A Reflexão Filosófica como Ferramenta do Designer

Saviani, Dilnot e Flusser

É comum entre a maioria dos estudantes e jovens profissionais uma visão nebulosa acerca do design. Não somente da do campo profissional, mas também do seu produto, daquilo que o designer faz. Até que ponto vai a atuação do designer? Qual de fato é sua área de atuação? Como definir o objeto de design?

Essas inquietações são comuns e recorrentes, tanto no mercado quanto na academia. Retrato disso é a constante investigação epistemológica do design. Todas as angústias conceituais acerca do exercício do design são transpostas diretamente para o profissional e para sua produção.

Embora não aja um consenso, é importante e necessário citar autores que dedicam-se à problematização do design, resultando em novas linhas de pensamento em torno do que vem a ser o design, o designer e o objeto de design.

A partir de uma investigação etimológica, Flusser em seu ensaio “Sobre a palavra design” aponta que a palavra design está relacionada diretamente a artificialidade por meio do engano. Ler mais deste artigo

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»

Contra o método – o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend

Um dos maiores pesadelos dos estudantes de Design é a tal da metodologia científica, cobrada nos trabalhos de graduação e, dependendo da instituição, até em simples exercícios projetuais. Embora eu entenda que a academia tenha certas exigências e linguagens, confesso que os melhores trabalhos que eu fiz na faculdade foram aqueles que a metodologia científica não era solicitada, sendo assim mais livres com relação ao formato de entrega. Hoje eu compreendo o porquê da metodologia científica ser exigida, mas ainda acredito que o aprendizado de Design não tem nada a ganhar com essa exigência.

Apesar de o método positivista ainda ser inegavelmente predominante em todos os cursos acadêmicos, o que muitos não sabem é que ele não é necessariamente obrigatório: sua função é apenas demonstrar o aprendizado e a capacidade do aluno em realizar uma pesquisa, mas caso o aluno consiga demonstrar isso utilizando outro método, não haveria (teoricamente) nenhum problema.  Claro que o mais fácil e mais “eficaz” (termo geralmente valorizado no Design) é fazer do jeito que o professor sugere (ou exige) ao invés de estudar, por conta e risco, o que há por detrás das inúmeras posturas metodológicas. Por isso tentarei neste texto, apoiado no anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, levantar algumas provocações no intuito de estimular o estudo de um campo que, em minha opinião, é indispensável ao ensino de Design: epistemologia.

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Um olhar sobre o designer

Design FAUUSP dezembro 2010É sempre saudável iniciar uma sequencia de posts num blog falando um pouco de si. Meu nome é Eduardo Camillo, e sou ainda estudante. Isso já, de certa forma, depõe muito contra o que escreverei aqui por alguns motivos: não tenho experiência acadêmica suficiente, não tenho experiência projetual suficiente, não tenho experiência de mercado suficiente, não tenho experiência de leituras suficiente, não tenho experiência de vida suficiente. Feitas tais observações, talvez seja interessante levantar um pouco minha bola, e mostrar qual seria o motivo de, depois de tudo isso, eu ainda insistir escrever aqui nesse blog de Filosofia do Design. Sou estudante de Design na FAU-USP, e faço parte da primeira turma do curso de Design da mesma (não, eu não faço arquitetura, agora a USP tem MESMO um curso de Design e teve seus primeiros 12 alunos formados esse ano). Ao longo da minha formação, iniciei alguns estudos que me levaram à filosofia e nesta permaneço até hoje. Tenho mais livros de filosofia do que de design, e isso é algo que me deixa um pouco… sem graça. Afinal, serei designer, e não filósofo (a princípio). E, talvez o mais determinante de tudo para que eu esteja aqui, dando a cara a bater no meio de tanta gente maior, é que tive uma curta experiência de 2 semestres como professor de um curso técnico de Design de Móveis, e lá encontrei minha vocação e felicidade que é dar aula. Isso demonstra alguma prepotência de minha parte, pois, ainda graduando, fui lecionar; e, enquanto blogueiro (assim como o Beccari, escrevo no Design Simples) e futuro professor (se os céus permitirem), acho que alguma coisa do que eu diga pode ser interessante. Nem sempre é, mas…  Enfim. No meu post inaugural, assim como fiz no Design Simples, pretendo lançar um olhar sobre o campo do Design, mas um olhar pouco mais atual, de coisas que pensei de um tempo para cá (mais ou menos 3 meses para ser pouco mais exato), e que estão fermentando na minha cabeça. Lançar o debate pode ser mais interessante do que fechá-lo em mim. Leia mais…»

Uma Abordagem Epistemológica acerca da Filosofia do Design

HfG-Ulm Archive

* artigo originalmente publicado no III Scientiarum Historia – 3º Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, HCTE-UFRJ, 2010.

Introdução: Panorama Histórico da Pesquisa em Design

Este trabalho1 propõe uma revisão restrita aos paradigmas epistemológicos existentes na Filosofia do Design. Para tanto, julgamos oportuno levantar brevemente algumas das premissas históricas da Pesquisa em Design que são necessárias para a compreensão daqueles pretendidos paradigmas. Em um contexto onde o discurso moderno imperava na Europa, a form follows function ou funcionalismo foi a doutrina predominante por várias décadas na arquitetura e no design (FONTOURA, 1997). Segundo Cross (2007), a Pesquisa em Design foi inaugurada somente com a primeira Conference on Design Methods, realizada em Londres em 1962. Na tentativa de consolidar a metodologia de Design como disciplina científica, o movimento Design Methods procurava substituir o processo intuitivo, ainda recorrente, pela aplicação de procedimentos puramente científicos e racionais: métodos de pesquisa operacional, técnicas de gestão de tomada de decisão, técnicas de criatividade, etc. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte II – Um Estigma Totalizador

* texto publicado originalmente no Design Simples.

Não é novidade falarmos que o Design apresenta uma definição epistemológica indeterminada. No contexto nacional, nota-se que o CNPq classifica Design como sendo parte das Ciências Sociais Aplicadas (veja a Plataforma Lattes), tangenciando, portanto, às Ciências Humanas e às Ciências Exatas. A CAPES, por sua vez, insere o Design em uma área independente e confusa chamada “Arquitetura, Urbanismo e Design” (veja o relatório de 2009). Especificamente em pesquisa, a produção filosófica nunca esteve incluída entre os temas de pós-graduação (veja o Snapshot de 2008).

Mas a questão é: será que toda essa taxonomia tem funcionado no Design? Analisemos um exemplo simples. Quando um designer realiza uma pesquisa sobre Estética, mas sem ter estudado o mínimo que já foi construído na área de Filosofia sobre esse tema, seu trabalho só terá validade em um contexto restrito (seu cliente ou seu professor). A partir do momento que tal pesquisa é apresentada a algum filósofo, ou qualquer um que tenha estudado Estética (disciplina da Filosofia), o trabalho deixa de comunicar aquilo que se propunha. Ou seja, qualquer trabalho que se limita a uma determinada teoria, ou mesmo à postura de quem o executa, deixa de cumprir com a sua função comunicacional quando se apresenta àqueles que não compartilham da mesma teoria ou postura. Leia mais…»

Filosofia do Design? – provocações iniciais

* texto originalmente publicado em Design Simples.

É com grande estima que venho falar um pouco sobre um dos temas de minha dissertação de mestrado: Filosofia do Design. E como sugere o contexto vigente, falar sobre isso de maneira simples.

Para começar, sabemos que o termo “design” pode manifestar tantos significados quanto o termo “filosofia”, sendo ambos muitas vezes adotados sem uma percepção muito clara de suas fontes e consequências. Mais do que isso, poderíamos questionar: será que há filósofos o suficiente para tanta Filosofia? (ou designers para tanto Design?) Se não há uma resposta precisa a essa questão, certamente é porque não estamos em Atenas, uma cidade que tinha apenas 240 mil pessoas, a maioria escravos. No entanto, quando se fala de Filosofia hoje, parece que se trata de algo bem menos ambíguo e indeterminado do que Design.

Por exemplo, “como posso aplicar isso no mercado?” é um questionamento constante nas aulas de Semiótica, História da Arte, Antropologia, etc. Por outro lado e talvez com menos frequência, “como avaliar um projeto de Design?” é um questionamento muitas vezes sem uma resposta precisa nas disciplinas projetuais. Não se pode supor uma resposta a tais questões, afinal não há uma definição clara do que é Design – prova disso é o fato de qualquer publicação sobre Design necessitar, sempre em seu início, a definição daquilo que o autor entende pelo termo (NIEMEYER, 2007. p. 23). Leia mais…»

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