Fantoches nem sempre alienados

* publicado originalmente no Formas do Consumo.

Tenho a impressão de que a maioria das discussões teóricas sobre consumo repete uma mesma parábola: era uma vez um cara chamado Marx que encarava a produção industrial como sendo o motor da história e o único campo legítimo de luta social – luta porque o mundo seria dividido em dois: quem manda e quem obedece.

Diante disso, consumo é o vilão da produção industrial e, portanto, aquilo que freia a história — consumir reduz-se a uma instância passiva de manipulação que nos faz querer coisas sem haver uma real necessidade de tê-las. Leia mais…»

A mentira da imagem

A tentativa de inserir um novo produto no mercado perpassa invariavelmente no caráter periódico da imagem na mente dos consumidores. Desse modo, uma ferramenta que procura sustentar isso é o logotipo, pois esse tem a particularidade de se tornar o ponto fixo de um produto no qual tenta ter destaque no emaranhado de coisas presentes no cotidiano contemporâneo. Porém, o cerne daquilo posto a ser comercializado não é colocado explicitamente, já que a tentativa aqui é seduzir o consumidor de tal maneira que diante de uma certa necessidade a lembrança primeira concerne justamente àquele logotipo. Interessante que vasculhando a internet encontrei uma galeria realizada pelo designer Viktor H. que justamente readapta certos logotipos famosos, intensificando os reais efeitos proveniente dos seus produtos comercializados.

Ao depararmos com a imagem readaptada pelo designer facilmente concordamos com o enunciado presente no atual logotipo. Por exemplo, na figura ao lado em que exibe o logo da McDonalds modificado em que forma a palavra McDiabetes, nisso facilmente entendemos o teor provocador exibido nesse trabalho, não somente isso, afirmamos o efeito sublinhado aqui no abuso de produtos de tal loja. Entretanto, mesmo após aplausos mediante a edição do designer, ao retomarmos o nosso cotidiano caso perpassamos o dia em shoppings, passando em frente a essa lanchonete visamos o logotipo original e na maior parte das vezes sentimos uma vontade de consumir, nem que seja a batata-frita, um sorvete, ou até mesmo o clássico BigMac. Aí advém a questão: o que aconteceu com nossa concórdia a imagem ao lado? Esquecemos nossas opiniões diante do contexto social em que estamos inseridos? Ou somos carregados pela mentira, vivenciando-a no limite de nossos prazeres? Não será com isso indicado que, o nosso ideário de convívio social só pode ser sustentado na mentira, a qual não concerne somente quando alguém emite uma fala que apresenta uma desajuste com a realidade, e sim, cada vez mais através da imagem somos imergidos na mentira que se tornou verdade? Essas são indagações que tentarei mostrar um caminho, que procura apresentar considerações sobre o efeito da mentira através das imagens. Leia mais…»

Consumo de Crenças e a Alienação

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Sabe aqueles assuntos que evitamos discutir, mas que todos nós temos uma opinião a respeito? Religião, política, gosto musical, futebol… No fundo, discutir sobre estas coisas é discutir sobre crenças e, portanto, sobre aquilo que nos faz ser quem somos. Mas será que a própria crença pode ser considerada um objeto de consumo? Se pensarmos em nossos gostos musicais e em nosso time de futebol, tal suposição não parece ser tão absurda. Quando elegemos determinada marca a ser sempre consumida (você só compra leite Parmalat, por exemplo), não estamos apenas acreditando que aquela empresa é melhor que seus concorrentes, mas também estamos assumindo um determinado modo de vida, um conjunto de hábitos e, por que não, uma personalidade que nos caracteriza enquanto indivíduos.

Para fins reflexivos, podemos classificar o “consumo de crenças” em três grandes categorias: easy, medium e hard. No primeiro caso, basta identificar-se com determinada crença para consumi-la. Qualquer um pode tornar-se isso ou aquilo, é só querer – torcer pelo Palmeiras ou Flamengo, ser hetero/homo/bissexual, ser ateu ou agnóstico, etc. Assim como na doutrina do Espiritismo, o consumo easy funciona na base do autobatismo, como também ocorre no Islamismo, ao declararmos o nosso testemunho de fé (Shahada), ou na Umbanda, onde só precisamos frequentar os terreiros. Leia mais…»

A propósito, você está errado.

[AVISO: Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. Além disso, é um texto bem mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura. Finja que você não viu este post.]

Dizem que gosto é igual braço, cada um tem o seu. De onde eu vim (São Paulo), ao invés de braço, falava-se cu. Recentemente me explicaram que cu todo mundo tem, mas braço alguns não têm – ou seja, a metáfora do braço é mais politicamente incorreta… Mas não vou falar de política, gosto, braço ou cu (embora tudo isso esteja relacionado). Venho aqui falar de crenças.

Em primeiro lugar, é impossível não acreditar em nada. Até o ceticismo puro, se é que isso existe, é também uma espécie de crença – a de que a verdade não existe (ou pelo menos é impossível de ser alcançada). Talvez o exemplo mais conhecido deste tipo de (des)crença seja David Hume, um dos fundadores do empirismo moderno. Ele acreditava que o homem é um ser mais prático do que racional, isto é, não importa se 1+1 é realmente igual a dois, o que importa é que uma maçã ao lado de outra maçã formam duas maçãs. Quando vemos uma bola de bilhar batendo numa outra, por exemplo, deduzimos que a segunda bola se moveu por reação à força da primeira. No entanto, Hume sabia que é impossível conhecer a causa verdadeira deste fenômeno – nós assumimos algo como “verdade” apenas por uma questão prática (tipo navalha de Ockham: se há várias explicações para um mesmo fenômeno, a mais simples é a melhor). Leia mais…»

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