Filosofia do Design, parte XLIII – o Design Conceitual

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“…o fundo do poço da vergonha foi atingido quando a informática, o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicação apoderaram-se da própria palavra conceito e disseram: é nosso negócio, somos nós os criativos, nós somos os conceituadores!” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 19).

Os termos conceito e conceituação são recorrentemente utilizados por nós, designers. Embora haja uma ampla bibliografia sobre isso, trata-se de uma confusa etapa projetual que ora é localizada como ponto de partida, ora como parte do processo e ora como justificativa posterior. De todo modo, há sempre a necessidade de se representar ou ilustrar um conceito, como se fosse uma espécie de produto à parte, um tipo de aplicação e objetificação da criatividade em algo que possa ser vendido e utilizado de maneira eficaz. Leia mais…»

Post-pra-paradoxo

O paradoxo é, em primeiro lugar, o que destrói o bom senso como sentido único; mas, em seguida, o que destrói o senso comum como designação de identidades fixas.

(DELEUZE, 2007, p. 3)

Os paradoxos do sentido, expostos por Deleuze (2007), têm por característica percorrer dois sentidos ao mesmo tempo e podem ser definidos como: paradoxo da regressão ou da proliferação indefinida, paradoxo do desdobramento estéril ou da reiteração seca, paradoxo da neutralidade ou do terceiro estado da essência e paradoxo do absurdo ou dos objetos impossíveis.

Paradoxo da regressão ou da proliferação indefinida: O sentido, na medida em que se combina com o nonsense, relaciona-se com uma proliferação infinita das entidades verbais – para cada sentido, existe outro, o que desencadeia uma regressão indefinida: o excesso que remete à própria falta. Segundo Deleuze, ao mesmo tempo em que não se diz o sentido do que é dito (lembrando que significado, designação e sentido se diferem), paradoxalmente podemos assumir o sentido do que foi dito como objeto de uma segunda proposição, da qual também não se diz o sentido. Então se entra nessa regressão infinita do pressuposto, o que é testemunha de uma impotência em dizer ao mesmo tempo alguma coisa e seu sentido, embora fosse ótimo ($$) para os designers se isso fosse efetivamente praticável. Leia mais…»

Livro-Objeto-que-Deseja [2]

Enquanto o “livro-objeto-que-deseja” estava em processo de construção física, eu tentei finalmente responder a questão: “O que se pretende com um livro cujos textos são escritos para serem combinados com quaisquer continuações, ou até mesmo permanecerem sem fim (ou sem meio, ou sem começo) para que possam ser despreocupados e independentes, podendo ter sua formação se relacionando com infinitas proposições (ou até mesmo permanecerem incógnitos dentro de si mesmos)?”

Ou: “Por que desejar o nonsense é o problema desse projeto?”

mandíbula sonâmbula perambula sobre a escrivaninha sob a luminária

Ao explicar o resultado do projeto, o “mandíbula sonâmbula perambula”, ressaltei que o processo de tentativa dessa resposta deveria ser considerado a própria resposta, pois se sabe que sua existência como produto de design está atrelada a inquietos assuntos de uma teia de proposições, dos quais se nota, além dos conceitos de formação do produto (nonsense, livro-objeto e desejo), o conceito de rizoma:

Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, de viscosidade ou ao contrário, de precipitação e de ruptura. (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11-12) Leia mais…»

Livro-Objeto-que-Deseja [1]

No último post sobre Design e Nonsense, comentei rapidamente sobre o meu TCC, no entanto, acho válido explorar também um pouco do processo do trabalho, considerando que ele pode servir como exemplo concreto desenvolvido numa metodologia sem muita hierarquia (como é de praxe na maioria dos projetos da faculdade: “uma etapa de cada vez”).

Na medida em que o TCC foi sendo desdobrado, percorrendo aproximadamente cinco meses, fui somando assuntos como estudos pertinentes e, a cada vez, o trabalho se encontrava em um estado diferente, isto é, ele foi escrito em uma trajetória de múltiplos devires, pois “a escrita é inseparável do devir: ao escrever estamos num devir-mulher, num devir animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11). Leia mais…»

Design e Nonsense

O nonsense foi um dos conceitos que estudei em meu TCC, mas meu interesse por ele começou na quarta fase do curso, assim que fui direcionada a desenvolver uma pesquisa sobre brinquedos infantis. Pesquisei algumas referências na história dos brinquedos, na linguagem das crianças, etc. No entanto, quando me deparei com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, não vi outra questão mais densa para a pesquisa que não fossem as múltiplas questões do nonsense.

O nonsense tem a ver com “quase isso”, com “pode ser”, com “mais ou menos”. Tem a ver com criatividade, com invenção, com brincadeira. Tem a ver com superfície, com acontecimento. Mas e o brinquedo? O brinquedo tem a ver com design. Ou com papel dobrado, pedaço de madeira pintado, balão cheio d’água. Brinquedo tem a ver com qualquer coisa que faça parte da brincadeira. Tem a ver com nonsense. Leia mais…»

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