Dilemas do Design IV: sinal x significado

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Encerrei meu último post tentando explicitar que a relação binária do sinal x significado não nos esclarece como e por que um objeto ou uma imagem indica estritamente alguma coisa ou alguma ideia (ao invés de outra coisa ou outra ideia). Mas me parece que, em última instância, essa indicação nunca é totalmente estrita e, somente por isso, o design é possível.

Por exemplo: quando compramos um instrumento musical (um violão, uma flauta), conseguimos executar seus diversos mecanismos porque o designer que projetou tal instrumento baseou-se em funções que suspostamente já conhecemos (se fôssemos músicos), em ideias que já possuímos, em uma linguagem comum e em valores preestabelecidos.

Porém, na medida em que utilizamos este novo instrumento, nossa relação com ele pode adquirir um significado diferente daquele com o qual estávamos habituados a ter com outros instrumentos, sendo que desta nova relação podem surgir novas formas de composição musical. Leia mais…»

A Simbiose Morena-Chocalho

ou Porque Nostradamus seria um ótimo designer

morenadangola

Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela?
Morena de Angola, Chico Buarque

De um modo geral, nós, designers, quando projetamos, devemos prever todos os possíveis usos do artefato, para que possamos proteger o usuário das possíveis idiotices que ele pode fazer com aquilo. Entretanto, isso me parece impossível. Aliás, claro que é impossível. Ler mais deste artigo

Os sonhos [imagem e psicanálise : parte II]

Os sonhos são fenômenos realmente intrigantes.  Eis que, durante o sono, diversas imagens aparecem para nossa consciência. Imagens estas que podem se ligar em um todo coerente de maneira muito semelhante com o que ocorre em nossa vida desperta ou que podem aparecer em construções completamente incoerentes, que nos deixam bastante perplexos.

É difícil saber como começar a pensar sobre os sonhos. O sonho requer uma explicação do tipo “por que será que sonhamos”? Ou isso seria o mesmo que perguntar “por que será que percebemos coisas quando acordados (vemos, escutamos etc.)”? De todo modo, podemos ao menos perguntar: por que será que sonhamos aquilo que sonhamos? Qual a diferença entre nossa percepção no sonho e na vida desperta? Os sonhos possuem significados? Ou melhor, os sonhos podem ser interpretados?

Em A interpretação dos sonhos — normalmente considerada não apenas a primeira obra propriamente psicanalítica como também a magnum opus freudiana –, Freud aborda diversas das questões acima, focando nas últimas. A resposta de Freud é que sim, os sonhos possuem significados, embora tais significados não sejam aqueles que interpretações mágicas dizem revelar. Não se trata de uma espécie de premonição cifrada como no famoso sonho bíblico do Faraó interpretado por José, no qual sete vacas magras devoram sete vacas gordas [1], mas, como veremos, de um peculiar discurso do inconsciente. Antes de explicarmos melhor essa noção freudiana, entretanto, será importante refletirmos sobre as questões levantas acima. Vejamos: Leia mais…»

Filosofia do Design, parte LXXIII – Ilustração e Ideologia

Ilustração não é apenas desenho, mas antes o nome que se dá a um movimento intelectual do século XVIII que culmina no Iluminismo (Locke, Voltaire, Rousseau etc.).

No sentido de conhecimento ou esclarecimento – eis um homem de “muita ilustração” –, o termo aproxima-se, ainda que inversamente, a um “positivismo pós-moderno”: enquanto os ilustradores do século XVIII denunciavam a Idade Média (período sem luz, de trevas), os ilustradores de hoje denunciam o século XIX (modernismo, período de luz em excesso).

Contra esta última analogia, há dois tipos de argumentos-padrão. O primeiro é aquele segundo o qual a situação é sempre complexa demais, há mais aspectos a serem explicados e a ponderação entre luz e trevas nunca termina. O segundo argumento substitui o relativismo do primeiro por outro: vivemos em uma era pós-ideológica na qual tudo aquilo que é novo, mesmo que retome algo velho, é entendido como condição de uma ruptura iminente. Leia mais…»

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