O cigarro sustentável

O ministério da cultura adverte: este texto tem alto teor de sarcasmo e algumas poucas verdades. Serão relatadas opiniões contrárias e politicamente incorretas. Cabe a você leitor assumir uma posição. A leitura pode causar impotência moral. Se persistirem sintomas de ódio,  a culpa é toda sua.

Certo dia, deparei-me com a seguinte situação: distribuiram bituqueiras (objetos para guardar bitucas de cigarro) num show para todos os que estavam presentes. Quando o show acabou, me questionei qual era a utilidade daquilo, já que usei por algum momento mas depois esqueci totalmente que aquilo existia. E não foi somente comigo: várias outras pessoas nem usaram a bituqueira. Então comecei a refletir sobre quem reclama do cigarro, os anti-tabagistas e sobre o cigarro em si. E você, leitor, deve se perguntar, o que o cigarro tem a ver com design? O que vem a seguir talvez responda a pergunta.

Filosofia do Design, parte XXXII – o Design da Programação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Google before you tweet is the new think before you speak. Dizem que estamos na era da informação. Mas a informação sempre existiu: etimologicamente ela significa a forma no interior das coisas. É como se a informação fosse o software e a coisa fosse o hardware. O que acontece é que atualmente não há mais sentido em se ter as coisas, apenas em conhecê-las e experimentá-las. Mais do que isso, em compartilhar informações. A sociedade dedica-se cada dia mais à produção de informações, de serviços, de gestão e de programação. E o designer, a princípio, se dedica à produção de coisas.

Na verdade, desde sempre o ser humano modifica as coisas que o rodeiam. E desde sempre produz informação. Por este motivo, entendemos a história da humanidade como o processo através do qual o homem transforma a natureza em cultura. A ideia de progresso, no entanto, se torna relativa quando percebemos o seguinte círculo vicioso: as coisas produzidas pelo homem, ditas artificiais, regressam à natureza na forma de detritos. Por isso a produção de informação está tão na moda, isto é, a cultura não-material. Trata-se daquilo que Flusser (2010) chama de não-coisas. “E estas não-coisas são simultaneamente efêmeras e eternas” (op. cit., p. 103). Seguindo este raciocínio, nossas mãos tornam-se supérfluas (não podemos pegar uma não-coisa), ao passo que as pontas dos dedos se tornam nosso instrumento de decisão. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXIII – Insustentável Sustentabilidade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Quando penso em Design de Produto, gosto de refletir sobre os guarda-chuvas. Para Flusser (2010), trata-se de objetos estúpidos (o que acaba sendo um infortúnio aos curitibanos): recusam-se a funcionar quando mais precisamos deles (quando há vento), são difíceis de transportar, dificultam o tráfego de pessoas na calçada e, não obstante, podem furar os olhos de pessoas distraídas. Além disso, não houve nenhum progresso significativo no design do guarda-chuva desde a antiguidade egípcia.

Flusser nos ensina que Gegenstand (objeto em alemão) significa algo que está contra, um estorvo ou obstáculo que foi lançado em nosso caminho (em latim obiectum, em grego probléma). O produto de Design configura então uma contradição: um obstáculo que serve para remover obstáculos. Depois que a chuva cessa, por exemplo, meu guarda-chuva se torna um grande estorvo para mim e para os outros. Aliás, um duplo estorvo: ele se torna problemático na medida em que há a necessidade de usá-lo. Na tentativa de sair deste círculo vicioso, o designer elabora um novo projeto, algo inovador, lançando um obstáculo diferente no caminho das pessoas. Mas como estorvar as pessoas o mínimo possível? Leia mais…»

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