A forma além da forma

Por que não acredito na forma que segue a função™? Resposta curta: porque não há nada fora da forma.

Resposta longa: é verdade que a forma pode esclarecer determinada função, mas a função nunca explica inteiramente a forma, pois a função foi antes reconfigurada pela forma. A função depende da forma, mas a forma não depende da função.

Não significa que designers devem se preocupar mais com a forma do que com a função das coisas. Significa apenas que a forma nos mostra algo sobre as coisas que a função não mostra – a saber, a possibilidade de uma nova forma e função.

O advento do iPad, por exemplo, não trouxe nenhuma função inédita; sua maior inovação foi ter introduzido uma forma nova a funções velhas que, assim, ganharam novos significados. Leia mais…»

Um funcionalismo funcional

Pois bem, depois de mil anos sem escrever, venho novamente dar a cara a bater. Mais ainda porque vejo que o tema do funcionalismo, em geral, é completamente rechaçado por esses lados, a ponto de eu ter jogado em meu twitter que achava que ninguém de fato tinha compreendido a essência do funcionalismo, e o Beccari me incentivou a escrever sobre. Pois bem, tomei como um desafio, e aqui lanço algumas idéias que formei sobre o tema (esse texto em nada será acadêmico… Estou sabendo melhor diferenciar um ambiente de blog de uma monografia ou ensaio para qualquer coisa. A bem dizer, acho que essa nomenclatura deveria ser revista, porque se o ensaio é o lugar onde as idéias são testadas, nada melhor do que primeiro abrir o debate num ambiente público para, a seguir, “cientificizá-lo” num congresso ou revista ou qualquer lugar onde tem “doutores” dizendo que você é bacana).

Rádio da Braum do auge do funcionalismo clássico

Primeiro ponto que tenho que apresentar é: eu também não entendia muito bem o funcionalismo. Assumia como funcionalismo uma visão que apresentava como histórica, mas que, quando fui dar uma olhada melhor e refrescar a lembrança, não era bem o que eu esperava… O funcionalismo em sua vertente histórica (associando-o especialmente à escola de Ulm, no pós-segunda guerra) tinha algum ranço positivista (estou sendo camarada) que podemos muito bem identificar nos estudos de Max Bense e sua estética matemática, que ao final das contas tinha também a ver com suas idéias para o design (para referências rápidas, dar uma olhada nesse e nesse livro). Esse ranço positivista identifico precisamente na tentativa de tornar científico e matemático todo ponto que concerne ao design, ou seja, o termo racionalismo faz completo sentido quando visto por esse lado. Em especial quando Max Bill sai da escola, isso se torna ainda mais palpável. O funcionalismo, em seu entendimento histórico, caracteriza tal período, e, imagino, é nesse momento que começou todo problema que o segue. Ler mais deste artigo

O Aqueduto

Imagine-se um camponês na época da Roma Imperial.

Para reforçar a dificuldade de imaginar isso, pense que naquela época viver numa cidade era a exceção. Tipo que a ideia de cidade que temos hoje foi meio inventada em Roma. Mas aí por alguma razão te tiraram do seu rancho nos confins do império, e te levaram em Roma. Imagine que uma cidadezinha com 100 casas que você viu no caminho já te parecia uma falta de propósito, um monte de inúteis que não estavam plantando o que eles precisavam pra comer. Você chega em Roma e aquilo é tão grande, tão além de todos os limites, que você não acredita no que está vendo.

Quase com certeza, a primeira pergunta desse camponês seria: “Mas o que essas pessoas todas comem?”

Sem dúvida uma boa pergunta, mas a consequência desse comer também é: “Onde essas pessoas todas cagam?”

Essa Roma tinha alguma coisa próxima de um milhão de habitantes, e isso, na época, devia soar como ficção científica. E os romanos gostavam de ser limpinhos. Mas com essa quantidade de gente, a única forma de manter a higiene seria se, tipo, um rio corresse através da cidade deles. Melhor ainda, que sejam 15 rios, e por falar nisso é melhor que eles sejam bem separadinhos, os pra banho de um lado e os pra cocô do outro. Certo? Construa. E se você precisar de um nome, que tal Aqueduto? Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XIII – Design, Funcionalidade e Antiética

* texto originalmente publicado no Design Simples.

O escritor alemão Goethe aconselhava o homem a ser nobregenerosobom. O filósofo Vilém Flusser, aproveitando-se de tal prerrogativa, reformula essa questão ao Design e, ao mesmo tempo, a coloca em cheque: “o designer deve ser nobregenerosobom” (FLUSSER, 2010, p. 23). Aproveitando o ensaio “A guerra e o estado das coisas” de Flusser, falarei um pouco sobre ética e design neste post.

Supomos que temos que projetar uma faca de cozinha. Deve ser uma faca nobre na medida em que seja fácil de ser manuseada, não exigindo nenhum conhecimento prévio para isso – portanto, uma faca generosa também. Sobretudo, a faca deve ser boa para cortar alimentos de maneira eficaz e sem dificuldades. No entanto, se ela for boa demais, pode cortar também os dedos de quem a utiliza. Concluímos então que o Design deve ser nobregenerosobom, mas não demasiado bom. E quanto aos revólveres? São objetos nobres, podendo até configurar uma obra de arte contemporânea. São generosos também, qualquer criança analfabeta é capaz de utilizá-los. Por fim, são bons projetos de Design: não apenas matam com eficácia, como geralmente desencadeiam a reação de outros usuários que, por sua vez, matam aqueles que atiraram primeiro. Leia mais…»

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