Consumo e Design: seduções simbólicas

* texto publicado originalmente no Formas do Consumo e ampliado para o Filosofia do Design.

Desde criança, existia algo (que eu não sabia o quê) que me fascinava em cartazes, livros, histórias em quadrinhos, filmes, etc. Algo sutil e efêmero mas que, de certo modo, parece ter vida própria. Então decidi estudar Design Gráfico para aprender a fazer aquilo que sempre me chamou atenção.

Olhando agora, no entanto, percebo que eu fico mais entusiasmado em entender como aquele algo funciona do que propriamente em fazer aquilo funcionar. Leia mais…»

Consumo estúpido

* texto originalmente publicado no blog Formas do Consumo

Imagino que sejam poucos os leitores que não guardaram na memória a campanha da Diesel que circulou aqui pelo Brasil no ano passado ou retrasado e cujo slogan nos oferecia o seguinte conselho: seja estúpido! Em cada uma das peças publicitárias, essa exortação era acompanhada de diferentes fotos e frases ilustrativas.

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Consumo de Crenças e a Alienação

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Sabe aqueles assuntos que evitamos discutir, mas que todos nós temos uma opinião a respeito? Religião, política, gosto musical, futebol… No fundo, discutir sobre estas coisas é discutir sobre crenças e, portanto, sobre aquilo que nos faz ser quem somos. Mas será que a própria crença pode ser considerada um objeto de consumo? Se pensarmos em nossos gostos musicais e em nosso time de futebol, tal suposição não parece ser tão absurda. Quando elegemos determinada marca a ser sempre consumida (você só compra leite Parmalat, por exemplo), não estamos apenas acreditando que aquela empresa é melhor que seus concorrentes, mas também estamos assumindo um determinado modo de vida, um conjunto de hábitos e, por que não, uma personalidade que nos caracteriza enquanto indivíduos.

Para fins reflexivos, podemos classificar o “consumo de crenças” em três grandes categorias: easy, medium e hard. No primeiro caso, basta identificar-se com determinada crença para consumi-la. Qualquer um pode tornar-se isso ou aquilo, é só querer – torcer pelo Palmeiras ou Flamengo, ser hetero/homo/bissexual, ser ateu ou agnóstico, etc. Assim como na doutrina do Espiritismo, o consumo easy funciona na base do autobatismo, como também ocorre no Islamismo, ao declararmos o nosso testemunho de fé (Shahada), ou na Umbanda, onde só precisamos frequentar os terreiros. Leia mais…»

Mentira, sinceridade e consumo

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Como todas as palavras que se referem ao ser humano, o consumo nunca possuirá definições precisas e inquestionáveis. A opinião é necessária, sendo que a própria opinião também pode ser considerada uma forma de consumo. Por exemplo, parte da minha opinião sobre o consumo foi literalmente consumida da opinião de Jean Baudrillard, que por sua vez digeriu e defecou outras opiniões, chegando à seguinte conclusão: o consumo não é literalmente real.

Para explicar isso, recorro a uma frase de Kafka que dizia mais ou menos assim: confissão e mentira são a mesma coisa; não podemos dizer o que somos, justamente porque somos isso; podemos dizer apenas aquilo que não somos, ou seja, somente a mentira. Seria então o consumo uma forma de mentira? Apenas se a mentira for entendida como contrário da verdade e não da sinceridade – você pode falar a verdade sem ser sincero, mas o consumo parece ser algo maior que a verdade e a mentira, talvez algo como uma “mentira sincera”. Leia mais…»

Considerações gerais sobre filosofia do design

Em meu primeiro post neste blog, quero fazer uma delineação geral dos problemas que acredito enquadrarem-se no âmbito de uma filosofia do design. Trata-se, sobretudo, de pensar o design de um ponto de vista humanístico – ou seja, colocando o humano em sua complexidade subjetiva como ponto principal de referência. E pensá-lo em dois planos nem sempre possíveis de serem separados. 1. No plano da produção: Quais as fontes da criatividade? Quais as motivações para a realização da atividade do design? Quais os deveres morais do designer? Etc. 2. No plano da recepção: quais as relações que pessoas estabelecem com imagens e objetos pensados em suas formas? Qual é o impacto sociocultural do design? Etc.

Será importante, logo de início, definir o que é design. De uma maneira ampla, eu diria que o design é a atividade que trabalha a forma das coisas, e também a forma resultante de tal atividade. Definição que desperta questionamentos: como se trabalha a forma das coisas no design? Com que objetivo? Quais formas resultam de tal atividade?

Para começar a responder a essas perguntas, será interessante observar que o design possui sempre três dimensões – quando uma delas está ausente, dificilmente se pode continuar falando em design. A primeira dimensão do design é evidentemente aquela da forma, a partir da qual o definimos. Mas a forma pela forma, a forma como um fim em si mesma – ou seja, o esteticismo – está muito mais na esfera da arte do que na do design. Com efeito, para se falar em design, seria preciso que estivessem presentes também suas outras duas dimensões: a dimensão funcional (ou de utilidade material) e a dimensão simbólica. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXIV – o Consumo Inconsumível

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Como o troll eleito pelo AntiCast esta semana foi a nova campanha da Coca-Cola, falarei hoje sobre consumo. A maneira mais ingênua de tratar o consumo é encará-lo como um modo passivo de alienação ou manipulação ocasionado pela indústria cultural. Em primeiro lugar, o consumo não é passivo, mas sim ativo: por mais persuasiva que uma propaganda seja, ninguém te obriga a consumir nada. Além disso, conforme nos explica Baudrillard (2008), o consumo é uma atividade sistemática sobre a qual se funda todo o nosso sistema cultural.

Desde sempre o homem que vive em sociedade compra, gasta, possui e usufrui. Mas o consumo não é isso. Não se trata da comida que digerimos, nem da roupa que vestimos, nem do carro que compramos. Trata-se na verdade daquilo que torna coerente o discurso que há por detrás disso, isto é, aquilo que dá sentido à nossa relação imediata com as coisas (materiais ou imateriais, objetos ou pessoas). O paradoxo é que o próprio sentido dado pelo consumo se auto-consome: um sentimento abstrato (o desejo) se materializa em algo ou alguém (gerando prazer), anulando-se e renascendo ao mesmo tempo. Isso porque não são as coisas que são consumidas, mas sim as ideias. Logo, o que sustenta o consumo é o vazio de nunca conseguirmos saciar uma ideia por completo. Leia mais…»

O cigarro sustentável

O ministério da cultura adverte: este texto tem alto teor de sarcasmo e algumas poucas verdades. Serão relatadas opiniões contrárias e politicamente incorretas. Cabe a você leitor assumir uma posição. A leitura pode causar impotência moral. Se persistirem sintomas de ódio,  a culpa é toda sua.

Certo dia, deparei-me com a seguinte situação: distribuiram bituqueiras (objetos para guardar bitucas de cigarro) num show para todos os que estavam presentes. Quando o show acabou, me questionei qual era a utilidade daquilo, já que usei por algum momento mas depois esqueci totalmente que aquilo existia. E não foi somente comigo: várias outras pessoas nem usaram a bituqueira. Então comecei a refletir sobre quem reclama do cigarro, os anti-tabagistas e sobre o cigarro em si. E você, leitor, deve se perguntar, o que o cigarro tem a ver com design? O que vem a seguir talvez responda a pergunta.

Filosofia do Design, parte XXIX – o Destino de Argan

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Existe uma crise profunda do Design. É assim que Giulio Carlo Argan (1993) inicia o capítulo A Crise do Design em seu livro História da Arte como História da Cidade. Após nossa breve pincelada sobre Flusser e Baudrillard, hoje conheceremos um pouco do pensamento deste historiador italiano e teórico da arte. Em seu livro Projeto e Destino (2000), Giulio Carlo Argan (1909-1992) contrapõe destino – aquilo sobre o qual o homem não tem controle – a projeto, isto é, toda tentativa humana de controlar conscientemente seu próprio futuro. Logo, projetar é uma tentativa de tomar as rédeas do destino. Seria então a crise do Design um destino que não conseguimos projetar?

É necessário ainda entendermos que a ideia de história não é, para Argan, apenas algo retrospectivo. É também prospectivo e teleológico, isto é, aponta para o futuro na medida em que a história é colocada em prática no ato de projetar. O conceito de moral, por exemplo, seria uma espécie de projeto da humanidade para a sua própria existência. Por outro lado, a ideia de programação, ao contrário de projeto, não envolve escolha ou decisão, mas uma ordem preestabelecida, calculada e mecânica. Seguindo este raciocínio, a crise do Design manifesta-se na crescente divergência entre programação e projeto. Frente às diversas contradições que surgem sucessivamente na sociedade, aos poucos estaríamos substituindo o pensamento dialógico do projeto (o diálogo entre passado e futuro) pelas soluções dialéticas da programação (a busca pela síntese), apagando da sociedade toda forma de existência histórica. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVIII – a Sombra de Baudrillard

* texto originalmente publicado no Design Simples.

De modo semelhante ao post sobre o Flusser, hoje apresentarei um pouco do pensamento de Jean Baudrillard (1929 – 2007), “a primeira sombra de dúvida ou negação em face da inexorabilidade racional e afirmativa do desenho industrial” (Zulmira Ribeiro Tavares in BAUDRILLARD, 2008, p. 230). Refiro-me àquela que é considerada sua magnum opus, “O Sistema dos Objetos”, que trata do discurso que os objetos de design manifestam ao serem consumidos, isto é, aquilo que escapa de essencial ao designer e que, nos objetos, adquire (simbolicamente) vida própria.

O termo “sistema” carrega consigo uma ideia de dimensão fechada, independente, de autonomia da área estudada, de imanência. No entanto, embora Baudrillard adote o estruturalismo como perspectiva teórica, no intuito de garantir o rigor da sistematização do tema, reconhece o risco de cair em uma análise forçada, na qual o foco de estudo passe demotivo a mero pretexto frente ao instrumental adotado. Isso porque há uma nítida preocupação com o nível conotativo, ou mesmo inconsciente, que sinaliza uma dimensão maior e de organização simbólica: “além de um certo tamanho, qualquer objeto, mesmo o fálico de uso (carro, foguete) torna-se receptáculo, vaso, útero – aquém, faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)” (BAUDRILLARD, 2008, p. 33). Leia mais…»

Estática Estética: Forma sem Função

Uma tendência do Design paralela às Artes Visuais, nos últimos anos, é a esteticização. O termo, amplo e ambivalente, sempre esteve presente nas escolas históricas, agudizando-se a partir de 70 e 80. Claro que a Estética, convertida em disciplina filosófica no século XVIII, foi aparentemente o mote propulsor do surgimento do Design. Mas por fim a estética (desvinculada de sentido filosófico) tornou-se, para o Design, sua própria glosa.

Já explico. Antes, melhor dizer que, assim como nas Artes Visuais, a origem dessa esteticização, conforme a acepção que lhe damos, está intimamente associada aos movimentos recentes da economia (pós-70), hoje conhecidos como financeirização, flexibilização, ou globalização do capital. Um tanto distinto da ordem tipicamente moderna do sistema produtivo pautado na produção e extração de mais-valia industrial, o capitalismo contemporâneo (vide Neil Smith) privilegia o setor de serviços, caracteristicamente dinâmico, flexível e especulativo. Mediante esta nova ordem decoisas, o Design e as Artes Visuais modificaram suas feições, alteraram seu modus operandi, e submeteram-se em grande medida também ao tempo dinâmico da especulação. Leia mais…»

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