“Fim do fim da história”, por Juremir Machado da Silva

Após os textos “Debord e o Hiper-espetáculo” e “Uma breve sociologia do imposto”, gostaria de compartilhar com vocês mais um ótimo artigo do professor Juremir Machado da Silva¹. Publicado na revista Verso e Reverso (Brasília: Unisinos, n. 37, 2003, p. 9-14), o texto abaixo parte do pressuposto de que o 11 de setembro não aconteceu para demonstrar um recurso midiático do “exagero factual”. A partir disso, acho interessante pensarmos em todo enaltecimento em torno da recente morte de Steve Jobs – mais um “fantasma” de um final comovente, mais um conto de fadas tão nostálgico quanto previsível.

“O 11 de Setembro não aconteceu”

Resumo: O 11 de Setembro de 2001 continua sendo uma incógnita para todos os seus analistas. Este texto examina, dentro do espaço teórico de reflexão estabelecido pelas obras de Jean Baudrillard sobre o assunto, as conseqüências “imaginárias” desse “acontecimento” e pergunta-se: excesso de previsão ou deficiência de imagem? Leia mais…»

“Debord e o Hiper-espetáculo”, por Juremir Machado da Silva

Embora este blog se proponha a oferecer conteúdo exclusivo de seus respectivos colunistas, tomo a liberdade de abrir uma exceção com este excelente artigo (disponível aquiaqui e aqui) do professor Juremir Machado da Silva¹. Apresentado em 2007 na XVI COMPÓS (Curitiba/PR) – GT Comunicação e Cultura, o artigo abaixo traça um panorama filosófico sobre o papel contemporâneo da comunicação no que concerne ao imaginário sociocultural.

Depois do espetáculo: reflexões sobre a tese 4 de Guy Debord

Resumo: este estudo reflete sobre a passagem da “sociedadedo espetáculo”, anunciada e denunciada por Guy Debord, em1967, ao hiper-espetáculo ou sociedade “midiocre”. Palavras-chave: Imaginário, Tecnologias, Tecnologias do imaginário, Sociedade do espetáculo, Cultura, Comunicação.

O espetáculo acabou. Estamos agora no hiperespetáculo. O espetáculo era a contemplação. Cada indivíduo abdicava do seu papel de protagonista para tornar-se espectador. Mas era uma contemplação do outro, um outro idealizado, a estrela, a vedete, os “olimpianos”². Um outro radicalmente diferente e inalcançável, cuja fama era ou deveria ser a expressão de uma realização extraordinária. No espetáculo, o contemplador aceitava viver por procuração. Delegava aos “superiores” a vivência de emoções e de sentimentos que se julgava incapaz de atingir. Leia mais…»

Imaginário, demasiado imaginário

[Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. É também um texto mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura.]

Aqueles que acompanham meu trabalho sabem que tenho muito apreço à denominada Escola do Imaginário. Recentemente participei de um congresso sobre esta linha de pensamento e voltei um tanto desiludido. Não com o congresso em si, nem com os autores ou qualquer pessoa, mas com uma certa ortodoxia do Imaginário.

No decorrer do evento, fui anotando algumas manias discursivas. A primeira delas é um modo de ser eclético, plural, abrangente e transversal, sempre se pautando em argumentos relativistas (mas nem um pouco céticos). Ou seja, o imaginário abarca tudo e todos, sendo qualquer corrente ou doutrina passível de ser adequada enquanto “forma simbólica”, nos termos de Cassirer. Leia mais…»

A verdade da imagem

O desenho de um animal, de um órgão ou de uma célula em um livro de biologia costuma ser lido como uma esquematização confiável de uma realidade independente. Supõe-se, além disso, que ela está ali para esclarecer, ensinar e não para sensibilizar (diferentemente, por exemplo, de um quadro de Jackson Pollock ou de Max Ernst). Seu valor de verdade raramente é questionado. Será isso razoável?

Talvez refletindo sobre essa questão, o artista plástico Walmor Corrêa produziu há alguns anos uma série de desenhos intitulada Unheimliche (conceito freudiano, normalmente traduzido como “estranho” ou “sinistro”) na qual, seguindo o estilo das ilustrações de atlas de anatomia, ele representa seres folclóricos – Curupira, Capelobo (figura acima) etc. Leia mais…»

O design, o imaginário – primeiras noções

(Primeiramente peço desculpas pelo longo intervalo entre postagens, já que minha ideia é postar textos curtos, com uma frequência maior…) Como já comentei em minha primeira postagem no blog (há bastante tempo atrás), no último semestre de 2010 escrevi meu tcc falando sobre design editorial e imaginário. Neste texto procuro lançar algumas noções dos estudos do imaginário relacionadas ao design.

Ao longo da vida, o ser humano acumula referências, informações. Posteriormente, estas referências servem como um ponto de partida, como catalisador para criações e novas vivências. O imaginário é isto, é o que move os indivíduos. E, portanto, pode-se dizer que é um reservatório/motor (SILVA, 2006).  O imaginário, segundo Maffesoli, é sempre social, nunca individual. Os indivíduos são imersos em imaginários passíveis de alterações, pois os indivíduos são, ao mesmo tempo, autores e atores dos imaginários a que se submetem. Os indivíduos apreendem e constroem no imaginário, são sujeitos receptores e emissores, sempre ativos. Ler mais deste artigo

O Design, o Imaginário – sobre a origem, ou uma introdução

Foram quatro anos estudando design gráfico na UFPel (Universidade Federal de Pelotas, RS), no Instituto de Artes e Design. Na verdade, me graduei em Artes visuais com habilitação em design gráfico, um curso que não existe mais e está formando sua última turma. Hoje a UFPel conta com dois bacharelados em design: gráfico e digital.

Meus dois primeiros anos tiveram a grade curricular igual a do curso de artes (habilitações em pintura/escultura/gravura): dois semestres de fundamentos da linguagem visual, quatro de história da arte, três de filosofia da arte, um semestre introdutório a cada uma das quatro habilitações e semiótica.

O programa das aulas de semiótica abordava a vertente francesa, menos comum nos cursos de artes, comunicação e design, onde são mais difundidas as ideias da semiótica americana. Tive contato com ela durante apenas um semestre e confesso que nesse curto período tornou-se difícil de entender ou até mesmo de gostar de entender. Leia mais…»

Bonecas para adultos

Fotografia por California is a placeVocê sabe o que são as “real dolls”? Gostaria de ter uma? Com certeza pensaria duas vezes em dar de presente para alguém já que estas bonecas reais, além de custarem de 5 a 50 mil dólares, são comercializadas no mercado de produtos eróticos/pornográficos. O designer Matt McMullen, da empresa Abyss Creations, desenvolveu as bonecas sexuais mais realistas que você poderia ver. Só faltam andar e falar.

Atualmente, são comercializadas cerca de 400 bonecas ao ano em várias regiões do mundo, como Europa, Japão, Canadá e Estados Unidos. A aquisição das bonecas é feita somente sob encomenda, através do website da empresa, onde o cliente pode customizar a sua a partir de um menu de opções disponíveis. Lá é possível escolher desde medidas corporais até cor de cabelo, olhos e tipo de lingerie. A boneca dos seus sonhos! Lembrando que também é possível comprar bonecos do gênero masculino, transsexuais ou apenas o torso. Contudo, a Abbys Creations não desenvolve bonecas mutiladas ou com qualquer tipo de deficiência física, nem replica imagens de pessoas e não trabalha com corpos infantis. Leia mais…»

O Designer Alquimista: como a psicologia junguiana pode explicar processos de conceituação no design

Publicado na revista abcDesign n. 20. Curitiba: Infolio Editorial/Maxigráfica, Junho de 2007.

A criatividade sempre foi (e provavelmente sempre será) uma função que detém um dos maiores mistérios para o homem. Há diversas explicações sobre como ela pode ser melhorada e sobre como trabalhá-la, mas a sua essência é um completo mistério.

Como explicar a inspiração? Será que é possível inspirar-se a qualquer momento?

Quem é designer e já passou noites sem dormir esperando a “inspiração bater” sabe o quanto tal processo pode ser cansativo, e muitas vezes frustrante. É por essas e outras experiências que temos tanta vontade de querer entender melhor o que é a criatividade, e por consequência, sua melhor amiga, a inspiração.

Contudo, o psicólogo James Hillman, em seu livro “O Mito da Análise”, aponta para os perigos de uma teorização da criatividade. Em um primeiro momento, ele lembra que a partir do momento em que falamos que algo é “isso”, automaticamente ele deve deixar de ser “aquilo”. Assim, ao propor uma definição à criatividade, poderemos estar limitando-a, indo contra aquela que é sua função prima: inovar.

Aqueles que já conhecem, ou pelo menos ouviram falar da Psicologia de Carl G. Jung, devem lembrar do seu estudo sobre Alquimia Medieval, e sobre os processos criativos que envolviam tal área. Jung realizou extensas obras sobre o assunto, que foi ainda mais trabalhado pelos seus discípulos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XIV – Sincronicidades

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Você já teve a sensação de que estranhas coincidências resultaram em algo aparentemente pré-determinado? Alguém já te telefonou exatamente quanto você estava pensando nesse alguém? Você já tropeçou num livro que, inexplicavelmente, estava aberto na página com as informações que faltavam em sua pesquisa? Isso é a sincronicidade, palavra inventada pelo psicólogo suíço C. G. Jung em 1929 e um dos temas mais interessantes de sua obra. No meu caso, trata-se coincidentemente de um conceito chave em minha dissertação ao qual este post é dedicado.

Um acontecimento sincrônico, na verdade, não tem nada de misterioso em si, místico ou inexplicável, ele apenas oferece um significado importante para a pessoa nele envolvida. Um dos exemplos mais famosos é o da maçã que teria caído sobre a cabeça de Isaac Newton, ou quando Arquimedes entrou em uma banheira cheia de água e, esparramando água sobre as bordas, ele gritou “heureca!”. Quando a sincronicidade se tornou um assunto popular com os escritos de Jung, von Franz e Aniela Jaffé, considerou-se que ela ocorria somente em momentos de crise (falecimentos, acidentes ou casos de amor ou paixão). Porém, Deike Begg (2003) nos mostra que ela também se manifesta em situações aparentemente sem importância, sinalizando uma espécie de destino. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte VI – O Design como Articulador Simbólico

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Em algumas aulas e oficinas, muitos alunos têm me perguntado: mas afinal, como esse tal do Imaginário se aplica no mercado? Pois é, não é culpa deles e, por isso, tentarei descrever aqui um breve panorama de alguns exemplos restritos a apenas um dos cânones do Imaginário: Carl G. Jung. Isso porque talvez seja o nome mais conhecido pelas pessoas em geral e, sobretudo, porque representa o principal autor que estou utilizando em minha dissertação.

Não há como, porém, eu deixar de falar de alguns trabalhos de meu colega Ivan Mizanzuk, meu tutor e companheiro nessas trilhas do Imaginário. Em seu TCC (2007), Ivan nos explica que a principal contribuição de Jung foi o conceito de “inconsciente coletivo”. Intrigado com o fato de seus pacientes relatarem sonhos idênticos a mitos de culturas distantes e, muitas vezes, já extintas, Jung supõe uma espécie de “memória coletiva” da humanidade. Trata-se de uma parte de nossa psique que seria atemporal e muito semelhante entre as pessoas, contendo aquilo que Jung chama de “arquétipos”. Em poucas palavras, são estruturas vazias ou padrões imutáveis que, ao se encontrarem com uma determinada cultura, manifestam-se através dos “símbolos” que, em sua vez, são imagens mentais que constroem a ponte entre o inconsciente e o consciente. O “mito” seria então a organização narrativa destes símbolos em uma unidade entre o indivíduo, o coletivo e o cosmos. Leia mais…»

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