótica. Para isso, inclusive, recomendo dois filmes muito bons de Alejandro Gonzales Iñárritu: <a href="http://www.imdb.com/title/tt0315733/">21 gramas</a> e <a href="http://www.imdb.com/title/tt0449467/">Babel</a>.</p>
<p>Preciso concordar com os argumentos desdenhosos dos mais pragmáticos que afirmam isso se tratar de algo deveras abstrato ou ideal demais – pelo menos à primeira vista. De todo modo, nunca esqueçamos do ouroboros: os fins se encontram.</p>
<p>Devo confessar que, em meu dia-a-dia de designer, no famigerado &#8220;mercado&#8221;, é difícil conseguir &#8220;aplicar&#8221; de maneira &#8220;pragmática&#8221; essa noção de narrativa de <em>reality-bending</em>. Como alterar a <em>realidade</em> do usuário através de um simples impresso ou de um anúncio ou site? Como alterar a <em>realidade </em>de um indivíduo através do projeto de uma peneira ou de uma embalagem de biscoito? Ou de uma cadeira?</p>
<p>Claro, você pode me dizer: se qualquer um desses projetos for &#8220;ruim&#8221;, isso vai fazer com que o usuário se sinta mal e possa causar efeitos colaterais; no caso da cadeira, uma possível dor de coluna. Mas veja que, se essa cadeira for realmente &#8220;ruim&#8221;,  ela provavelmente sequer sairá da loja – caso sequer seja produzida. Se o impresso for ruim, o máximo que eu vou causar no usuário é um leve desconforto do qual ele vai se desfazer na lixeira mais próxima – se ele for suficientemente educado.</p>
<p><a href="https://alemdoespetaculo.wordpress.com/"><img class="alignnone size-full wp-image-6782" alt="129130" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/129130.jpg?w=630&#038;h=262" width="630" height="262" /></a></p>
<p>Isso me levou, então, a pensar que, na verdade, isso que eu faço <em>não é design</em><em>. </em>Pelo menos, não inteiramente, já que os efeitos que eu causo no usuário são, na melhor das hipóteses, muito pequenos; fazendo-o gastar um pouco mais de dinheiro. Vamos tentar algo mais crucial ou significativo.</p>
<p>[Vou me desviar de uma análise mais aprofundada com relação ao "Sistema", já que em <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2013/05/01/o-aftermath-da-tabela/">meu último post</a>, eu linkei várias críticas muito mais interessantes do que qualquer coisa que eu poderia escrever.]</p>
<p><a href="http://www.avatarsculptureworks.com/"><img class="alignright" alt="" src="http://www.avatarsculptureworks.com/GirlFrag3.jpg" width="282" height="395" /></a>Em certo momento da minha vida – mais especificamente quando eu assisti a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=5R_Vm2wCQj4"><em>Zeitgeist</em></a> –, eu comecei a procurar e entender todo tipo de planejamento do &#8220;Sistema&#8221;, através das famosas <em>teorias da conspiração</em>. (Nunca achei esse termo muito feliz porque dá uma ideia de descrença, de bobagem lunática na qual um seleto grupo de idiotas acredita e vive pregando por aí como pastores extremistas pregam a Bíblia.) Pois bem, nesse momento, eu assisti a vários documentários do gênero, um deles <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=UWPMeM1eF2U&amp;list=PL1682B54E0A0445A1">O Poder dos Pesadelos</a></em>. Que surpresa a minha um documentário desse tipo ser da BBC, uma empresa de jornalismo séria, respeitada no mundo inteiro.</p>
<p>Resumindo brevemente, a BBC mostra como a sociedade norte-americana ao longo de sua história, convenientemente, sempre possuiu um inimigo, um bode expiatório, um <em>Cristo </em>no qual eles sempre direcionaram suas forças <del>armadas</del> e, a população, seu ódio. A partir daí, eu comecei a entender <em>como </em>e <em>porquê </em>a sociedade norte-americana possuía uma identidade, um senso de patriotismo e nacionalismo tão forte; e não, não é só Hollywood que faz isso. Essa constante <em>invenção </em>de inimigos não poderia ser mero acaso, nem era fruto de algo <em>não projetado</em>.</p>
<p>Uma das principais referências que tive <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/46201689/Eduardo%20Souza%20-%20Memorial%20_%20Fanzine%2C%20Design%20e%20Narrativas.pdf">quando falei de mitos e design</a> foi a <a href="http://pt.scribd.com/doc/47633454/A-Crise-Do-Mito-No-Design-Ivan-Mizanzuk">monografia de Ivan Mizanzuk</a>. Ele já disse em várias ocasiões que, hoje, vê muitos problemas naquele texto, mas eu o considero bastante válido. Principalmente quando ele revela o aspecto social dos mitos como parte integrante da cultura, que é o que mantém uma sociedade coesa. Essas narrativas mitológicas serviam de guia moral, social e, muitas vezes, &#8220;legislativo&#8221; para as primeiras sociedades – um aspecto bastante <em>prático</em>, eu diria. Novamente, essas histórias mantinham a identidade e a estrutura social de alguns povos. As <em>histórias, </em>as <em>narrativas.</em></p>
<p><a href="https://alemdoespetaculo.wordpress.com/"><img class="alignnone size-full wp-image-6788" alt="arquetipos" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/arquetipos.jpg?w=630&#038;h=254" width="630" height="254" /></a></p>
<p>Acontece que para uma sociedade colonizada cujo mero nome é algo parecido com &#8220;A gente tá junto nesse lugar, mas somos completamente diferentes&#8221; e cuja identidade é uma mistura de imigrantes de diversas partes do mundo, o surgimento de narrativas que vá unificar tantos backgrounds culturais diferentes é bastante difícil – no mínimo, demorado. Então, porque não <em>projetar </em>essas histórias? Fazer com que as pessoas acreditem que, sim, estamos <em>juntos </em>contra <em>alguém</em>. Isso criaria alguma identidade, já que o ódio a um terceiro em comum une as pessoas mais facilmente do que o amor entre elas.</p>
<p><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/331fca2e736cb60dde710529448b88b277e27f06_m.gif"><img class="alignleft size-medium wp-image-6799" alt="331fca2e736cb60dde710529448b88b277e27f06_m" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/331fca2e736cb60dde710529448b88b277e27f06_m.gif?w=300&#038;h=240" width="300" height="240" /></a>E, assim, através de <em>narrativas </em>e <em>símbolos</em>, projetou-se uma nação. <em>Uma nação é um artefato de design?</em></p>
<p>Mas óbvio que isso não pode ficar claro; no momento que essa identidade fosse reconhecida como <em>mera</em> <i>ficção</i>, quem acreditaria nela de novo? É necessário, portanto, ridicularizar, <em>metaficcionalizar</em> essas narrativas; criar uma segunda ficção a fim de que a primeira pareça mais <em>real.</em></p>
<p>Aí, sim, temos Hollywood. Como uma ferramenta para criar narrativas e metanarrativas para manter e exportar essa identidade, essa cultura. Em diversos momentos históricos, os filmes não só estabeleceram uma cultura dentro dos Estados Unidos – Velho Oeste, CIA, Segunda Guerra – como também exportaram essa perspectiva para o resto do mundo.</p>
<p><strong>[SPOILER ALERT de Homem de Ferro 3]</strong></p>
<p>E foi esse o ponto que mais me chamou atenção em Homem de Ferro 3. Claro que ele reafirma a soberania da tecnologia bélica dos EUA sobre forças conspiratórias internas e externas a ele¹; isso, até Missão Impossível faz. Mas Stark – Tony, não Robb – tem um quê a mais. O &#8220;vilão&#8221;, o Mandarin é justamente a expressão máxima da caricaturazição sarcástica da teoria conspiratória do testa-de-ferro, inserida em uma narrativa <i>irreal</i>. Ou seja, a intenção é camuflar essa noção de <em>forjar um inimigo</em> em uma metanarrativa que é, fundamentalmente, uma brincadeira. Uma coisa de criança que, agora, é feito para as crianças que há nos adultos.</p>
<p><img class="alignnone" alt="" src="http://img26.imageshack.us/img26/1318/77486910151402167212277.jpg" width="619" height="392" /></p>
<p>Aquele indivíduo que assiste o filme se sente ridicularizado em sequer pensar nesse tipo de perspectiva. <em>Eu </em>me senti ridicularizado por um momento. &#8220;Porra, eu acredito <em>realmente</em> que há um cara que planeja atentados terroristas desse jeito? Isso é uma piada!&#8221;. A outra maneira de interpretar isso é a que fica escondida pelo heroísmo do Ironman (o triunfo da nação): de fato, <em></em>isso<em> é forjado</em>, mas o perigo é <em>real</em> e estamos aqui para salvar você.<i><br />
</i></p>
<p><strong>[/SPOILER ALERT de Homem de Ferro 3]</strong></p>
<p>Então, Madonna é um artefato de design?</p>
<p>&#8212;</p>
<p>¹ Não tente argumentar que isso é uma visão esquerdista-marxista do imperialismo americano. Se você acha que o cinema não exerce influências culturais em quem o consome, você é um idiota.</p>
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		<title>Dilemas do Design VI – valor e avaliação</title>
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		<pubDate>Thu, 09 May 2013 13:30:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Beccari</dc:creator>
				<category><![CDATA[crítica em design]]></category>
		<category><![CDATA[ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[ensino do design]]></category>
		<category><![CDATA[avaliação]]></category>
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		<description><![CDATA[* texto originalmente publicado na Revista Clichê. “O segredo da maestria é que não há mestre.” – Georges Gusdorf, Professores para quê? (São Paulo, Martins Fontes, p. 318). Imagine que você é um professor de design editorial e nenhum de seus alunos sabe o que significa “kerning”. Exceto um, que inclusive trabalha nessa área já faz [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6730&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em><img class="alignleft  wp-image-6735" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/valoravaliacao.jpg?w=252&#038;h=276" width="252" height="276" />* texto originalmente publicado na <a href="http://www.revistacliche.com.br/2013/04/dilemas-do-design-v-corporativismo/" target="_blank">Revista Clichê</a>.</em></p>
<blockquote><p>“O segredo da maestria é que não há mestre.” – Georges Gusdorf, <i>Professores para quê?</i> (São Paulo, Martins Fontes, p. 318).</p></blockquote>
<p>Imagine que você é um professor de design editorial e nenhum de seus alunos sabe o que significa “kerning”. Exceto um, que inclusive trabalha nessa área já faz uns dez anos. A princípio, você teria duas opções: (1) começar do básico e fingir que aquele aluno não existe, nota 10 pra ele e pronto; (2) avaliar cada aluno de acordo com seu próprio “esforço”, isto é, do quanto cada aluno progride dentro de seu “nível” individual.<span id="more-6730"></span></p>
<p>O problema da primeira opção é evidente: o que significa uma faculdade diante de uma CTPS surrada? Pegue o teu diploma na lixeira mais próxima. Agora vamos ao sutilíssimo problema da segunda opção: aquele aluno lhe apresenta uma revista para a qual ele já trabalha faz tempo, ao passo que os demais alunos passaram dias e madrugadas começando uma revista do zero. Seguindo a lógica do “esforço”, todo mundo tira uns 9 e o aluno experiente tira 3. O argumento será infalível: mas professor, eu apresentei o melhor trabalho da sala inteira!</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6742" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/glassconch.jpg?w=191&#038;h=281" width="191" height="281" />Tive a oportunidade de ser este aluno e de ser o professor deste aluno. Como aluno, nunca deixei barato e exigia infinitas reavaliações, raramente obtendo êxito. No papel de professor, comecei perguntando para o indivíduo se ele gostava de música (coisa genérica de que todo gosta). Passei a conversar com ele sobre composição e estética musical (Adorno, Stockhausen, John Cage etc.) sempre meia hora antes das aulas. De repente ele se tornou o aluno mais engajado da turma, mesmo tirando notas baixas no começo.</p>
<p>Obviamente não se trata de uma solução. Foi apenas uma gambiarra. Um ambiente pré-formatado para sujeitar várias pessoas em relação a um suposto detentor do conhecimento definitivamente não tem solução. É ali que se produz e se propaga nossa obediência ao dogma do “necessário”: cumprir metas, fazer contatos, somar resultados, acumular pontos e ser bem-sucedido – ideias que sustentam políticas públicas, mercado de trabalho, família etc.</p>
<p>Pois é, o buraco é sempre <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2012/10/15/as-vezes-parecia-que-era-so-improvisar/" target="_blank">muito mais embaixo</a> (não dá pra falar seriamente disso em menos de cem páginas), mas acho que, na superfície, o problema do ensino do design aparece como recalque da relação entre avaliação e valor: o ato de avaliar serve necessariamente como princípio dos valores que estão sendo avaliados. Não há avaliação sem valores prévios, mas é no avaliar que os valores se fundam. Relevar essa simples relação implica recalcar uma questão fundamental: qual o valor da avaliação em si?</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6747" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/redlayers.jpg?w=191&#038;h=281" width="191" height="281" />Se não vemos o menor sentido nessa pergunta é porque já consideramos a avaliação como parte inerente do aprendizado, como algo natural, como procedimento necessário em todos os âmbitos da vida (na empresa, na escola, nas relações cotidianas e consigo mesmo). Não questionamos se esse valor “natural” somente é possível pela imposição de um poder, de um modo de agir, de um padrão a partir do qual qualquer valor possa ser reconhecido como válido.</p>
<p>Pouco importa se a avaliação é qualitativa ou quantitativa, diagnóstica ou processual – ou mesmo quando o avaliado passa a avaliar o avaliador –, no fundo o objetivo é o mesmo: reafirmar o conjunto de valores que norteiam a avaliação. O pressuposto é o de que existe um consenso não apenas sobre o “conteúdo” avaliado, mas principalmente sobre a conduta “adequada” em relação a tal conteúdo: interesse, dedicação, esforço, complacência e não-escolha (a única escolha permitida já foi previamente escolhida).</p>
<p>Não bastaria, portanto, simplesmente avaliarmos tal conduta como substituição da diversidade pela homogeneidade, como discurso da “pluralidade” imposto pela ditadura da maioria, como critério de inclusão/exclusão baseado na (re)produção e apropriação de bens e vontades alheias. Tudo isso ainda separaria as vítimas dos carrascos, como se houvesse critério suficiente para tanto.</p>
<p>O que bastaria é começar e continuar <i>questionando</i> (o que implica continuar duvidando de) <i>quais valores são estes</i> (sobretudo nos mesmos ambientes em que são veiculados/recalcados) que sustentam nosso ideal de uma sociedade pacífica e justa, fundada numa prática cidadã e democrática que enaltece a ascensão social pelo trabalho e pelo estudo. <em>[o vídeo abaixo já é um ponto de partida]</em></p>
<p><img class="alignright  wp-image-6749" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tightrope.jpg?w=191&#038;h=281" width="191" height="281" />Não se trata de questionar diretamente a sociedade; acima de tudo, trata-se de um exercício de resistência e de reconstrução de <i>si mesmo</i> sem o qual permanecemos no papel de figurantes (“competidores”) e nunca no de agenciadores (autores de si) sociais.</p>
<p>No âmbito específico do design, desconfio que o valor da avaliação (no ensino e no mercado) resida numa mediação através da qual o designer possa <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2011/11/12/submarinos-ocupacoes-e-mudancas/" target="_blank">subverter valores</a> que <i>nele</i> subsistem. Nesse sentido, o objetivo do professor seria o de conseguir deixar de ser professor em relação a cada aluno: qualquer escolha é válida se não houver valores prévios, de modo que a avaliação só se torna possível a partir do momento em que cada um se questionar, por conta própria, sobre quais valores estão em jogo na avaliação. No fim das contas, pois, a avaliação ainda existiria, mas somente na medida em que ela mesma é desconstruída.</p>
<p>Claro que é inconcebível tanto na sala de aula quanto na agência/escritório – disso eu não consigo duvidar. Mas já experimentei e continuo experimentando tal potencialidade pelos “corredores”, onde muitos valores se cruzam e se confundem. Nada ali é didático, <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2012/12/25/centro-circunferencia/">todo ruído acontece pela primeira vez</a>. Não há mestre nem aprendiz, apenas amadores que não se levam tanto a sério e, justamente por isso, permanecem tão lúcidos e inquietos.</p>
<span class='embed-youtube' style='text-align:center; display: block;'><iframe class='youtube-player' type='text/html' width='630' height='385' src='http://www.youtube.com/embed/GIus7lm_ZK0?version=3&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;wmode=transparent' frameborder='0'></iframe></span>
<p style="text-align:center;"><em>Deleuze&#8217;s Postscript on the Societies of Control</em></p>
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		<title>Livro &#8220;Existe Design? Indagações filosóficas em três vozes&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 07 May 2013 17:00:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Beccari</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Três vozes, quatro perguntas, doze ensaios que propõem horizontes de respostas. É através deste formato que os autores deste livro nos convidam a refletir filosoficamente sobre o design. Em meio aos ensaios, a um só tempo densos e saborosos, vemos surgir três perspectivas complementares do design. São diferentes formas de encarar sua existência, suas diversas [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6706&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.2ab.com.br/existe-design-indagacoes-filosoficas-em-tres-vozes-p1454/" target="_blank"><img class="alignleft  wp-image-6708" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/capa_existe_design.jpg?w=227&#038;h=337" width="227" height="337" /></a></p>
<blockquote><p>Três vozes, quatro perguntas, doze ensaios que propõem horizontes de respostas. É através deste formato que os autores deste livro nos convidam a refletir filosoficamente sobre o design. Em meio aos ensaios, a um só tempo densos e saborosos, vemos surgir três perspectivas complementares do design. São diferentes formas de encarar sua existência, suas diversas utilidades e inutilidades, suas dimensões morais e estéticas, seus percursos históricos e teóricos, suas características e potências específicas. Um livro para designers intelectualmente inquietos e para amantes do pensamento interessados em design.<br />
[texto da 4ª capa do livro]</p></blockquote>
<p><em><strong>Texto de divulgação:</strong></em> Existe design? Esta é a pergunta que intitula o novo livro da <a href="http://www.2ab.com.br/" target="_blank">editora 2ab</a>, publicação inaugural da série Filosofia do Design. Pode ser que a pergunta pareça tola – e talvez seja, até mesmo tolice pura. Por sorte, há quem não se detenha frente a perguntas assim. Afinal, são justamente estas que não admitem respostas prontas e chacoalham a poeira do senso comum. É este o objetivo do livro &#8220;Existe design?: indagações filosóficas em três vozes&#8221;. Trata-se de um livro escrito especialmente para o leitor que não foge das perguntas tolas. <span id="more-6706"></span></p>
<p>A obra é dividida em quatro perguntas: Existe design? Design é útil? Design é bom? Afinal, o que é design? Através de ensaios, cada uma delas é respondida pelos três autores: Ivan Mizanzuk, Daniel B. Portugal e Marcos Beccari. Mobilizando referenciais da filosofia e das ciências humanas, o que eles oferecem, na forma disfarçada de respostas, são, na verdade, doze boas chacoalhadas mentais, que não deixarão intactas suas formas de pensar sobre o design.</p>
<p><em><strong><img class="alignright" alt="" src="http://media-cache-ak1.pinimg.com/550x/ec/b9/4f/ecb94fcbacb1241c184884e7ee32c7f4.jpg" width="210" height="308" />Testemunho pessoal:</strong></em> Acho muito irônico o fato de Platão ter escrito filosofia na forma de diálogos. Sócrates, um de seus principais personagens, desconstrói o conhecimento que seus interlocutores presumem ter. Nos demais diálogos, há sempre um protagonista falando (sozinho), enquanto seu interlocutor se limita a exclamações do tipo “é isso mesmo!”, “por Zeus, você tem razão!” etc. Ou seja, em momento algum ocorre uma troca simétrica de argumentos, o “diálogo” é apenas elusivo.</p>
<p>Gilles Deleuze, por outro lado, era conhecido por sua aversão ao debate. Ele fugia toda vez que alguém lhe dizia “vamos discutir um pouco mais sobre isso”. Essa atitude, a meu ver, é exatamente a mesma da de Platão, com a diferença de que Deleuze era mais sincero.</p>
<p>Eis uma premissa básica para aqueles que procuram estudar filosofia: todos os grandes diálogos que a história da filosofia remonta são, na verdade, grandes mal-entendidos. Aristóteles entendeu mal Platão, Tomás de Aquino entendeu mal Aristóteles, Hegel entendeu mal Kant e Schelling, Marx entendeu mal Hegel, Heidegger entendeu mal Husserl e toda a filosofia analítica surgiu da leitura equivocada do primeiro Wittgenstein.</p>
<p>Acontece que se trata de uma leitura errônea <i>produtiva</i>, de onde surgem as verdadeiras influências. É aquilo que permite o acaso de alguém não compreender o que eu digo e, justamente por isso, me fazer entender melhor o que eu queria dizer. Não se trata de um diálogo, trata-se de um encontro. Diálogos são corriqueiros, encontros são raros – ele não é feito de trocas, mas do “eco” dos outros em nossos momentos mais solitários.</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6714" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/deleuze_smoking.jpg?w=164&#038;h=266" width="164" height="266" /></p>
<blockquote><p>Encontrar é descobrir, capturar, roubar. Mas não há método para descobrir, apenas uma longa preparação. Roubar é o contrário de plagiar, de copiar, de imitar ou de fazer como. A captura é sempre uma dupla-captura, o roubo, um duplo-roubo. É assim que se cria, não algo de mútuo, mas um bloco assimétrico, uma evolução a-paralela, núpcias, sempre <i>fora</i> e <i>entre</i>. Uma conversa [e não um diálogo] seria precisamente isso. – Gilles Deleuze, em Diálogos (Lisboa: Relógio D’Água, 2004, p. 17).</p></blockquote>
<p>Quero crer que o livro “Existe design?” resulta de um encontro, não de um diálogo. Nenhum autor julgou e interferiu no texto do outro, cada um tratou daquilo que lhe diz respeito e, com base numa mesma pergunta, um encontro se encaminhava. A ideia de cada texto já não pertencia a nenhum de nós, mas acontecia “entre” nós.</p>
<p>A influência tornava-se confluência: quando reli o livro, na etapa de revisão, muitas ideias apanhavam-se desprevenido, ideias que não estão no texto, mas que vieram de algum lugar que nunca esteve ali. Foi para mim uma oportunidade única de, ao invés de trabalhar em “conjunto”, descobrir estranhas combinações entre nós, os autores. Não se trata nem de reunião nem de justaposição de ideias, mas de algo que se <em>esgueira</em> entre os textos, tentando se proliferar.</p>
<p>Lembro-me das aulas que eu dava naquela época (ano passado) e do quanto alguns alunos se se orgulhavam de terem finalmente entendido o que eu dizia. A verdade é que não havia nada para entender. Eu só queria que eles entendessem, o que quer que seja, <i>por conta própria</i>. Quando eu era aluno, isso era o que havia de mais libertador para mim: entender as coisas “do meu jeito”.</p>
<p><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/divulgac3a7c3a3o_livroexistedesign.jpg" target="_blank"><img class="alignright  wp-image-6707" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/divulgac3a7c3a3o_livroexistedesign.jpg?w=239&#038;h=337" width="239" height="337" /></a>Tentei escrever o “existe design?” sempre pensando nesses momentos mágicos de liberdade (ilusória?) e na esperança daqueles poucos alunos que ainda não se frustraram com uma <i>indubitável</i> existência do design. Por outro lado, é preciso admitir, estou plenamente ciente de que o <i>teor</i> paradoxal e inconclusivo de meus textos vai mais incomodar do que agradar.</p>
<p>Não apenas estudantes, pesquisadores e professores de design, mas sobretudo os possíveis <i>filósofos</i> (historiadores da filosofia) que porventura leiam o livro. Para esses últimos, digo apenas que a maior parte da “Filosofia Contemporânea” tem sido produzida, já há algum tempo, mais nos departamentos de Literatura Comparada, Estudos Culturais, Comunicação etc. do que nos departamentos de filosofia propriamente.</p>
<p>Para os designers, convém esclarecer a pergunta (ao menos o modo como eu a coloco) sobre a existência do design: e se “design” não for algo que existe como pensamos que ele exista? E se tudo que NÃO é design for justamente aquilo que gera uma ilusão de “design” ao negar essa mesma ilusão? E se, no design, não apenas a exceção for a regra, mas na verdade o design surgir lá onde suas regras não regulam a si mesmas? E se o espaço “prático” do design estiver nessas lacunas e fendas teóricas, abertas por deslocamentos de sentido em questionamentos filosóficos?</p>
<p>Não penso que uma Filosofia do Design possa preencher essas lacunas filosóficas. Ao contrário, penso que ela deveria produzir outras fendas, rupturas e inconsistências para que possa atuar efetivamente de forma filosófica no design. “Existe design?”, portanto, não é apenas uma pergunta sem sentido, inadequada ou despropositada. É uma tentativa de abrir uma fenda radical no universo de sentido que atualmente abrange a ideia de “design”. Essa fenda, por certo, não está visível no texto. É uma fenda que somente aparece no encontro de uma leitura solitária.</p>
<span class='embed-youtube' style='text-align:center; display: block;'><iframe class='youtube-player' type='text/html' width='630' height='385' src='http://www.youtube.com/embed/qtiOj6brKCA?version=3&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;wmode=transparent' frameborder='0'></iframe></span>
<p style="text-align:center;"><em>Trailer do livro &#8220;Existe Design?&#8221; (2ab, 2013) | edição de Ivan Mizanzuk e Vinícius Franco | trilha de Felipe Ayres</em></p>
<p><strong>Adquira seu exemplar pelo <a href="http://www.2ab.com.br/existe-design-indagacoes-filosoficas-em-tres-vozes-p1454/" target="_blank">site da editora 2ab</a></strong>. Confira as divulgações feitas no <a href="http://www.brainstorm9.com.br/36511/anticast/livro-existe-design-busca-aproximar-o-dialogo-entre-design-e-filosofia/" target="_blank">Brainstorm9</a>, na <a href="http://www.revistaleaf.com.br/livro-existe-design/14070/" target="_blank">revista Leaf</a> e na <a href="http://abcdesign.com.br/por-assunto/tendencias/existe-design/" target="_blank">abcDesign</a>. Abaixo, escute o bate-papo no AntiCast com os autores do livro:</p>
<iframe width="100%" height="166" scrolling="no" frameborder="no" src="http://w.soundcloud.com/player?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F90397766"></iframe>
<br />Filed under: <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/category/ensaios/'>ensaios</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/category/ensaios/filosofia-do-design/'>filosofia do design</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/category/outros/'>outros</a> Tagged: <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/tag/dialogos/'>diálogos</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/tag/editora-2ab/'>editora 2AB</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/tag/encontros/'>encontros</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/tag/existe-design/'>existe design?</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/tag/indagacoes/'>indagações</a>, <a href='http://filosofiadodesign.wordpress.com/tag/livros-de-design/'>livros de design</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/filosofiadodesign.wordpress.com/6706/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6706&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Tragam suas machadinhas: vamos falar sobre cultura</title>
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		<pubDate>Mon, 06 May 2013 13:30:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bolívar Escobar</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>
		<category><![CDATA[crítica em design]]></category>
		<category><![CDATA[estética]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[fui preso por soltar balão]]></category>
		<category><![CDATA[Salada de batata]]></category>

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		<description><![CDATA[Poderia ser o enredo de algum conto surreal de H. P. Lovecraft: em plena tarde de domingo, Regina Casé e Preta Gil aparecem juntas em um mesmo palco comandando Caetano Veloso em um programa musical no qual celebridades da Globo dançam e fazem festa. Poderia ser, mas na verdade trata-se de uma “impressão digital” &#8211; [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6701&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_6717" class="wp-caption alignleft" style="width: 255px"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/regina-case.jpg"><img class=" wp-image-6717   " alt="Foto extraída do portal R7" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/regina-case.jpg?w=245&#038;h=211" width="245" height="211" /></a><p class="wp-caption-text">Foto extraída do portal R7</p></div>
<p dir="ltr">Poderia ser o enredo de algum conto surreal de H. P. Lovecraft: em plena tarde de domingo, Regina Casé e Preta Gil aparecem juntas em um mesmo palco comandando Caetano Veloso em um programa musical no qual celebridades da Globo dançam e fazem festa. Poderia ser, mas na verdade trata-se de uma “impressão digital” &#8211; segundo o próprio programa e sua apresentadora, da cultura brasileira em um drops semanal de um pouco mais de uma hora. Não faz muito tempo que Regina Casé foi eleita como uma espécie de porta-voz da cultura do nosso país em todos os papéis que vem desempenhando nos programas da televisão. Talvez tenhamos outros porta-vozes menos populares, mas com certeza nenhum tão entusiástico e aparentemente engajado em demonstrar essa cultura toda.</p>
<p dir="ltr">Tal fato, claro, agrada a muitos, e desagrada a outros tantos. O questionamento acaba surgindo: fazemos realmente parte dessa cultura sendo demonstrada ou estamos nos portando como um observador externo de um fenômeno que não representa &#8211; ou ao menos desejaríamos que não representasse &#8211; a nós mesmos?<span id="more-6701"></span></p>
<p dir="ltr">Parece ter sido essa a linha de raciocínio seguida pelo escritor peruano, Nobel da literatura e setentão Mario Vargas Llosa em sua próxima obra (a ser lançada no Brasil): “A Civilização do Espetáculo”. Debord manda um abraço? A premissa do livro-ensaio é traduzível a partir da ideia de que vivemos em uma época (segundo Llosa, pela primeira vez na história da humanidade) na qual ocorre uma banalização e trivialização da vida cultural.</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6718" alt="Mario Vargas Llosa" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/mario-vargas-llosa.jpg?w=202&#038;h=310" width="202" height="310" />Vargas Llosa ataca o fato de estarmos aparentemente “nivelando a cultura por baixo” ao adicionar qualquer forma de entretenimento de um povo ao seu patrimônio cultural &#8211; patrimônio este que, por sua vez, deveria se restringir só e somente à uma pequena elite intelectual (ou financeira, não se sabe) que nutriria verdadeiro interesse pela cultura, e não um “esnobismo superficial”. Está nervoso, o velhinho.</p>
<p>Outros assuntos como religião, arte e 50 Tons de Cinza são jogados à baila <a href="http://revistacult.uol.com.br/home/2013/03/vargas-llosa-ataca-outra-vez/" target="_blank">nesta entrevista</a> que deu sobre o tal livro. Enquanto a obra não chega até nós, podemos tentar esmiuçar as palavras que Llosa deu à Revista Cult e extrair das entrelinhas os possíveis pontos de debate que possam interessar aos designers e aos amigos dos designers.</p>
<p>Antes de mais nada, considerem o discurso de Llosa como o de alguém que está militando pelos interesses da direita conservadora já há algum tempo (jura?). Fruto da sua desilusão com as políticas implantadas pós-revolução cubana por Castro, Llosa migrou da esquerda que ajudou a construir na América Latina para uma defesa árdua do neoliberalismo e das liberdades individuais. E hoje, pelo teor de seus escritos, encontra-se em uma posição nostálgica em busca de um tempo na qual a cultura se restringia aos poucos que a mereciam.</p>
<p>Sem querer, Llosa parece enclausurar o conceito de “cultura” em um paradigma Orweliano pouco atraente para quem não faz parte dessa tal elite, mas que gostaria, de alguma forma, de contribuir para a própria cultura na qual encontra-se inserido desde seu nascimento.</p>
<p dir="ltr">Vou propor um exercício (gosto muito dessa frase, “vou propor um exercício”, porque ela parece disfarçar bem uma clara intenção de plantar uma ideia na cabeça de quem está lendo. E olha que eu não tenho em mãos a verba do Christopher Nolan pra isso): a partir de agora, quando falamos a palavra “cultura”, ela deve levar um “s” no fim e ser pronunciada sempre no plural. Portanto, tragam as suas machadinhas, vamos falar sobre culturas.</p>
<p dir="ltr">Quando evocamos tal assunto, a primeira premissa religiosa que devemos seguir é que sempre há mais de uma cultura em jogo. Llosa ataca a cultura como um todo, mas ele mesmo vem de uma cultura que “atravessa” seu corpo como um canal de comunicação. O esquema é mais ou menos esse:</p>
<p dir="ltr"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/1-01.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6720" alt="1-01" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/1-01.jpg?w=630"   /></a></p>
<p dir="ltr">O motivo dessa primeira regra é simples: a existência dessa “cultura própria” é inerente ao indivíduo a partir do momento que ele começa a produzi-la por estar em contato com outros seres humanos. É a velha história do menino que cresceu na floresta longe de qualquer sinal da civilização sem nunca ter visto algum outro ser humano. Ele sabe que é um homem? Nós sabemos, as vezes nos sentimos culpados por isso, inclusive. é a regra que justifica o sentimento de não pertencer a uma cultura mesmo estando inserido nela, de certa forma.</p>
<p dir="ltr">No exemplo do texto citado, Llosa afirma que a cultura está “englobando” toda a forma de entretenimento e virando uma sopa desgraçada da qual ele não quer mais tomar. Ou seja, mais ou menos isso:</p>
<p dir="ltr"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/2-02.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6721" alt="2-02" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/2-02.jpg?w=630"   /></a></p>
<p dir="ltr">O que, no nosso jogo de tronos, vira isso:</p>
<p dir="ltr"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/3-03.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-6722" alt="3-03" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/3-03.jpg?w=630"   /></a></p>
<p dir="ltr">Desmembremos esse esquema. Ao invés de tentarmos “definir” o que é cultura, vamos tentar apenas estudar a forma como nos comportamos em relação aos elementos que ela provavelmente englobaria em suas definições: arte, religião, esporte, entretenimento, ética, culinária, whatever. O grande problema que surge é imaginar a cultura como uma espécie de cerne mágico que enclausura em si as características básicas que definem o caráter de uma sociedade. Isso seria tratar a cultura como como o miolo do pão e querer negar que a casca exista. É exatamente o que Llosa faz. O motivo para isso? Talvez ele lute pelo resgate de uma identidade única e soberana do próprio país jamais maculada pelo que o país vem se tornando com o passar do tempo. Isso é interessante se você quiser se aprofundar mais, pois irá descobrir que o cerne em questão só existe em um mundo idealista no qual é possível descobrir uma identidade primária e de sangue azul que detém a verdadeira alma do povo. Quem sabe esse país, na verdade, poderia ter vários desses núcleos &#8211; ou ser vários países ao mesmo tempo, concordam?</p>
<p dir="ltr">Por isso, a segunda regra desse nosso exercício é: as culturas sobre as quais falamos agora não são as mesmas de cinco minutos atrás. Uma questão levantada durante uma conversa com amigos ilustra bem isso: <a href="http://sacosdepao.tumblr.com/" target="_blank">um tumblr cheio sacos de padaria escaneados</a> pode ser considerado arte?</p>
<p dir="ltr">Para o desespero da bancada conservadora, ele pode sim. O tumblr em questão pode ser culturalmente aceito porque se tornou um objeto “fagocitado” pela organicidade das culturas em questão. Não mais se portando como um cerne imutável, as culturas tendem a crescer englobando aspectos que antes não existiam ou não eram conhecidos. Isso é tão óbvio quanto perceber que estou usando a internet para te contar isso.</p>
<p dir="ltr">Enfim, vamos à Boss Battle do nosso jogo:</p>
<p dir="ltr"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/logo-copa-20141.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-6723" alt="logo-copa-20141" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/logo-copa-20141.jpg?w=300&#038;h=213" width="300" height="213" /></a></p>
<p dir="ltr">Quando metemos a profissão do designer na rodinha punk da cultura, deparamo-nos com algumas questões que geram polêmica: o design não é reconhecido, o design não é bem remunerado, minha avó não sabe o que é design. Tudo isso faz parte de um processo cultural que está fagocitando aos poucos a noção de que há algo chamado “design” e de que existem pessoas trabalhando sério nisso. Se um autor com as mesmas ideias de Llosa tivesse publicado um livro a, vamos supor, setenta anos atrás, o design seria sequer considerado como patrimônio cultural (ou qualquer coisa do gênero)?</p>
<p dir="ltr">Se a forma como a cultura se relaciona com o design é essa, como podemos descrever a situação inversa: a forma como o design vê a cultura? Logo que a identidade visual da copa de 2014 saiu, <a href="http://logodacopa2014.tumblr.com/" target="_blank">o alvoroço foi notável</a>. Escolhida por <a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/765284-gisele-bundchen-diz-como-foi-escolher-o-logotipo-da-copa-de-2014.shtml" target="_blank">uma seleta equipe de especialistas</a>, nossa identidade visual foi pouco ou nada aceita pela vasta comunidade de designers, o que inclusive chegou a gerar na época alguns <a href="http://www.assuntoscriativos.com.br/2010/07/concurso-novo-logo-da-copa-2014.html" target="_blank">concursos para voluntários criarem uma solução melhor</a> e não ficarem apenas apontando o dedo (eu até dei meu voto para <a href="http://img823.imageshack.us/img823/162/copa2014n.jpg" target="_blank">uma delas</a>, feita por um amigo).</p>
<p>A lição que se tira desse episódio todo é que, por mais que a logo tenha sido feita com o intuito de refletir uma parcela da nossa cultura, tal parcela, por algum motivo, não representa aqueles que poderiam melhor representá-la. Paradoxal, mas o cenário que temos é o de que, se a cultura brasileira parece estar sofrendo para englobar o design, a cultura dos designers tal e qual sofre para englobar o que o Brasil é, culturalmente falando. É um processo recíproco que mais parece um jogo de cabo de guerra do que uma rodinha de massagem. Se a logo de 2014 foi uma falha, vamos usar o exemplo de Llosa para tentarmos não repetir o seu pensamento excludente, mas sim para tentar surgir com algo novo e mais bonito. Afinal, <a href="http://www.rio2016.com/" target="_blank">nem tudo está perdido&#8230;</a></p>
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			<media:title type="html">bolivarescobar</media:title>
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			<media:title type="html">Foto extraída do portal R7</media:title>
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			<media:title type="html">Mario Vargas Llosa</media:title>
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		<title>terminologias e sotaques</title>
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		<pubDate>Thu, 02 May 2013 19:36:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcio Rocha Pereira</dc:creator>
				<category><![CDATA[estética]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia do design]]></category>
		<category><![CDATA[imagem]]></category>
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		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
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		<category><![CDATA[repertório]]></category>
		<category><![CDATA[semiótica]]></category>
		<category><![CDATA[terminologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Frente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6687&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" alt="menininha lendo Foucault" src="http://farm3.static.flickr.com/2258/1996701522_c78cc73c0d.jpg?v=0" width="320" height="281" />Frente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o <span style="text-decoration:underline;">Flores do Mal</span>, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em <span style="text-decoration:underline;">Tudo o que é sólido desmancha no ar</span>) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.</p>
<p>Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.</p>
<p>Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa.<span id="more-6687"></span><!--more--></p>
<p><a href="http://www.alexanderkorzerrobinson.co.uk/"><img class="alignright" alt="Alexander Korzer-Robinson" src="http://xaxor.com/images/Alexander-Korzer-Robinson/Alexander-Korzer-Robinson13.jpg" width="321" height="399" /></a>Digamos que por exemplo o Nash do filme <span style="text-decoration:underline;">Uma Mente Brilhante</span> resolvesse aplicar técnicas criptográficas sobre o Flores do Mal, e descobrisse a data da Revolução Francesa, isso seria estranho e faria pouco sentido, mas não seria errado, e certamente seria mais uma camada desse texto.</p>
<p>E «texto» não precisa se resumir a um amontoado de letras. Podemos chamar de texto, e assim reutilizar essas análises, a qualquer conjunto de elementos interpretáveis, inclusive alguns que não foram feitos com o intuito de <i>se dar à</i> interpretação. (Ao fazer isso, estou me prendendo mais à poesia das palavras do que à terminologia clássica das ciências da linguagem. É claro, toda ciência é, inicialmente, poesia, ato criativo. Também a semiótica. O desafeto que designers normalmente nutrem em relação à semiótica, de que ela tenderia a matar a poesia, nada mais é do que efeito colateral de um outro ato criativo, o ato de resumir. O resumo é importante para transformar uma ciência múltipla em manuais eficientes, mas imaginar que a semiótica pudesse aparecer do nada como um conjunto de regras é história para boi dormir, afora cometer exatamente o crime que acusa, ao tomar essa ciência como lei e não como fluxo. A semiótica é criativa, desde a origem, tanto que um texto farofeiro como esse pode ser um argumento semiótico perfeitamente válido, cuja leitura pela estratégica semiótica seria particularmente proveitosa.)</p>
<p>Da perspectiva do produtor de textos, que é praticamente o ponto de vista oposto, espelhado, existem formas de antecipar a leitura, e logo de sugerir ou controlar a forma de ler. Essas estratégias expressivas não são apenas regras de gramática, mas antes um arsenal de atos de expressão, conjuntos de técnicas e artimanhas que podem expandir nossa capacidade de exprimir. Não é puro falar, mas como que andaimes para a fala, como terminologias (por exemplo a da Ciência) que facilitam o pensar, que o tornam mais preciso e menos custoso. Através dessas estratégias expressivas dizemos coisas mais importantes e mais complexas do que poderíamos dizer com nossa linguagem do cotidiano.</p>
<div id="attachment_6689" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/285622_10151250289632581_229701487_n.jpg"><img class="size-medium wp-image-6689" alt="Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/285622_10151250289632581_229701487_n.jpg?w=300&#038;h=172" width="300" height="172" /></a><p class="wp-caption-text"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/859951_10151248652862581_434726610_o.jpg"><img class="size-medium wp-image-6690" alt="Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/859951_10151248652862581_434726610_o.jpg?w=300&#038;h=199" width="300" height="199" /></a> Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona</p></div>
<p>A ideia de estratégia é importante justamente porque nos mostra que não há respostas prontas, não há conceitos simples e fechados que apenas precisam ser transmitidos, mas sim campos de interpretação que podem ser explorados de incontáveis formas. Um exército pequeno pode vencer um grande se atacar de forma inesperada. Da mesma forma, alguns versos do <span style="text-decoration:underline;">Flores</span> podem com algumas poucas letras me levar a reviver meus amores e amargores de formas que eu não tinha concebido antes, que eu nem mesmo teria capacidade de conceber. Uma mensagem pode ser extremamente poderosa mesmo em volume baixo. As regras da linguagem podem ser quebradas de forma criativa, sempre.</p>
<p>Quando o ato expressivo desafia as fronteiras da linguagem ele está quase chegando ao silêncio significativo (segundo a terminologia de Flusser no <span style="text-decoration:underline;">Língua e Realidade</span>, silêncio significativo é um dos extremos da língua, quando ela se torna tão significativa que praticamente se iguala à experiência vivida ou à transcendência dessa experiência). Essa comunicação é não-banal, é extra-cotidiana. Se aproxima do orar, mais comunhão do que interpretação.</p>
<p>O problema é que no nível do silêncio significativo tudo é simplesmente amor, e qualquer fala se torna repetição “amor, amor, amor, amor, amor, amor”, e logo não há comunicação, não há obra, não há arte. E portanto o ato expressivo cai para o silêncio não-significativo (segundo Flusser, é a língua decaindo em balbuciar, tornando-se tão fácil ou banal que acaba não significando nada que já não se saiba, e portanto não sendo mais do que ruído, que é parte do mundo e portanto parte dessa mesma experiência vivida, mas agora como que chegando ao limite oposto da língua).</p>
<div class="wp-caption alignright" style="width: 368px"><img alt="" src="http://farm9.staticflickr.com/8049/8133335339_7e19b6fa12_z.jpg" width="358" height="239" /><p class="wp-caption-text">&#8220;Flying books&#8221;, de Boltanski</p></div>
<p>Justamente por tentarmos não ser banais nos tornamos banais. Vida dura. Nossa vontade de expressar se bate contra uma essência fundamentalmente inexpressável das melhores partes da cultura. O próprio desenvolvimento do design faz com que o design se aproxime de coisas que são impossíveis para o design: Expressar a verdadeira identidade da empresa com uma logo é no fundo uma bobagem, mas uma bobagem que surge justamente porque nos concentramos em objetivos possíveis como tornar aquela marca reconhecível e reproduzível e única. Nosso foco na liberdade nos leva àquilo que é incomensurável na vida.</p>
<p>É exatamente por isso que é sensato manter o nosso foco no nível da terminologia, da estratégia de expressão. Essa busca muitas vezes vai pelo nome de “pesquisa de linguagem” ou coisas semelhantes. Nesse nível podemos buscar o frágil equilíbrio entre fugir dos lugares comuns e ser compreensível. Aqui se revela e se resolve um sutil paradoxo da linguagem: Só posso entender as palavras que já conheço, mas só me interessa ouvir coisas que ainda não sei. A linguagem seria impossível, e só não o é porque aquela quebra criativa das regras está (insuspeita) presente desde antes das próprias regras. No nível das estratégias expressivas, abrir a mensagem para interpretações múltiplas não é um “tirar o cú da reta”, uma recusa da nossa responsabilidade de falante, mas sim uma contribuição à compreensão alheia. É fazer parte do pensar do outro e ao mesmo tempo não tentar convencer ninguém de nada.</p>
<p>É claro, justamente esse foco nas estratégias de linguagem nos leva a tentar facilitar a interpretação, nos prender a uma estrutura compreensível e previsível. Transformamos nossa terminologia (arsenal de conceitos) em um jargão (exclusividade de conceitos). A busca de linguagem se deteriora na inevitabilidade de um sotaque. O que antes era busca de uma energia do desenho passa a ser um estilo que reproduzimos mesmo quando estamos tentando fugir dele, justamente porque é um estilo que nos parece básico ou natural, nem sequer o vemos mais como um estilo. Não é que existam formas certas e erradas de “desenvolver linguagem”, mas que a tensão banal/sagrado está no cerne da linguagem.</p>
<div id="attachment_6688" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/32567_402527157580_3346499_n.jpg"><img class="size-medium wp-image-6688 " alt="Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/32567_402527157580_3346499_n.jpg?w=300&#038;h=200" width="300" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">GRAFO, de Joana Corona</p></div>
<p>No caso da dança essa tendência é ainda mais evidente. A expressão corporal é uma das menos codificadas, ou pelo menos uma forma de expressão que é particularmente difícil de traduzir em palavras. Quando alguém começa a produzir coreografia, não tem o hábito de dizer com o corpo coisas compreensíveis e previsíveis, e por isso é igualmente difícil falar do banal e do sagrado. Conforme ele se acostuma com o meio, vai ficando cada vez mais fácil se expressar, mas essa facilidade vem apenas para o banal, porque o extra-banal é difícil em si, essencialmente.</p>
<p>O primeiro espetáculo que vi da Quasar Cia. De Dança foi <span style="text-decoration:underline;">Versus</span> (de 1994), e me provocou um encantamento íntimo e pessoal inenarrável. Mas <span style="text-decoration:underline;">Divíduo</span> (de 1998) não me conquistava tanto, apesar de ser superior em qualquer quesito mensurável. Já o <span style="text-decoration:underline;">Céu na Boca</span> (de 2010), como o velho que depois de muito reaprende a ser criança, de novo me toca profundamente, sem abrir mão da técnica e nem da consciência dessa técnica.</p>
<p>O caso Tarantino: <span style="text-decoration:underline;">Cães de Aluguél</span> é selvagemente talentoso, <span style="text-decoration:underline;">Pulp Fiction</span> quase perfeito, <span style="text-decoration:underline;">Kill Bill</span> se perde na técnica. Há quem diga que <span style="text-decoration:underline;">Inglorious Bastards</span> seja sua redenção, mas eu não estou convencido.</p>
<p>Aprender a falar pode ser aprender a falar demais. Tocar bem pode ser tocar bem demais. Desenvolver linguagem é arriscar virtuosismo. Mas claro que não aprender não é a solução. Talvez a única saída seja essa malicia de velho, de já ter se perdido e voltado. Ou talvez exista uma meta-estratégia.</p>
<p><img class="alignright" alt="Jetfire lendo sabe-se lá o quê" src="http://farm4.static.flickr.com/3539/3545174451_95b7ac2e43_b.jpg" width="368" height="277" />Por isso me encanta a figura de Baudellaire, que em vez de fazer um manifesto dos seus valores artísticos (que ele chamava de Modernismo, muito embora seja uma ode ao caos e à idiossincrasia do momento muito diferente da nossa releitura histórica que diz que Modernismo devia ser algo sisudo e cheio de regras), prefere incorporar esse modo de viver e de produzir arte num personagem em <span style="text-decoration:underline;">Pintor da Vida Moderna</span> – personagem esse curiosamente baseado numa pessoa real que rejeitou depois todo o ideal que Baudellaire jogava em sua pseudo-imagem. A última obra baudellairiana, o <span style="text-decoration:underline;">Spleen de Paris</span>, que levava por subtítulo Pequenos Poemas em Prosa, me parece incorporar exatamente essa ciência da estratégia de expressão, com palavras que se assumem extremamente trabalhadas, mas ao mesmo tempo fazem o possível para desconstruir esse trabalho e essa estrutura – embora talvez agora seja eu criando um personagem em cima de um artista que não tem nada a ver com tudo isso.</p>
<p>De qualquer forma, mesmo que a linguagem possa melhorar a vida, ela não a torna mole. Ela só facilita o que não é importante. Transcendência não é fácil por definição, e qualquer coisa que a torna fácil também a diminui.</p>
<span class='embed-youtube' style='text-align:center; display: block;'><iframe class='youtube-player' type='text/html' width='630' height='385' src='http://www.youtube.com/embed/h090fjzI-o0?version=3&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;wmode=transparent' frameborder='0'></iframe></span>
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			<media:title type="html">lessertruth</media:title>
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			<media:title type="html">menininha lendo Foucault</media:title>
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			<media:title type="html">Alexander Korzer-Robinson</media:title>
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			<media:title type="html">Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona</media:title>
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			<media:title type="html">Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona</media:title>
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			<media:title type="html">Biblioteca de Resquícios, de Joana Corona</media:title>
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			<media:title type="html">Jetfire lendo sabe-se lá o quê</media:title>
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		<title>O aftermath da tabela</title>
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		<pubDate>Wed, 01 May 2013 20:15:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Souza</dc:creator>
				<category><![CDATA[ética e moral]]></category>
		<category><![CDATA[crítica em design]]></category>
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		<description><![CDATA[”No reino do kitsch totalitário, as respostas são dadas de antemão e excluem qualquer pergunta nova. Daí decorre que o verdadeiro adversário do kitsch totalitário é o homem que interroga. A pergunta é como a faca que rasga a cortina do cenário para que se possa ver o que está atrás.” Milan Kundera, em A [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6652&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>”No reino do kitsch totalitário, as respostas são dadas de antemão<br />
e excluem qualquer pergunta nova. Daí decorre que </em><em>o verdadeiro<br />
adversário do kitsch totalitário é o homem que interroga. A pergunta é como<br />
a faca que rasga a cortina do cenário para que se possa ver o que está atrás.”</em><br />
Milan Kundera, em <em>A insustentável leveza do ser</em></p>
<p>Se você faz parte do campo “criativo” do “mercado”, com certeza você acompanhou a polêmica da tabela de preços semana passada – ou foi retrasada?. Depois da <a href="//youtu.be/yiE_dZfLi7Y”">mariola da peteca</a>, gostaria de tentar fazer alguma contribuição na transcendentalização da tabela para tentar discutir sobre algo mais produtivo. Claro que outras críticas já foram empreendidas por pessoas <a href="//www.youtube.com/watch?v=MEyy3JlFQm0”">muito</a>, <a href="//acrasias.wordpress.com/2013/04/22/3/”">muito</a>, <a href="//filosofiadodesign.wordpress.com/2013/04/22/dilemas-do-design-v-corporativismo/”">muito</a>, mas <a href="//youtu.be/LApsBMXMjRA?t=35m49s”">muito</a> mais competentes do que eu. Mas vou tentar acrescentar alguma coisa.</p>
<p><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/aftermath.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-6658" alt="aftermath" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/aftermath.jpg?w=630&#038;h=258" width="630" height="258" /></a></p>
<p><span id="more-6652"></span></p>
<p>Eu, entretanto, sou jovem, inexperiente &#8212; quiçá burro; se houver algum fator que estou desconsiderando aqui, é por ignorância, não por parcialidade. Vou falar e criticar <strong>discursos, </strong>não o caráter ou conduta dos envolvidos; alguns dos que proferiram esses discursos são de minha enorme admiração, outros, nem tanto. Mas<strong> isso não é relevante</strong>. Assim como não é relevante quaisquer xingamentos que possam ser feitos. Se discordar e quiser chegar a algum lugar, por favor comente. Se discordar e for xingar, “o x do browser é serventia da casa” (<a href="//www.brainstorm9.com.br/anticast/”">ANTICAST</a>, 2013).</p>
<p>Vou confessar que vivi um dilema antes entrar nessa discussão: de um lado, achei um tanto assustador tudo o que estava acontecendo e queria fazer alguma coisa pra tentar mudar; tudo parecia uma briga de partidos, comícios facebookianos xingando o “opositor” – isso não leva a lugar nenhum. Do outro, com as críticas que eu tinha visto, eu queria preservar a minha dignidade e de minha querida mãe. Passado o furacão, acho que já não há perigo lá fora. Por favor, que eu não esteja errado.</p>
<p>O que mais me deixou intrigado em toda confusão foi o dualismo extremista com que grande parte das pessoas estavam encarando a discussão. Quase ninguém parecia se dar conta que havia todo um espectro de opiniões, posicionamentos e questões envolvidos; isso, antes de mais nada, demonstrava a imaturidade com que a discussão seria levada adiante. Extremismos que em muitos aspectos pareceram religiosos. Eu vi discursos messiânicos autoproclamados que me deixaram meio tenso de surgirem criativos-bomba. Também vi discursos de <em>bad parenting</em>, em que o “ouça minha experiência, eu sei de tudo” era bradado com um orgulho assustador.</p>
<p><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tumblr_ma2v9cw8ji1qim4lco1_500.jpg"><img class="alignright  wp-image-6659" alt="tumblr_ma2v9cw8ji1qim4lco1_500" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tumblr_ma2v9cw8ji1qim4lco1_500.jpg?w=270&#038;h=420" width="270" height="420" /></a>Que fique claro que eu não desvalorizo a experiência de todos esses profissionais, pois mesmo aqueles que não têm minha admiração ou respeito com certeza trabalharam para cacete pra chegar onde estão. Isso, de todo modo, não justifica seus discursos, nem suas consequências questionáveis. E, no fim, o irônico é que o único ponto comum entre todos é que a tabela não prestava.</p>
<p>E, embora eu não concorde com a mera existência da tabela, em sua própria introdução está declarado que foi um apanhado sem critério, não determinístico e, nem de longe, deveria ser o bater do martelo para todos os preços. E isso é repetido exaustivamente. Uma página inteira, só dizendo exatamente tudo isso que todos sabem e concordam. A tabela <b>nunca </b>foi dita o Santo Graal de como cobrar.</p>
<p>Portanto, eu acho que o problema ocorre quando os extremos entram em jogo: ou as pessoas aderem ou atacam com ferocidade a tabela. A ironia é que ambos fazem pelo mesmo motivo: não ter um filtro crítico.</p>
<p>Entendo – como Ancara que falou – que “referencial” pode ser interpretada de dois modos: como algo a ser atingido – que parece ser o caso dos que mais criticam –, mas também pode ser interpretada como “olha, num é isso não, mas pode ser que seja por aí”. Mas, de novo, isso é deixado claro no mesmíssmo pdf. Isso me deixou com duas suspeitas: ou nosso campo <em>realmente </em>só sabe ver figurinha e números grandes ou toda polêmica não só foi intencional, como tinha propósito e objetivo bem definidos.</p>
<p>Opa, então eu acho que a discussão não é a tabela, certo? Deve ter algo por trás.</p>
<p><strong><img class="alignleft" alt="" src="http://24.media.tumblr.com/e8e5c69a359a4ee033c39c6c9bb74a57/tumblr_mh91470lPT1rqy28qo1_400.gif" width="210" height="226" />O raio-x</strong></p>
<p>A primeira coisa que, em minha ignorância, gostaria que me explicassem é como o novo profissional freelancer vai se inserir no mercado. Eu ainda não vi nenhuma explicação completa o suficiente, mesmo no discurso coerentíssimo de Thaís Linhares no <a href="//www.brainstorm9.com.br/36541/anticast/anticast-urgente-3-resolvendo-a-polemica-da-tabela/”">Anticast Urgente #3</a>. Até onde eu entendo – e tenho vivido – a entrada é ter feito contatos em outros contextos: dentro de agências, faculdade, amigos e por aí vai. Mas imagine alguém que não teve essa oportunidade. Como se inserir no mercado?</p>
<div>
<p><em>(&#8230;) A profissão do designer não é diferente de qualquer outra, o valor dos trabalhos é definido por oferta e demanda. Assim sempre foi, e assim sempre será.</em></p>
<p><em>Assim sendo, é perfeitamente natural que um designer querendo procurar seu espaço no mercado entre cobrando baixo. Quem já está no mercado pode perder clientes com isso. É natural. E é compreensível que alguns se irritem com isso. Mas é natural. Porque o valor do designer entrando no mercado é mais baixo? Não necessariamente porque a qualidade é inferior. Ela pode ser, e ela pode não ser. O valor é mais baixo porque a demanda pelo serviço daquele designer é menor. Se a demanda aumentar, ele naturalmente aumentará o valor de seu serviço. A demanda não é infinita, e qualquer entrada de um novo designer no mercado fará com que o valor de equilíbrio se reduza. Em resumo: Quantos mais designers se formam e entram no mercado, mais baixo o valor do serviço tende a ser, independente da qualidade do mesmo, se a demanda pelos serviços ofertados não crescer.</em></p>
<p>Esse trecho foi uma reflexão muito lúcida de um amigo na lista lá da UFPE, Emiliano Abad. Depois, ele fala de como são complexas as interações de mercado, que vários profissionais entram e saem do meio o tempo todo e como o melhor deveria ser cobrar por hora de trabalho.</p>
<p>Enfim, o que é mais importante é o conceito de<em> oferta e demanda </em>e a isso eu ainda acrescentaria a <em>segmentação</em>. Eu entendo que nossa área é um pouco diferente, mas isso ainda se aplica. O preço é uma das componentes que definem segmentos: públicos, finalidades e contextos diferentes. Ignorar isso é fazer a mesma coisa que a tabela faz ao estabelecer preços. Além disso, fazer uma cotação de preços é algo normal. Toda vez antes de mandar rodar qualquer coisa, toda agência ou escritório faz uma cotação com várias gráficas. O mesmo rola nas editoras, na hora de contratar ilustradores; não sei porque o alarde.<br />
<a href="https://alemdoespetaculo.wordpress.com/"><img class="alignnone size-full wp-image-6660" alt="Untitled-1" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/untitled-1.jpg?w=630&#038;h=309" width="630" height="309" /></a></p>
<p>Entendo o argumento de que é possível que isso, talvez, possa ser danoso se cair na mão de clientes. Todavia,virando a mesa novamente, acho que isso se resolve com um simples “esse não é o preço que pratico”: como Thaís bem diz, é bem melhor se livrar desses pepinos. Há profissionais que vão pegar esses serviços, mas isso é outro segmento. São públicos, finalidades e contextos diferentes.</p>
<p><a href="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tumblr_lzyt38umfd1qa4s0qo1_400.jpg"><img class="alignleft  wp-image-6661" alt="tumblr_lzyt38umfd1qa4s0qo1_400" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/tumblr_lzyt38umfd1qa4s0qo1_400.jpg?w=240&#038;h=360" width="240" height="360" /></a>Além do mais, se todos cobrassem não o mesmo preço pra baixo (o preço da tabela, por exemplo), mas o mesmo preço pra cima (o preço dos grandes experientes), quem seria idiota de dar prioridade aos novatos? De novo, diminuir o preço é segmentação, não trollagem. O cliente de um profissional inexperiente não é o mesmo de um profissional experiente, do mesmo modo que – numa comparação um pouco hiperbólica – o público que compra um iPhone um S4 não é o mesmo que compra um celularzinho 3 chips chinês.</p>
<p>Se a questão são os abusos das editoras, o que deve ser feito é, como os americanos fizeram com a editora deles lá: boicotar. A solução é unir os profissionais, não segregá-los por causa de uma tabela. As grandes editoras <b>não vão </b>correr para o segmento de profissionais que cobra os valores da tabela. O risco de baixar a qualidade é alto. Se todos se unirem e boicotar, eles vão ter que parar com os abusos.</p>
<p>Aqui, então, eu acho que temos uma decisão a tomar: ou tratamos disso com remédios tarja preta, sufocando a discussão e atacando todos os discordantes, ou deitamos essa situação toda no divã e fazemos uma sessão psicanalítica. Se acha que devemos optar pelos remédios, acho que aqui você deve parar de ler, porque todo resto vai ser perda de tempo, porque eu acredito que tudo isso foi só um sintoma de um problema muito maior.</p>
<p><strong>A psicanálise</strong></p>
<p>Partimos, então, do princípio que o trabalho de um profissional entrante não é o mesmo de um experiente. Ainda há, entretanto, outro fato que não estamos considerando. O trabalho de um profissional com formação não é o mesmo de um informal – apesar de preconceituoso, vamos chamá-los <em>micreiros</em>¹. Se você é formado, e teme competir com micreiros, aí sim temos um problema sério. Não, não é culpa sua. Não <i>somente, </i>pelo menos. Significa que temos que dar outro passo atrás.</p>
<p>Aí entra a componente mais preocupante de todo discurso: o desprezo pela Academia e esse discurso do “mundo real”. Não vou me delongar muito, porque acredito que cada exemplo que falaram sobre isso merece uma argumentação à parte. Mas em resumo, eu acredito que esse tipo de discurso é justamente o que deu <b>origem à</b> tabela; esse exato mesmo de que a academia é “inútil” e disjunta do “mundo real” do mercado. Como no Ouroboros, a divisão cria a tabela, a tabela realimenta a divisão. (Desculpem, estou vendo essa imagem em todo lugar, graças ao meu “<em><a href="https://vimeo.com/64863628">tcczinho</a>”</em>)</p>
<p><a href="https://vimeo.com/64863628"><img class="alignnone size-full wp-image-6662" alt="photo-ouro" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/photo-ouro.jpg?w=630&#038;h=268" width="630" height="268" /></a></p>
<p>Isso sim, faz com que as universidades formem profissionais despreparados que <i>precisam </i>praticar esses preços absurdos, e às vezes pagar para trabalhar, para tentar fazer contatos e conseguir alguma experiência. Ou mesmo para não sair da área, como acontece de rodo por aí. Se tudo gira em torno de pagar as contas, precisamos entender que quem cobra barato também precisa comer e pagar as contas; eles não estão cobrando pouco só pra trollar as pessoas, acabar com o “mercado” e abaixar o valor médio. Eles também estão trabalhando – e provavelmente muito mais – para botar comida na mesa.</p>
<p>É essa cisão, essa falta de humildade e essa egolatria doente que incapacita um indivíduo de ver o outro como alguém tão importante e com sonhos e anseios tão profundos quanto os seus que anda guiando as rédeas do Brasil. Sim, porque isso se reflete não só nesses discursos na área “criativa”, mas permeia todas as camadas da sociedade; do gabinete da presidência ao vendedor de camelô. Não é à toa que intolerância é a palavra de ordem. Um paradoxo, claro, porque nunca fomos mais diversos. E foi, sobretudo, intolerância que eu vi acontecendo nessa discussão.</p>
<p><a href="https://alemdoespetaculo.wordpress.com/"><img class="alignnone size-full wp-image-6663" alt="Untitled-1_32" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/05/untitled-1_32.jpg?w=630&#038;h=268" width="630" height="268" /></a></p>
<p>No fim das contas, eu não sei se seria otimismo meu acreditar que a gasolina desse fogo foi autopromoção – aparecer no berro – em vez de pura intolerância. Não sei o que é pior, porque, se for o primeiro caso, fico decepcionado com todos aqueles que acabaram indo atrás de um discurso forjado dessa maneira. Se for o segundo, como lidar com essa intolerância de pessoas que deveriam se unir?</p>
<p>Eu acho que o que sobra é que cada um faça sua parte. Cada um que atue em seu papel, porque, honestamente, acho que essa peça vai sempre se repetir.</p>
<p>&#8212;-</p>
<p>¹ Não me refiro a autodidatas. Há autodidatas que têm uma formação melhor que muitos designers com diploma por aí.</p>
</div>
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	</item>
		<item>
		<title>Sobre a teoria linguística de Saussure</title>
		<link>http://filosofiadodesign.wordpress.com/2013/04/30/sobre-a-teoria-linguistica-de-saussure/</link>
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		<pubDate>Tue, 30 Apr 2013 13:45:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Daniel B. Portugal</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em meu último post aqui no blog, levantei algumas questões introdutórias ligadas à linguagem, utilizando como referência principal a teoria da linguagem de Saussure. Um ponto que ficou em aberto foi o do quanto e de que formas o sujeito seria, de certo modo, colonizado pela linguagem. Eu apresentei então somente um aspecto da questão [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6636&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2013/04/18/saussure-lingua-xadrez/" target="_blank">meu último post aqui no blog</a>, levantei algumas questões introdutórias ligadas à linguagem, utilizando como referência principal a teoria da linguagem de Saussure. Um ponto que ficou em aberto foi o do quanto e de que formas o sujeito seria, de certo modo, colonizado pela linguagem. Eu apresentei então somente um aspecto da questão &#8212; que não pode de modo algum ser considerado uma resposta &#8211;  e pretendo refletir melhor sobre o assunto em um próximo post, inclusive mostrando como a teoria do Saussure de fato só trata de uma pequena área da esfera da linguagem, embora muitas de suas ideias sejam aplicáveis também em outros lugares, como mostrarão os estruturalistas. Antes de fazer isso, porém, achei que seria pertinente escrever uma exposição minimamente aprofundada de alguns aspectos da teoria do Saussure &#8212; é isso que farei no presente post. Utilizarei como guia principal o </em>Curso de linguistica geral<em> (CLG)</em>, <em>compilação das notas dos alunos dos cursos de Saussure ministrados a partir de 1906 e que é o principal registro das teorias do linguista. A edição consultada do CLG foi: SAUSSURE, F. <i>Curso de linguística geral</i>. São Paulo: Cultrix, 2006 (disponível <a href="http://uepaingles1.files.wordpress.com/2011/03/curso-de-linguc3adstica-geral-saussure1.pdfhttp://" target="_blank">neste link</a>).</em><span id="more-6636"></span></p>
<p>Para começar a pensar sobre a linguagem, Saussure propõe um modelo de signo que ficou bastante famoso: o signo seria composto por significado e significante como se fossem dois lados da mesma moeda, tal como representado no modelo abaixo (CLG, p. 133).</p>
<div id="attachment_6638" class="wp-caption alignleft" style="width: 321px"><img class="size-full wp-image-6638" alt="signo-saussure" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/signo-saussure.gif?w=630"   /><p class="wp-caption-text">modelo de signo proposto por Saussure</p></div>
<p>Interessado como está o linguista principalmente na comunicação verbal, falada, ele define o significante como a imagem acústica da palavra – ou seja, o som que ouvimos (o que é diferente do som enquanto suposta realidade objetiva na forma de ondas ou outra qualquer). Já o significado seria o conceito associado a tal imagem. Eles seriam como dois lados da mesma moeda pelo fato de um não poder existir sem o outro – sem significante não pode haver significado, mas sem significado, tampouco pode haver significante, pois seria seu direcionamento a um significado que recortaria o significante da fluidez contínua que caracterizaria a realidade “bruta” dos sentidos. Essa relação simbiótica entre significante e significado não é simples de apreender e levanta diversas questões que acabarão, de certo modo, colocando novamente em questão as próprias bases do modelo provisório de signo proposto acima.</p>
<p>Para compreender melhor a relação entre significante e significado no modelo de Saussure, é preciso entender o tipo de estudo da línguagem que o linguista propõe. Segundo Saussure, os estudiosos da língua que o precederam ou faziam gramática (ou seja, estudavam as regras de correção no uso da linguagem) ou filologia (<i>grosso modo</i>, o estudo da “evolução” das línguas). Para ele, o objeto de estudo da linguística (então diferente da gramática e da filologia) seria a língua, entendida como sistema de regras que estrutura a linguagem. Nos termos de Saussure:</p>
<blockquote><p> Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotada pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos (CLG, p.17).</p></blockquote>
<p>Assim, será preciso diferenciar entre a língua (sistema de convenções) e a fala &#8212; isto é, os atos efetivos de linguagem realizados pelos sujeitos. A língua, vale ressaltar, é transcendente em relação ao sujeito – nenhuma consciência individual pode controlar a língua: ela aparece para o sujeito como algo dado, objetivo. Mesmo que o sujeito possa atuar sobre a língua através da fala, é preciso ter em mente que a fala já pressupõe a existência da língua, caso contrário ela não poderia existir. Ademais, mesmo atuando sobre a língua através da fala, os sujeitos não podem controlar as repercussões de suas falas, de modo que sua atuação sobre a língua é não apenas sutil, mas em larga medida cega e involuntária. Como coloca Saussure: &#8220;O signo escapa sempre, em certa medida, à vontade individual ou social, estando nisso o seu caráter essencial [...]&#8221; (CLG, p. 25).</p>
<p>Vale insistir neste ponto, pois muitas vezes se confunde o caráter arbitrário do signo linguístico – isto é, o fato de que a relação entre significante e significante é arbitrária (o nome “cavalo”, por exemplo, não tem nenhuma relação necessária com a ideia de cavalo) – com a possibilidade de escolha consciente da conexão entre significante e significado. Como escreve Saussure:</p>
<blockquote><p>Se, com relação à ideia que representa, o significante aparece como escolhido livremente, em compensação, com relação à comunidade linguística que o emprega, não é livre: é imposto. […]. Um indivíduo não somente seria incapaz, se quisesse, de modificar em qualquer ponto a escolha feita, como também a própria massa [i.e. a comunidade linguística] não pode exercer sua soberania sobre uma única palavra: está atada à língua tal como ela é.<br />
A língua não pode, pois, equiparar-se a um contrato puro e simples, e é justamente por esse lado que o estudo do signo linguístico se faz interessante; pois se se quiser demonstrar que a lei admitida numa coletividade é algo que se suporta e não uma regra livremente consentida, a língua é a que oferece a prova mais concludente disso (CLG, p. 85).</p></blockquote>
<p>A língua se caracteriza então, já aqui em Saussure, como uma espécie estrutura intersubjetiva que baliza as consciências individuais. Ela, entretanto, não seria o todo das “estruturas” que serão depois consideradas por estruturalistas como Lacan e Foucault. Estamos aqui, vale lembrar, apenas no âmbito da linguística. Assim, o que interessa é compreender melhor como a língua poderia “estruturar” de um lado o pensamento e de outro o mundo (Saussure está especialmente preocupado com som) percebido. A ideia aqui é que a lingua serve exatamente como articuladora desses dois polos, de modo a criar identidades e diferenças no fluxo contínuo da experiência não articulada pela linguagem. Como explica Saussure:<img class="alignright size-full wp-image-6641" alt="tremp" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/tremp.jpg?w=630"   /></p>
<blockquote><p> O mecanismo linguístico gira todo ele sobre identidades e diferenças, não sendo estas mais que a contraparte daquelas. O problema das identidades se encontra, pois, em toda parte; mas, por outro lado, ele se confunde parcialmente com o das identidades e das unidades, do qual não passa de uma complicação aliás fecunda. Esse caráter avulta bem na comparação de alguns fatos tomados de fora da linguagem. Assim, falamos de identidade a propósito de dois expressos &#8220;Genebra-Pais, 8h45 da noite&#8221;, que partem com vinte e quatro horas de intervalo. Aos nossos olhos, é o mesmo expresso, e no entanto, provavelmente, locomotiva, vagões, pessoal, tudo é diferente. Ou então, quando uma rua é arrasada e depois reconstruída, dizemos que é a mesma rua, embora materialmente nada subsista da antiga. Por que se pode reconstruir uma rua de cima a baixo sem que ela deixe de ser a mesma rua? Porque a entidade que constitui não é puramente material; funda-se em certas condições a que é estranha sua matéria ocasional, por exemplo, sua situação relativamente às outras; de modo semelhante, o que faz o expresso é a hora de sua partida, seu itinerário e em geral todas as outras circunstâncias que o distinguem de outros expressos (CLG, p.126).</p></blockquote>
<p>Este trecho explicita dois pontos centrais da concepção saussuriana da linguagem. 1. O ponto já mencionado de que a língua e outros sistemas semiológicos criam as identidades e diferenças. Ela não é consequencia, portanto, de identidades e diferenças anteriores a ela, como na visão essencialista de que damos nome simplesmente a coisas que já são semelhantes entre si por sua própria natureza. 2. Que estas identidades e diferenças são criadas através da inserção do fluxo indiferenciado em um sistema que prevê identidades e diferenças que se articulam entre si. As identidades e diferenças seriam, na verdade, efeito dessa articulação, mais ou menos do mesmo modo que um município pode ser visto como o buraco deixado pela borda dos demais municípios que com ele fazem fronteira.</p>
<p>Este segundo ponto é estudado mais detalhadamente no capítulo IV da segunda parte do CLG,  intitulado “O valor linguístico”. A noção de valor decorre da concepção do sistema da língua como diferencial e estruturante. O modelo de signo apresentado no início do post pode sugerir que o signo liga um som a um conceito pré-definido, o significado, como se tal significado pudesse existir fora do sistema da língua. A ideia de Saussure é justamente que isso não pode ocorrer, pois o todo (i.e. o sistema de articulações) não seria um conjunto de partes previamente existentes, mas é a própria existência do sistema que cria as partes. Essa parte compreendida negativamente como mero efeito do sistema seria o “valor” do signo em oposição à noção positiva de “significado”.</p>
<blockquote><p> [...] a ideia de valor [...] nos mostra que é uma grande ilusão considerar um termo simplesmente como a união de certo som [significante] com um certo conceito [significado]. Defini-lo assim seria isolá-lo do sistema do qual faz parte; seria acreditar que é possível começar pelos termos e construir o sistema fazendo a soma deles, quando, pelo contrário, cumpre partir da totalidade solidária para obter, por análise, os elementos que encerra (CLG, p. 132).</p></blockquote>
<p>A noção de valor viria, então, substituir a de significado? Não: Saussure é bastante claro ao dizer que devemos considerar as duas noções como válidas e distintas. Entretanto, é difícil saber o que pode restar de positividade no significado uma vez que: “na língua só existem diferenças. E mais ainda: uma diferença supõe em geral termos positivos entre os quais ela se estabelece; mas na língua há apenas diferenças sem termos positivos” (CLG, p. 139).</p>
<p>O melhor jeito de resolver ese impasse parece ser associando o valor ao sistema da língua e o significado ao ato de fala, como propõe Joseph (The linguistic sign. In: SANDERS, C. (ed.). <i>The cambridge companion to Saussure</i>. Cambridge: Cambridge university press, 2004) com base em Burger. Com efeito, uma vez atualizadas em conjunto em uma fala, as palavras adquirem um significado positivo. O significado, entendido deste modo, seria balizado, mas de modo algum definido, pelo valor do signo, dado que dependeria também de todas as variáveis concretas de produção da fala. É verdade que essa solução apresenta alguns problemas se observamos que o próprio Saussure, neste caso, utilizaria algumas vezes, no CLG, o termo significado quando deveria utilizar valor. Lembremos, porém, que o CLG é composto principalmente de anotações dos alunos de Saussure, de modo que não se pode exigir a precisão conceitual que se esperaria de um texto finalizado pelo próprio autor.</p>
<p>Seja como for, aqui já entramos em questões controversas. Vale apenas observar, antes de encerrar este <em>post</em>, que a constatação de que há muito mais no significado – entendido, agora, como significado atualizado em uma consciência, e não significado abstrato no sistema da língua, já que os dois passam a ser diferentes, embora a atualização continue sempre sendo impossível sem a conexão com um significante – do que o valor do signo pode ser o pontapé inicial para começarmos a abordar o verdadeiro mundo de fenomenos de linguagem que não são considerados nesta abordagem de Saussure, tão focada no sistema da língua.</p>
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		<title>Do livre afeto não arbitrável</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Apr 2013 13:30:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Beccari</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Negar o livre-arbítrio é entendido, no senso comum, como negar liberdade. Ainda que fosse uma simples questão de resistência contra um suposto determinismo mecânico e fatalista do universo, nunca sabemos se essa resistência já faz parte de tal mecanismo fatal. Contudo, não é só disso que se trata. As pessoas entendem livre-arbítrio como exercício pleno [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6603&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-6604" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/livre-afeto.jpg?w=630"   />Negar o livre-arbítrio é entendido, no senso comum, como negar liberdade. Ainda que fosse uma simples questão de resistência contra um suposto determinismo mecânico e fatalista do universo, nunca sabemos se essa resistência já faz parte de tal mecanismo fatal. Contudo, não é só disso que se trata. As pessoas entendem livre-arbítrio como exercício pleno de liberdade, o que implica (conscientemente ou não) partir da premissa de que, sem a intencionalidade do livre-arbítrio, seremos sempre escravos de nossas “pulsões animais” – enfim, aquela separação agostiniana mente-corpo recalcada na civilização moderna.</p>
<p>Logo, entender o livre-arbítrio como sinônimo de liberdade significa considerar-se naturalmente aprisionado: acredita-se que nossas pulsões irracionais são destrutivas (pois nosso corpo é vil) e que, no entanto, por algum motivo (Deus ou coisa do gênero), nós temos a dádiva do livre-arbítrio (a dádiva da mente), que não nos deixa à mercê de nossas vontades e desejos mais perversos. E mesmo dentro dessa concepção judaico-cristã, livre-arbítrio ainda parece ser mais uma questão de controle (das pulsões) do que de liberdade.<span id="more-6603"></span></p>
<p>Desconfio que, se “arbítrio” já significa basicamente escolha, adicionar o termo “livre” acaba sendo uma coerção disfarçada de redundância. Por exemplo, o vício do cigarro: eu tenho o livre-arbítrio de parar de fumar, já que racionalmente eu chego à conclusão lógica de que isso faz mal à minha saúde, mas não o faço. A explicação mais fácil é que o vício é um “processo químico”, isto é, que há uma “vontade irracional” atuando como estorvo à minha liberdade (engraçado é que o conselho padrão paradoxalmente é o de que me falta “força de vontade”).</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6619" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/livrearbitrio.jpg?w=244&#038;h=355" width="244" height="355" />Ocorre que, entretanto, todo mundo que já conseguiu parar de fumar sempre me fala que não se trata de uma escolha calculada, mas de uma percepção muito mais sutil de que o cigarro não é imprescindível para se obter prazer. Podemos abrir mão do cigarro sem necessariamente abrir mão do prazer físico (o qual pode ser alcançado de diversas formas).</p>
<p>Neste caso, pois, acreditar que existe livre-arbítrio até chega a ser contraproducente: a reflexão racional sobre todo o esforço envolvido na escolha de largar o cigarro acaba atrapalhando a simples percepção de que o prazer não depende do cigarro (mas afinal por que parar de sofrer?).</p>
<p>O livre-arbítrio não somente pode nos tirar a liberdade de agir não racionalmente, como pode se tornar um obstáculo a nossa própria compreensão racional a seu respeito. Não estamos presos ao livre-arbítrio a partir do momento em que acreditamos que ele é necessário para nossa liberdade?</p>
<p>Não é apenas como dizer “não corra o risco de agir sem pensar duas vezes antes, você ainda tem a possibilidade da escolha!”, de modo que essa escolha em si é adiada, mas antes o contrário: a necessidade da escolha imediata, com ou sem o “pensar duas vezes”, limita a compreensão de por que diabos chegamos neste impasse.</p>
<p>Aceitar o impasse como “impasse” propriamente já é uma escolha sem precedentes, sem opções prévias, sem livre-arbítrio. Querer sair dele através de uma escolha “livre” – tentando se livrar dos impulsos vis e irracionais – significa não se deixar afetar por ele e, por tabela, não querer afetá-lo.</p>
<p><img class="alignright" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/f0f5a-tumblr_kt0c53hd151qz6f9yo1_500.png?w=247&#038;h=370" width="247" height="370" />Nunca é uma questão de “sentir mais e pensar menos”.<br />
Nunca é uma simples questão de escolha e muito menos uma separação. “Pensando” eu me afeto melhor e, me afetando melhor, mais abertura eu tenho para não depender do livre-arbítrio para fazer minhas escolhas.</p>
<p>Sim, escolhas não dependem do livre-arbítrio. Ou melhor: aquelas que dependem não nos afetam diretamente. Pois o afeto não é uma questão de escolha, mas querer levá-lo adiante sim. Colocando de outro modo: o livre-arbítrio surge da premissa de que aquilo que nos afeta está errado (os “monstros” que nos habitam) e que, portanto, não deveríamos nos afetar por aquilo. A questão é que aquilo já nos afetou. Podemos negar esse afeto inicial, recorrendo ao livre-arbítrio, ou continuar afetando-se para lidar diretamente com tal afeto, sem perdê-lo de vista.</p>
<p>Não que o livre-arbítrio sempre impeça a liberdade – até porque ele é muito útil de maneira estratégica em circunstâncias que não nos afetam tanto –, e não digo que qualquer tentativa de negar o afeto seja sempre ineficaz, mas escolher os afetos em si, no sentido de aceitá-los e deixar-se afetar por eles, é muito mais difícil do que negá-los, pois são eles que localizam nossas escolhas. É algo análogo à percepção de Nietzsche, em sua leitura de Espinoza, de que o conhecimento seria o mais potente dos afetos: não é qualquer conhecimento, mas somente o conhecimento <i>sobre</i> nossos afetos que nos afetaria com maior intensidade. Logo, escolher manter o afeto “por perto” significa re-afetar as próprias coordenadas da escolha.</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6629" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/paula-aparicio.jpg?w=240&#038;h=308" width="240" height="308" />É comum na história dos grandes esportistas, por exemplo, a ideia de uma “vocação” que não foi escolhida. Esse impulso duvidoso poderia ter sido ponderado pelo livre-arbítrio – Ayrton Senna certamente sabia o quanto era perigoso (e de fato foi) seguir essa vocação. Pode ser que esse impulso tenha sido inventado, pode ser que tenha sido imposto por uma cobrança externa, não importa. O que importa é que esse impulso, ao invés de aprisioná-lo, foi libertador para ele.</p>
<p>Libertador no sentido de expansão dos afetos. Não como uma resistência à dominação, mas como um movimento de expansão sem resistências. Não é uma defesa, não é uma segurança, não é um direito ou uma garantia. É uma situação que só pode ser criada a partir daquilo que nos afeta e da maneira expansiva como escolhemos lidar com nossos afetos. Diante de tal situação, o livre-arbítrio aparece apenas como propriamente arbitrário, uma contingência de si mesma.</p>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
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<p style="text-align:center;"><em>Um mundo onde conhecer é criar e afetar-se melhor | André Martins (CPFL Cultura, 2011)</em></p>
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		<title>Dilemas do Design V: corporativismo</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Apr 2013 12:26:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Beccari</dc:creator>
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		<description><![CDATA[* texto originalmente publicado na Revista Clichê. “O design como conhecemos hoje só existe porque jovens de 20 a 30 anos se sujeitam a trabalhar como escravos para empresas que os usam como ferramentas.” – Charles Watson. Muitos críticos sustentam que o indivíduo de hoje, diante de um suposto enfraquecimento dos tradicionais laços de identidade [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=filosofiadodesign.wordpress.com&#038;blog=15799331&#038;post=6556&#038;subd=filosofiadodesign&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em><img class="alignleft size-full wp-image-6596" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/corporativismo_fdd2.jpg?w=630"   />* texto originalmente publicado na <a href="http://www.revistacliche.com.br/2013/04/dilemas-do-design-v-corporativismo/" target="_blank">Revista Clichê</a>.</em></p>
<blockquote><p>“O design como conhecemos hoje só existe porque jovens de 20 a 30 anos se sujeitam a trabalhar como escravos para empresas que os usam como ferramentas.” – Charles Watson.</p></blockquote>
<p>Muitos críticos sustentam que o indivíduo de hoje, diante de um suposto enfraquecimento dos tradicionais laços de identidade (família, trabalho, religião, panelinha etc.), tem abandonado o sentimento de identidade coletiva em proveito de condutas narcisistas e hedonistas. É uma leitura plausível, mas simplifica <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2013/03/01/narcisismo/">questões prementes</a>, sobre as quais ainda pretendo discorrer em ensaios mais longos, fora dessa série dos dilemas do design.<span id="more-6556"></span></p>
<p>Por ora, quero apenas elucidar como é que certo conservadorismo corporativista tem sabotado nosso pequeno universo do design. Depois que lançaram certa <a href="https://www.facebook.com/photo.php?fbid=595243887155466&amp;set=p.595243887155466&amp;type=1&amp;theater">“tabela de preços”</a> na internet, houve uma <a href="http://www.brainstorm9.com.br/36312/anticast/anticast-urgente-02-a-polemica-da-tal-tabela-de-precos/">polêmica</a> que desenrolou para outras instâncias, gerando uma <a href="http://www.facebook.com/marcos.beccari/posts/580719825271858">perseguição predatória</a> contra designers &#8220;novatos&#8221; (oi?) que estão chegando agora. Resumo do <i>big brother</i>: uma pessoa-que-não-se-pode-falar-o-nome começou a <a href="https://www.facebook.com/tiofaso/posts/558985824141658?comment_id=6235727&amp;offset=0&amp;total_comments=170&amp;notif_t=share_reply">atirar pra todos os lados</a>, para depois tentar sair como vítima da história e, sem ninguém perceber, tirar proveito da situação através de um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=0X71kmEVJHA">vídeo autopromocional</a> (e automotivacional). E por mais que eu nem tenha opinado sobre aquela tabela inicial (a saber, sou contra), acabei me tornando ícone de uma &#8220;geração perdida&#8221; que supostamente não respeita os mais velhos, os mais experientes etc.</p>
<p><img class="alignright" alt="" src="http://media-cache-lt0.pinterest.com/upload/228909593530137658_77bdcfit_c.jpg" width="231" height="360" />Sei que tudo isso dá muita preguiça, mesmo porque eu <a href="http://www.facebook.com/marcos.beccari/posts/581898665153974">sinceramente gostaria que os argumentos envolvidos fossem minimamente mais fortes</a>. Mas acho que esse episódio trouxe à tona um verdadeiro dilema até então escamoteado por todos: o conservadorismo predatório de certa concepção de “mercado” <i>versus</i> a indiferença de alguns designers <i>inconformáveis</i>.</p>
<p>Aí você pensa de onde eu tirei essa história, já que designers sempre são descolados, vanguardistas, super tendência. Pode até ser, o problema é fingir que não existem tensões ideológicas por trás deste arco-íris da alegria. Bem, devo esclarecer o óbvio de antemão: não tenho nada contra o “mercado” (<a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/2012/02/26/a-duvida-do-mercado/">até porque ele não existe</a>) nem contra os mais velhos (recortar e descontextualizar minhas palavras foi <a href="http://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200442759323873&amp;set=a.2067758965921.2110223.1003219776&amp;type=1">golpe baixo</a>), a questão não é e nunca foi esta.</p>
<p>A questão é fazer da “experiência” munição de uma <a href="http://www.facebook.com/montalvomachado/posts/301412873323361">inquisição</a> em praça pública, distribuindo as vísceras do suposto culpado como cartão de visitas em um nítido desespero autopromocional.</p>
<p>Aquela tal da “sabedoria” do mercado, tão cultuada por muitos, é precisamente o que eu chamo de corporativismo: tirar proveito de qualquer situação, custe o que custar. Começar atacando todo mundo e, depois que a poeira baixar, apaziguar a situação como um <a href="http://www.facebook.com/montalvomachado/posts/10200439810370151">“bom samaritano”</a> que oferece gratuitamente seus serviços de consultoria.</p>
<p>Não, dessa vez não estou com papinho intelectual, estou é com náuseas. Não sei o que é mais nojento: caçar violentamente colegas de profissão por puro protecionismo econômico ou fazer disso uma estratégia oportunista que transforma o caçador em vítima. Estratégia esta que nada tem de conspiratória, pelo contrário, de tão conhecida já se tornou inquestionável – como o slogan do “nos vemos no <i>mundo real</i>” (não aquele do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Victor_Papanek">Papanek</a>, da década de 1970, mas&#8230; putz que preguiça).</p>
<p><img class="alignright" alt="" src="http://www.doodlersanonymous.com/images/featured/10072008191400712336.jpg" width="212" height="289" />O imperativo é: conforme-se, é assim que as coisas funcionam. Estar desempregado é tipo uma doença grave, questionar e debater é perda de tempo, estudar demais significa falta de sexo etc. O sentido da vida resume-se a ter uma carreira de sucesso, conhecer o preço de tudo (e o valor de nada) para garantir o leite das crianças. E o argumento infalível são os anos de experiência nas costas, mesmo numa época em que o PC Siqueira tem muito mais credibilidade que o Papa.</p>
<p>Sob este viés, o que significa educação? Nada mais do que preparar as pessoas para o mundo do trabalho, restringindo seu conhecimento a procedimentos técnicos direcionados a cumprir “metas” (corporativismo), uma vez que “aprender” não é necessário senão para realizar isso ou aquilo e, no fim, conseguir ser “bem sucedido” na vida. Então a faculdade assume o papel de dar a bênção (diploma) para o tão almejado sonho de ascendência social, o que obviamente funciona como reprodução (e promoção) das desigualdades sociais.</p>
<p>Moral da história: uma vez engolido pelo corporativismo, você fará de tudo para que sua própria existência se reduza a ele, de tal modo que sua autorrealização estará restrita a uma realização profissional. Todo o resto torna-se <i>hobby</i> ou passatempo meramente genérico e descartável: estudar, aumentar o repertório cultural, cultivar a sensibilidade artística, fazer amigos etc.</p>
<p><img class="alignright  wp-image-6574" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/vomit_corporativo.jpg?w=224&#038;h=329" width="224" height="329" />Desculpe se eu fiz alguém aí vomitar, mas foi só para mostrar que todo esse papinho de tentar apaziguar a discussão, como se todo mundo fosse amiguinho, é um verdadeiro tiro no pé. Significa escamotear novamente uma questão importante que, de um jeito ou de outro, foi debatida nos últimos dias (e pelo jeito já está prestes a ser esquecida).</p>
<p>Perceber ainda que tanta gente aceitou de mão beijada todas as piadas-prontas daquele vídeo (da pessoa-que-não-se-pode-falar-o-nome) não é apenas lamentável. É inacreditável. Ninguém se deu conta de que a maior arrogância foi a de parecer forçadamente humilde, que o ataque mais injustificável foi a vitimização do carrasco. Sério, não teve graça nenhuma, foi uma verdadeira piada de mau gosto com a qual não tenho a menor condição de ser complacente.</p>
<p>Para aqueles que, como eu, ficaram com vontade de morrer ou de matar alguém, eu diria: calma, se concentra e aproveita a raiva para navegar sem se deixar levar pela correnteza. Há uma lição a se tirar disso tudo? Sim: não é o trabalho que fazemos (ou quanto cobramos por ele) que define o que nós somos, mas somos nós que devemos definir o que o trabalho, ou o mercado, significa (e o quanto ele vale) para nós.</p>
<p>E para aqueles que preferem acreditar naquele tal de “mundo real”, ou mesmo aqueles que acharam melhor “ficar na sua”, peço desculpas por minha total falta de diplomacia. É que meu estômago não é de ferro. Mas sério, toma cuidado. Porque uma hora, sem você perceber, existirá no seu “mundo real&#8221; uma tabela finalmente decretada, rigorosamente controlada, fiscalizada e tudo mais. O cara que acabou de sair da faculdade vai cobrar o mesmo preço que o cara que está há 50 anos no mercado. Essa é a piada.</p>
<blockquote><p>[Felizmente, do lado de fora do design ainda há sinais de lucidez. Tomo a liberdade de reproduzir a seguir, na íntegra e devidamente autorizado, um <a href="http://acrasias.wordpress.com/2013/04/22/3/" target="_blank">post recente</a> de <a href="http://www.facebook.com/gustaveaux" target="_blank">Gustavot Diaz</a>, artista militante com quem tive a honra de aprender a desenhar e que <a href="http://filosofiadodesign.wordpress.com/author/gustavotdiaz/" target="_blank">escrevia neste blog</a> até pouco tempo atrás. Gustavot também é co-fundador do <a href="http://mimesismimesis.com.br/" target="_blank">Mímesis Conexões Artísticas</a>, é professor no Centro Cultural Solar do Barão (FCC-Curtiba/PR), coordena o Núcleo de Arte, Cultura &amp; Propaganda do PSOL em Curitiba, é um dos editores da Revista Panfleto e atua principalmente como pintor, desenhista, crítico e escritor de contos, poesias e peças de teatro. Atualmente mantém o blog <a href="http://acrasias.wordpress.com/" target="_blank">Acrasias</a>.]</p></blockquote>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<h3><b>Se os Tubarões Fossem Homens… (por Gustavot Diaz)</b></h3>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:right;"><img class="alignleft" alt="" src="http://acrasias.files.wordpress.com/2013/04/400px-tubarc3a3o.jpg?w=216&#038;h=273" width="216" height="273" /><i>Que tempos são estes em que é quase um delito falar de coisas inocentes. </i>[Bertolt Brecht]</p>
<p>Lembrei-me destes poemas de B. Brecht ao perder meia hora deste fim de semana assistindo a um vídeo anacolútico, difícil de ser abordado por meio da racionalidade… Mas me esforçarei para alinhavar o raciocínio do infeliz autor, pautando-o em termos de lógica formal. A arte aprendeu humildemente através dos séculos que se enriquece e se nutre do conhecimento acumulado de outras áreas, mas a discussão que vi é apenas entre designers. Como não sou Do meio, assumo minha irresponsabilidade, e apresento alguns questionamentos vistos “de fora” desta janela onde boas e más perspectivas se mostram – quem sabe sirva de alguma coisa (senão para vingar os 30 minutos que perdi). A fim de gerar algum interesse, formato-o como uma entrevista, onde questiono uma sombra:</p>
<p>(<strong>Contextualizando</strong>: um designer publicou uma tabela estimando valores a ser cobrados por serviços de Design baseada em enquetes com profissionais da área no RS. Isso gerou uma onda, sob a qual os tubarões do RJ mostraram seus dentinhos miúdos e ferinos….)</p>
<p><em>Aqui o vídeo (feito por um “designer experiente” com 30 anos de mercado prosaico e corporativista):<b> </b></em><em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=0X71kmEVJHA" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=0X71kmEVJHA</a></em><em><b> </b></em></p>
<p><em>Aqui um podcast em resposta, feito por “iniciantes” no mercado de design:<b> </b></em><em><a href="http://www.brainstorm9.com.br/36312/anticast/anticast-urgente-02-a-polemica-da-tal-tabela-de-precos/" target="_blank">http://www.brainstorm9.com.br/36312/anticast/anticast-urgente-02-a-polemica-da-tal-tabela-de-precos/</a></em></p>
<p><i><strong><img class="alignright  wp-image-6583" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/red_shit.jpg?w=223&#038;h=335" width="223" height="335" />GD:</strong></i> “O senhor começa o vídeo dizendo que ‘conteúdo é mais importante do que forma’… Por que então seu discurso não tem conteúdo e seu vídeo é tão feio?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD: </strong></i>“O senhor afirma ter medo de que a tabela chegue aos clientes e vá prejudicar o mercado… Se conhece tão bem o mercado, por que se incomodou tanto com a tabela? O senhor não é presidente de uma Federação que devia justamente tratar disso? O seu preço é tão baixo para temer que ele baixe ainda mais? E essa polêmica que o senhor criou não facilitará que a tabela chegue ao conhecimento de clientes que sequer haviam tomado consciência dela?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD: </strong></i>“O que o design necessita não é de “dignidade profissional” para ter reconhecimento público e começar a ser valorizado? Essa dignidade não depende de uma qualificação teórica que a justifique?</p>
<p><i></i><i><strong>GD: </strong></i>“O senhor afirma que a melhor maneira de se saber o quanto cobrar é ligando para o senhor, ou para seus amigos ‘mais experientes’… Esse ‘mecanismo’ que o senhor diz conhecer com larga experiência, não seria o mercadinho de chicana que conhecemos por “corporativismo”?</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor acha tão vulnerável o mercado; porém acha mesmo que pode regulá-lo? O senhor crê que Design está na conta de commodities e que uma tabela ou a sua Federação irão regular os preços? Não sabe que o valor de uma logomarca depende mais do preço da farinha do que de todas as tabelas e comentários em vídeos e no Facebook? O senhor, que conhece tanto o mercado, nunca estudou Economia Política?”</p>
<p><i><strong><img class="alignright  wp-image-6585" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/giraffe.jpg?w=200&#038;h=288" width="200" height="288" />GD:</strong></i> “O senhor poderia repetir que as tabelas da SIB, da ADG, da ABIPRO e da ADEGRAF não valem nada, como ficou subentendido no vídeo?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “O que o senhor está propondo – esse jogo de influências e contatos entre amigos, não é o que se denomina normalmente ‘fechar o mercado’? Não é isso que trava o desenvolvimento de centenas de novos designers com novas ideias e a construção de um novo mercado?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor está com medo de perder sua boquinha?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Como é sabido há algumas décadas, o mercado não se abaliza mais por tabelas desde o século XIX. A partir de suas opiniões, no entanto, depreendemos que o senhor é favorável à instituição de um sistema de Guildas ou Corporações medievais. O que o senhor acha de outras formas de inserção e construção de mercado – tais como permutas, redes colaborativas, cooperativismo, etc?”<b></b></p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Defendendo o seu mercado, não estaria o senhor fechando-o dentro de uma gaveta em sua cabeça (enquanto a outra gaveta está preocupada em como gastar o dinheiro ganho)?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “No vídeo, o senhor assevera que o que realmente quer é ‘comer, pagar as contas e ganhar dinheiro’. Isso não é o que define o conceito de mediocridade? O senhor então não está interessado em realizações no campo artístico, inovações e criações de acessibilidade, ressignificação do descarte industrial, métodos produtivos ambientalmente responsáveis, objetos que compreendam sentido estético e produções que levantem questionamentos, geração de consciência política… – contribuições ao mundo, enfim?”</p>
<p><i><img class="alignright" alt="" src="http://farm4.static.flickr.com/3050/2360166893_4ea443977a.jpg?v=0" width="180" height="240" /></i><i><strong>GD:</strong></i> “Ao senhor interessa, então, apenas seu próprio sustento – e não fazer Arte e através dela subsistir dignamente?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Suas opiniões não são as que normalmente se espera de um assessor da burocracia de gabinete ou de um aposentado do Banco do Brasil? Será por isso que se mexeu e se incomodou tanto com uma ‘tabela inútil e imprestável’, segundo suas palavras”?</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “À pesquisa de TCC, o senhor qualifica de ‘brincadeira’. O que diriam o professor orientador da pesquisa e os professores da banca e do departamento em que o TCC foi realizado? Eles são também inexperientes no mercado, é isso que o senhor quer dizer?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Se o senhor conferisse algum valor ao conhecimento acadêmico, saberia que um TCC é apenas uma pesquisa, não uma tese científica; e que uma tese científica é apenas uma hipótese – do contrário seria um dogma. Segundo seu discurso, o conhecimento mais importante é aquele ‘prático’, a experiência da atuação profissional: poderíamos então dizer que o que interessa realmente é o conhecimento empírico do pedreiro na construção civil, em detrimento do conhecimento do engenheiro e do arquiteto?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor diz que queria muito um ‘guia do ilustrador no início da carreira’. Por que agora (em fins de carreira), sente-se tão incomodado com o guia do ilustrador feito pelo designer no RS?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “ ‘A primeira aula de um curso de Artes deveria ser sobre adequação de valores e contratos de licenciamento de imagem’ – é isso mesmo o que o senhor disse, ou entendemos mal? E qual seria a diferença entre o curso de Administração e o de Artes?</p>
<p><i><img class="alignright" alt="" src="http://www.pxleyes.com/blog/wp-content/uploads/tiago/31.jpg" width="196" height="276" /></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor defende direitos de imagem, copyright e por acaso é fervorosamente contra a pirataria e o livre acesso de informações pela internet? Então o senhor possui conhecimentos notáveis e gostaria de preservá-los e restringir o acesso a eles?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Tomamos a liberdade de propor-lhe uma ponderação: o senhor se oferece a ‘levar uma apresentação de 4 horas a qualquer Universidade de Artes’… Alertamos que seria ridicularizado – tanto quanto uma apresentação da Gretchen no banquete dos prêmios Nobel em Estocolmo! O que o senhor pensa é justamente o que não deve ser levado à Academia. Pelo contrário: a Academia deveria produzir novos conhecimentos e direções para a atuação dos profissionais no mercado (não reproduzir práticas de maneira tecnicista, sem refletir sobre elas).</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor afirma que a Academia e os trabalhos acadêmicos são ‘inúteis’. O que o tornou um profissional? O senhor é a favor de acabar com o Ensino Superior de Design no Brasil e substituí-lo por cursos técnicos de curta duração sobre o mercado ou por seus vídeos no Youtube?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor afirma com razão que não se deve ‘capitalizar popularidade’ em cima de uma questão que ‘mais prejudica do que ajuda’. Mas não é isso que o senhor está fazendo?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Se o senhor conhece tão bem o mercado por estar a tanto tempo nele, não estaria então na hora de trasnformá-lo? Ou o mercado como está, sem questionamento de novatos, está bom? Porque, para os novos designers esse mercado que o senhor defende não parece ser muito produtivo…”</p>
<p><i><img class="alignright  wp-image-6591" alt="" src="http://filosofiadodesign.files.wordpress.com/2013/04/teacher_fail.jpg?w=195&#038;h=268" width="195" height="268" /></i><i><strong>GD:</strong></i> “O senhor se impressiona com um professor na universidade dando aula sem conhecer o mercado… Não será mais impressionante ainda que uma pessoa como o senhor, há tanto tempo nesse mercado, não saiba qual é a função da Academia? Diferente do seu prosaísmo, a Academia constrói ciência, e não mercado. O mercado criam os pedreiros, que efetivamente não precisam da Universidade como os engenheiros e arquitetos. A Academia deve pensar a Arte e a Filosofia; é um espaço privilegiado para isso, senão o único. Não é realmente impressionante um senhor de cabelos brancos dando um piti na internet contra um jovem recém-formado?”</p>
<p><i></i><i><strong>GD:</strong></i> “Ao final das contas, todos perceberam que quem está mais interessado na tabela é o senhor… Não será porque é presidente de uma Federação que deveria ter feito justamente pesquisa de mercado e não o fez? Se a tabela em questão mobilizou tantos acessos e downloads em tão pouco tempo, não será porque é isso mesmo o que está faltando aos novos profissionais? Não será isso que as Federações estão deixando de fazer – dar suporte a quem está entrando no mercado, ao invés de acachapá-los publicamente pela internet? Não será porque o design não é valorizado no Brasil justamente porque não olha para a sociedade<i>? A extensão desta polêmica não terá como pano de fundo nossa herança colonial, nossa falta de instrução acadêmica e intelectual?”</i></p>
<p><strong>Fique quem quiser com o mercado prosaico e pequeno burguês que é radicalmente oposto à Arte e interpela seu desenvolvimento com inúmeras contradições… Vou eu aqui, tentando superá-las e viver dignamente sem oprimir ninguém, buscando novas formas de prática e de pensamento (e pensamentos sobre a prática), abrindo ao invés de fechar, assimilando ao invés de excluir, pensando que os tubarões não são homens…</strong></p>
<p>Deixo por fim o poema do Brecht, esse sim preocupado em mudar o estado de coisas e contribuir com a sociedade:</p>
<p><strong><img class="alignright" alt="" src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/73/Bertolt-Brecht.jpg/225px-Bertolt-Brecht.jpg" width="180" height="262" />SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS</strong></p>
<p><i>Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.</i><br />
<i>Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis; se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.<br />
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos. </i></p>
<p><i>Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.</i></p>
<p><i>Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.<br />
</i></p>
<p><i>Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. </i></p>
<p><i>Entenderiam os peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. </i><i>Sobretudo, os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações. </i></p>
<p><i><img class="alignright" alt="" src="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lrkqqiYvFY1qz6f9yo1_500.jpg" width="208" height="293" />Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. </i><i>As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Aos peixes pequenos seria anunciado que eles seriam reconhecidamente mudos, mas que silenciariam em diferentes línguas e não poderiam portanto se comunicar. Todo peixe pequeno que,na guerra, matasse outros peixes mudos de outras línguas inimigas, receberia a ordem das algas e seria condecorado como herói.</i></p>
<p><i>Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente. </i><i>Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. </i></p>
<p><i>A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .<br />
</i></p>
<p><i>Também haveria uma religião ali. </i><i>Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.</i></p>
<p><i>Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.</i></p>
<p><i>Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar, e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante. </i></p>
<p><i>Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.</i></p>
<p align="right"><strong>Bertold Brecht</strong></p>
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