terminologias e sotaques

menininha lendo FoucaultFrente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em Tudo o que é sólido desmancha no ar) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.

Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.

Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa. Ler mais deste artigo

improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

Síndrome criativa de Estocolmo

Gostaria de deixar claro de antemão que esse texto é a realização da tentativa de desmistificar a atividade criativa contemporânea.

Em minha vivência profissional e acadêmica, sou cercado de “criativos”¹, sejam eles do design ou da publicidade. Não poderia deixar de ser, afinal, sou designer de formação que trabalha em agência. Entre eles, muito me impressionam por conseguirem criar efetivamente sem muita dificuldade; bem ao contrário de mim, que preciso de muita pesquisa, de uma reformação de um repertório visual muito mais demorado antes de conseguir entrar na primeira etapa do processo criativo. O que me impressiona – e isso, aparentemente, acontece mais na publicidade – é que a maioria das pessoas busca criar coisas muito originais. Mas o que é original?

Antes de tentar responder essa pergunta, temos que dar alguns passos para trás. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte LX – Destino e Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Uma ideia que sempre me encantou é o paradoxo do destino. Paradoxo porque o destino representa um “mundo” indiferente à nossa vontade e ao nosso livre-arbítrio, como se tudo aquilo que fazemos, por livre e espontânea vontade, já fosse inevitavelmente acontecer.

No entanto, o conceito de destino pode ser entendido de duas formas: como algo indeterminável ou como algo predeterminado. O destino indeterminável pressupõe que “quem lança os dados”, por assim dizer, é cego ou não é propriamente ninguém, apenas o acaso. O destino predeterminado, por outro lado, já estaria “escrito”, como se toda e qualquer escolha/esforço resultasse em um único fim. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVI – Articulação e Criatividade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.” [Jorge Luis Borges em Ficções, 1944, p. 92]

Qual a relação entre a criatividade e o tempo? Em primeiro lugar, o tempo é uma criação humana. E como grande parte das criações humanas, baseia-se no princípio da distinção: você distingue o que veio antes e o que veio depois. Note que essa distinção não é natural, mas sim uma gambiarra da sua mente para compreender o mundo. Contudo, este truque se desfaz quando você se questiona: o que antecede a distinção?

Para respondermos isso, é necessário uma outra distinção. Cientificamente, sabe-se que há basicamente dois pontos de vistas para compreendermos os fenômenos. A concepção mecanicista, na qual a tradição positivista se baseia, enxerga todo e qualquer fenômeno como sendo resultado de uma causa, considerando a existência de determinados elementos imutáveis que alteram as relações entre si segundo determinadas leis fixas (como o tempo, por exemplo). Por outro lado, há a concepção finalista (ou energética, teleológica, quântica, etc.) que entende os fenômenos partindo do resultado para a causa, considerando uma espécie de “energia” que se mantém constante e que produz um estado de equilíbrio no seio das mutações que os fenômenos manifestam. Leia mais…»

O Designer Alquimista: como a psicologia junguiana pode explicar processos de conceituação no design

Publicado na revista abcDesign n. 20. Curitiba: Infolio Editorial/Maxigráfica, Junho de 2007.

A criatividade sempre foi (e provavelmente sempre será) uma função que detém um dos maiores mistérios para o homem. Há diversas explicações sobre como ela pode ser melhorada e sobre como trabalhá-la, mas a sua essência é um completo mistério.

Como explicar a inspiração? Será que é possível inspirar-se a qualquer momento?

Quem é designer e já passou noites sem dormir esperando a “inspiração bater” sabe o quanto tal processo pode ser cansativo, e muitas vezes frustrante. É por essas e outras experiências que temos tanta vontade de querer entender melhor o que é a criatividade, e por consequência, sua melhor amiga, a inspiração.

Contudo, o psicólogo James Hillman, em seu livro “O Mito da Análise”, aponta para os perigos de uma teorização da criatividade. Em um primeiro momento, ele lembra que a partir do momento em que falamos que algo é “isso”, automaticamente ele deve deixar de ser “aquilo”. Assim, ao propor uma definição à criatividade, poderemos estar limitando-a, indo contra aquela que é sua função prima: inovar.

Aqueles que já conhecem, ou pelo menos ouviram falar da Psicologia de Carl G. Jung, devem lembrar do seu estudo sobre Alquimia Medieval, e sobre os processos criativos que envolviam tal área. Jung realizou extensas obras sobre o assunto, que foi ainda mais trabalhado pelos seus discípulos. Leia mais…»

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