Percepção visual, memória e cadeira

Quando batemos o olho em uma coisa qualquer, em frações de segundo realizamos uma operação complexa que costumamos chamar de “percepção visual”. É algo tão corriqueiro que raramente nos perguntamos o que ocorre nesse tempo infinitesimal. Entretanto, uma vez que começamos a questionar essa tal “percepção”, as perguntas começam a se acumular…

Digamos que, em um dado ambiente, eu olho para uma cadeira parecida com a que aparece na figura ao lado. Eu vejo imediatamente uma cadeira. Mas o que é uma cadeira se não um objeto que serve para sentar? Ora, a função de “servir para sentar” não faz parte do objeto que vejo. Eu é que atribuo a ele esta função e, por isso, dou-lhe o nome de cadeira. Se é assim, entretanto, devo reconhecer que eu não vi, na verdade, uma cadeira. O que eu vi foi um objeto de madeira com quatro pernas e uma aparência específica ao qual, através de um ato classificatório, dei, posteriormente, o nome de cadeira. Entretanto, mesmo nessa nova formulação, o problema permanece: “objeto”, “pernas” e “madeira” são, mais uma vez, nomes dados a alguma coisa que aparece para mim e que requerem categorias específicas para existir. Em última instância, se eu seguir este raciocínio até o fim, terei que admitir que o que efetivamente vi foi apenas uma imagem singular ainda inclassificada. Entretanto, tal suposta “imagem singular inclassificada” não faz parte de minha experiência: quando olhei para a cadeira, ela já era cadeira, e não um objeto estranho que só depois virou cadeira para mim. Mas será que tudo isso faz alguma diferença? Algum leitor poderia perguntar neste ponto: mas será que não é irrelevante o fato de eu chamar a cadeira de cadeira? Eu vi, diria ele, o que quer que seja que estivesse na frente dos meus olhos naquele momento e depois classifiquei essa coisa como cadeira. Se fosse um objeto desconhecido, isso em nada afetaria minha maneira de percebê-lo, ele continuaria a ser o mesmo objeto, apenas eu não o consideraria uma cadeira por não atribuir a ele a função de “servir para sentar”. Será que podemos nos satisfazer com tal explicação? Leia mais…»

O realismo e os “regimes de visualidade”

Eis que estou eu aqui outra vez escrevendo para o filosofia do design depois de uma ausência de quase 3 meses. Durante este tempo, fui abduzido por atividades acadêmicas — mais ou menos como retratado naquela imagem do ser saindo da caverna que tem circulado pela internet (deixo aqui o link para quem ainda não viu).

O momento do retorno é oportuno, pois um artigo meu, prolixamente intitulado O realismo entre as tecnologias da imagem e os regimes de visualidade: fotografia, cinema e a “virada imagética” do Século XIX acaba de ser publicado na revista Discursos Fotográficos. Trata-se de um texto já antigo, que apresentei em um congresso em 2009 e depois ficou parado até meados deste ano, quando resolvi revisá-lo e ampliá-lo para publicar em um periódico da área. Embora o considere interessante, reconheço que o texto é um pouco duro, por isso vou fazer um resumo dinâmico do artigo nesse post.

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Sobre imagens mentais e materiais

Há algumas pessoas que te olham de uma maneira estranha se você começa a falar de “imagens mentais”. Aquelas que expõem suas reservas costumam dizer que não existe algo como uma imagem mental, que imagens mentais são apenas ilusões decorrentes de certos movimentos cerebrais.

Para refutar essa tosca ideia, o ideal seria mandar o interlocutor ler Bergson – Matéria e memória, ou então apenas um pequeno artigo intitulado “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”, que se encontra no livro Bergson/WJ da Coleção Os pensadores  e, se não me engano, também em A energia espiritual.
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O além da técnica: imagem e morte do século XIX aos dias atuais

Show de fantasmagoria: espetáculo bastante em voga no século XIX (embora tenha começado já no final do século XVIII), na Europa. Quem viu o filme O ilusionista já sabe mais ou menos do que se trata – shows com fumaças, jogo de luzes, espelhos e, principalmente, imagens projetadas que pareciam fantasmas (ou fantasmas que pareciam imagens projetadas, nunca se sabe). Reproduzo a descrição que oferece Guilherme Sarmiento (2002):

Um espetáculo de Fantasmagorias utilizava-se de vários Fantascópios, cujas projeções, ora atrás de telas, ora na superfície vaporosa de gazes comburentes, cresciam e diminuíam conforme a proximidade do projetor, recheado de fantasmas e criaturas malignas. Tudo movimentava-se, avolumando-se, sumindo-se no ambiente sombrio da sala. Os seis assistentes contratados, além de cuidarem da coreografia das várias projeções, eram incumbidos de sonorizar o espetáculo- esvaziar baldes, para produzir som de chuva; sacudir sinos, para a chegada da Meia-Noite, dando maior dramaticidade à atmosfera fantasmagórica. Leia mais…»

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXI – Sobre a Imaginação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Muitos dizem que os designers precisam ter muita imaginação. Mas, afinal, o que significa imaginação? A tradição do Design sempre deu prioridade à imaginação enquanto reprodutora da percepção, sendo a imagem entendida como um rastro ou um vestígio deixado pela percepção. Porém, perceber é diferente de imaginar. Pois imaginação também pode ser produtora de percepções, no sentido de fantasiar ou alucinar. Neste sentido, a imagem não tem referente além de si mesma, isto é, ela não representa coisa nenhuma. Não há uma causa, somente repercussão. Então a imagem se torna um fenômeno irredutível, imediato e polissêmico: o imaginante está na imagem ao invés da imagem estar no imaginante. Leia mais…»

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