Design pelo I Ching [2]

Pela possibilidade de interesse por parte do Design ocidental, desdobro a resposta da pergunta que Jung (apud WILHELM, 2011) fez ao I Ching, personificando-o, sobre sua situação ao atravessar a nossa cultura. Vale colocar que essa atitude de Jung defende um diálogo viável com o Livro, uma vez que o I Ching é considerado uma sabedoria viva. Com isso, Jung sublinha que o leitor tem a possibilidade de observar tanto a “expressão suprema da autoridade espiritual” quanto um “enigma filosófico”.

Utilizando o método de moedas, Jung obteve como resposta o hexagrama 50 do Livro, referente ao texto Ting, O Caldeirão. Ele esclarece que, levando em consideração a formulação da pergunta, deve-se entender o I Ching como sujeito da própria resposta, ou seja, nesse caso, o I Ching se autodireciona como sendo ele mesmo “o caldeirão”. De acordo com essa interpretação, a linha de pensamento parte do caldeirão como um “recipiente de ritual contendo comida preparada”, num sentido espiritual: “alimento espiritual”.

Ler mais deste artigo

Design pelo I Ching [1]

Pode haver uma posição intelectualmente mais incômoda que a de flutuar na névoa de possibilidades não comprovadas, não sabendo se o que estamos vendo é verdade ou ilusão? Essa é a atmosfera quase onírica do I Ching, e nela não encontramos nada em que possamos confiar, exceto o nosso próprio e tão falível julgamento subjetivo.

(JUNG, apud WILHELM, 2011)

Jung é autor do prefácio da edição inglesa do I Ching, um livro de sabedoria oriental traduzido e comentado do chinês para o alemão por Richard Wilhem. Assim como Wilhem, Jung é um dos responsáveis por aproximar o oráculo oriental da cultura ocidental, enfatizando, assim, para os amadores espirituais, um pouco do propósito do livro: “O I Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos.” Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XL – Sonhos e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora muitos não tenham gostado, eu adorei a produção cinematográfica de A Origem (Inception, 2010). Entre os filmes que nos questionam sobre o que é sonho e o que é realidade – Waking Life, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Vanilla Sky, etc –, o meu preferido é o Mr. Nobody (2009), mas neste post partiremos de questões mais simples, implantadas em nossa mente através d’A Origem: existem sonhos coletivos? O tempo no sonho passa mais devagar? Podemos ter um sonho dentro de outro sonho? O que são os sonhos lúcidos? E, sobretudo, quais seriam as possíveis relações entre sonhos e Design?

Em primeiro lugar, nunca houve e talvez nunca haja um consenso entre os pesquisadores sobre o que é um sonho. Enquanto os neurocientistas, por exemplo, encaram o sonho como uma espécie de reorganização das informações absorvidas durante o dia, os psicólogos junguianos acreditam que, quando sonhamos, entramos em uma vida psíquica desconhecida, pertencente a um passado longínquo e, ao mesmo tempo, a um futuro remoto. “Trata-se de um mundo bem diverso do mundo exterior, um mundo em que o pulso do tempo bate infinitamente devagar” (JUNG, 2000, p. 280). Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXIII – o Projeto de um Vir a Ser

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Em minha pseudo-experiência com Design, vejo que a concepção final de qualquer produto ou peça gráfica raramente corresponde ao primeiro esboço. No entanto, geralmente essa concepção final traz consigo muito mais sentido do que a primeira tentativa, como se fosse uma ideia que sempre existiu, só estava esperando para ser descoberta. Assumir tal pressuposto, além de contrariar a grande maioria dos métodos de Design, significa assumir, entre outras coisas, a existência de um destino. Mas para evitar o misticismo deste termo, chamarei aqui de realidade em potência: os pensamentos que amanhã teremos, a ação que realizaremos e até as consequências daquilo que ainda não aconteceu já existem potencialmente no aqui e no agora. Trata-se da autonomia de algo que está para acontecer.

Um exemplo dessa autonomia se encontra em nossas próprias emoções: amor, ódio, alegria e tristeza não acontecem através da vontade, apenas acontecem. É sempre provável que haja uma causa, ainda que seja difícil de ser reconhecida, mas a questão é que os afetos antecipam potencialmente o futuro devido a uma espécie de prontidão inconsciente. Para Jung (2002, p. 273), “é difícil decidir se a manifestação autônoma do inconsciente deve ser interpretada como efeito (portanto histórica) ou como finalidade (portanto teleológica e de antecipação)”. Isso porque enquanto nossa consciência pensa cronologicamente, nosso inconsciente é atemporal. Aquilo que consideramos inovador, por exemplo, é resultado de uma predição do destino através de uma ampla investigação de fatores retrospectivos (do passado). “Tudo o que será acontece à base daquilo que foi e que ainda é (…) um traço de memória” (op. cit.). Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVI – Articulação e Criatividade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.” [Jorge Luis Borges em Ficções, 1944, p. 92]

Qual a relação entre a criatividade e o tempo? Em primeiro lugar, o tempo é uma criação humana. E como grande parte das criações humanas, baseia-se no princípio da distinção: você distingue o que veio antes e o que veio depois. Note que essa distinção não é natural, mas sim uma gambiarra da sua mente para compreender o mundo. Contudo, este truque se desfaz quando você se questiona: o que antecede a distinção?

Para respondermos isso, é necessário uma outra distinção. Cientificamente, sabe-se que há basicamente dois pontos de vistas para compreendermos os fenômenos. A concepção mecanicista, na qual a tradição positivista se baseia, enxerga todo e qualquer fenômeno como sendo resultado de uma causa, considerando a existência de determinados elementos imutáveis que alteram as relações entre si segundo determinadas leis fixas (como o tempo, por exemplo). Por outro lado, há a concepção finalista (ou energética, teleológica, quântica, etc.) que entende os fenômenos partindo do resultado para a causa, considerando uma espécie de “energia” que se mantém constante e que produz um estado de equilíbrio no seio das mutações que os fenômenos manifestam. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXI – Sobre a Imaginação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Muitos dizem que os designers precisam ter muita imaginação. Mas, afinal, o que significa imaginação? A tradição do Design sempre deu prioridade à imaginação enquanto reprodutora da percepção, sendo a imagem entendida como um rastro ou um vestígio deixado pela percepção. Porém, perceber é diferente de imaginar. Pois imaginação também pode ser produtora de percepções, no sentido de fantasiar ou alucinar. Neste sentido, a imagem não tem referente além de si mesma, isto é, ela não representa coisa nenhuma. Não há uma causa, somente repercussão. Então a imagem se torna um fenômeno irredutível, imediato e polissêmico: o imaginante está na imagem ao invés da imagem estar no imaginante. Leia mais…»

O Designer Alquimista: como a psicologia junguiana pode explicar processos de conceituação no design

Publicado na revista abcDesign n. 20. Curitiba: Infolio Editorial/Maxigráfica, Junho de 2007.

A criatividade sempre foi (e provavelmente sempre será) uma função que detém um dos maiores mistérios para o homem. Há diversas explicações sobre como ela pode ser melhorada e sobre como trabalhá-la, mas a sua essência é um completo mistério.

Como explicar a inspiração? Será que é possível inspirar-se a qualquer momento?

Quem é designer e já passou noites sem dormir esperando a “inspiração bater” sabe o quanto tal processo pode ser cansativo, e muitas vezes frustrante. É por essas e outras experiências que temos tanta vontade de querer entender melhor o que é a criatividade, e por consequência, sua melhor amiga, a inspiração.

Contudo, o psicólogo James Hillman, em seu livro “O Mito da Análise”, aponta para os perigos de uma teorização da criatividade. Em um primeiro momento, ele lembra que a partir do momento em que falamos que algo é “isso”, automaticamente ele deve deixar de ser “aquilo”. Assim, ao propor uma definição à criatividade, poderemos estar limitando-a, indo contra aquela que é sua função prima: inovar.

Aqueles que já conhecem, ou pelo menos ouviram falar da Psicologia de Carl G. Jung, devem lembrar do seu estudo sobre Alquimia Medieval, e sobre os processos criativos que envolviam tal área. Jung realizou extensas obras sobre o assunto, que foi ainda mais trabalhado pelos seus discípulos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XVI – Por uma consciência moral do Designer

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Notei que meus textos que exploram a ética/moral acabam gerando mais discussão, embora seja difícil dizer se isso é um bom ou mau sinal. Acho pertinente, pois, esclarecer melhor o meu ponto de vista particular sobre este assunto, ainda que seja necessário um texto mais extenso que o habitual. Geralmente, quando eu falo de Flusser, muitos criticam sua aparente falta de método científico/filosófico e o fato dele questionar muito e responder pouco, deixando muita coisa no ar e não chegando a lugar algum. Em primeiro lugar, acho que os postulados de Flusser podem ser provocativos, mas não são ingênuos.

Quando eu leio Flusser, parece que ele está confiando em minha inteligência, não a subestimando com fórmulas e receitas de bolo. Do mesmo modo, penso que o designer não pode subestimar a inteligência do usuário (o que acontece muito na abordagem do Design voltado ao Usuário), mas também não pode ser ingênuo. Trata-se daquilo que Mario Sergio Cortella (2008) chama de Autonomia Relativa, que não é a salvadora do mundo e nem imobilizada ou resignada ao ceticismo puro. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XIV – Sincronicidades

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Você já teve a sensação de que estranhas coincidências resultaram em algo aparentemente pré-determinado? Alguém já te telefonou exatamente quanto você estava pensando nesse alguém? Você já tropeçou num livro que, inexplicavelmente, estava aberto na página com as informações que faltavam em sua pesquisa? Isso é a sincronicidade, palavra inventada pelo psicólogo suíço C. G. Jung em 1929 e um dos temas mais interessantes de sua obra. No meu caso, trata-se coincidentemente de um conceito chave em minha dissertação ao qual este post é dedicado.

Um acontecimento sincrônico, na verdade, não tem nada de misterioso em si, místico ou inexplicável, ele apenas oferece um significado importante para a pessoa nele envolvida. Um dos exemplos mais famosos é o da maçã que teria caído sobre a cabeça de Isaac Newton, ou quando Arquimedes entrou em uma banheira cheia de água e, esparramando água sobre as bordas, ele gritou “heureca!”. Quando a sincronicidade se tornou um assunto popular com os escritos de Jung, von Franz e Aniela Jaffé, considerou-se que ela ocorria somente em momentos de crise (falecimentos, acidentes ou casos de amor ou paixão). Porém, Deike Begg (2003) nos mostra que ela também se manifesta em situações aparentemente sem importância, sinalizando uma espécie de destino. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte X – Design e Religião?

* texto originalmente publicado no Design Simples.

O ser humano hoje produz clones e buracos negros em laboratório, mas ainda evita gatos pretos e bate na madeira. Quando se está em uma situação de risco, como em um avião em pane, muitos certamente começariam a rezar. As estatísticas podem até dizer que 68% da população é ateu, mas isso não significa que as pessoas estão perdendo suas crenças. Por mais que se trate de um assunto que, a priori, pareça distante do universo do Design, eu acredito religiosamente que o Design está relacionado diretamente à crença das pessoas. Minha fé é tamanha que me levou a elaborar um pré-projeto de doutorado intitulado “Symbolum Articulus: uma investigação acerca da linguagem do ‘sagrado’ no Design enquanto articulação simbólica”, ao qual eu dedicarei o texto de hoje.

Trata-se de uma investigação transdisciplinar e procedente de minha pesquisa iniciada no Mestrado – “Uma abordagem dos Estudos do Imaginário aplicados à Filosofia do Design” – acerca da dimensão simbólico-arquetípica do Design a partir da conceituação da psicologia de Jung (2000) e Hillman (1995). A escolha das Linguagens da Experiência Religiosa (CROATTO, 2004) enquanto objeto de estudo, com ênfase nas configurações simbólicas e nas representações da realidade, buscou o alicerce mítico que orienta as visões de mundo e os modos de ser de cada homo religiosus, relacionando essa base mítica ao Design que, em sua vez, é então encarado como “articulador simbólico”. Leia mais…»

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 128 outros seguidores