O enigma relativista

Quando se tenta pensar por conta própria e expor o que se pensa, a reação padrão é: mas você não está simplesmente encaixando as coisas em tuas próprias categorias, baseando-se numa visão parcial e limitada sobre o mundo?

Em qualquer circunstância, a resposta mais adequada seria: mas em que momento eu disse que não estou fazendo isso? Daí convém estabelecer um tipo provisório de acordo epistemológico: se algum de nós pensa que não está “encaixando” as coisas em categoria particulares, enxergando o mundo de forma imparcial, tal como ele é em “si mesmo”, então não há como continuar a conversa.

O interessante é que a indagação inicial remete a uma visão relativista ingênua (previamente auto-sabotada), uma vez que a grande dificuldade do relativismo consiste em levar em conta nossos próprios pressupostos, e não em tentar dissociar-se deles. Leia mais…»

Design e tecnologia a partir de Heidegger

Semana passada tive a oportunidade de participar, ao lado de meu parceiro anticaster Ivan Mizanzuk, de um debate sobre design e tecnologia no Pavão 2012, semana acadêmica da ESDI. Devo agradecer ao Daniel, Ricardo e Almir pela receptividade e companhia, e esclarecer que não pude participar da mesa-redonda na UBA-UFRJ por puro azar, pois eu queria muito, muito mesmo, ter participado. Em todo caso, quero comentar sobre uma das questões levantadas na ESDI, uma pergunta que me pareceu representar a principal preocupação dos alunos que ali estavam: como a tecnologia (no sentido de domínio sobre a ferramenta, especialmente um software) influencia (ampliando ou limitando) o trabalho do designer? Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXV – entre o bom e o mau Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Um dos problemas que mais me incomodam no campo do Design – em sala de aula, bancas de avaliação, agências, escritórios, etc. – é o julgamento do que é certo e do que é errado. Trata-se de uma atitude natural quando se pretende projetar, no sentido aristotélico e peirceano, um bem para a sociedade. No entanto, quando deixamos de encarar o Design como mero projeto e passamos a aceitá-lo como um fenômeno muito mais amplo, enraizado na natureza simbólica e na herança coletiva da humanidade, é inevitável uma forte tendência para o relativismo.

Embora haja, para Kant, um juízo universal somente acessível através da razão, eu persisto em desconfiar de qualquer categoria absoluta como certo/errado, bom/mau, verdadeiro/falso. Assim como não há um único ponto de vista inequívoco que a física possa adotar para compreender o mundo físico, a formulação de regras/métodos/receitas não só é difícil, mas na verdade impossível: há sempre um ponto de referência subjetivo, o que implica que o certo e o errado são relativos ao sujeito. Entretanto, segundo Sartre, o ser humano é uma criatura moral e nada pode lhe poupar do tormento das decisões e julgamentos, isto é, de sua liberdade. Logo, quando aceitamos tal fragilidade e responsabilidade por detrás de nossa autonomia, qualquer decisão se torna um ato subjetivo e criativo. Leia mais…»

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