A Imagem do Niilismo

A nossa contemporaneidade abre várias possibilidades para pensar a crise em vários níveis no nosso cotidiano. Contudo, normalmente, fechamos os olhos para o que pode vir a acontecer e deixamos que as coisas aconteçam no seu pormenor, só que em sentido inverso, proclamamos por um sentido que nos forneça certa justiça para o que pode nos acontecer. Há uma passagem da Gramatologia de Jacques Derrida em que ele escreve colocando Hegel como aquele pensador que deu o fim ao livro, isto quer dizer, depois da experiência hegeliana de mundo já não há mais pensadores que possam comentar algo sobre o mundo no que ele “deve ser”. Já que, pensadores conseguintes, como Nietzsche, indica que ao mundo não podemos dizer o que ele é sem cairmos numa falta de sentido àquilo que proclamamos. Precisamente, essa ausência de sentido contrariamente não concerne apenas a nossa contemporaneidade e sim, como atenta Nietzsche, está no interior do pensamento ocidental que criou seus valores a partir de um ideia suprassensível na qual nós forjamos uma imagem pela qual perseguimos para preencher a nossa vida concreta, cheia de indecisões e incertezas. Nietzsche denomina esse modo de ditar normas para esse mundo imaginando um outro além, que invariavelmente decai num fracasso, de Niilismo. Ler mais deste artigo

Filosofia do Design, parte XXXIV – o Consumo Inconsumível

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Como o troll eleito pelo AntiCast esta semana foi a nova campanha da Coca-Cola, falarei hoje sobre consumo. A maneira mais ingênua de tratar o consumo é encará-lo como um modo passivo de alienação ou manipulação ocasionado pela indústria cultural. Em primeiro lugar, o consumo não é passivo, mas sim ativo: por mais persuasiva que uma propaganda seja, ninguém te obriga a consumir nada. Além disso, conforme nos explica Baudrillard (2008), o consumo é uma atividade sistemática sobre a qual se funda todo o nosso sistema cultural.

Desde sempre o homem que vive em sociedade compra, gasta, possui e usufrui. Mas o consumo não é isso. Não se trata da comida que digerimos, nem da roupa que vestimos, nem do carro que compramos. Trata-se na verdade daquilo que torna coerente o discurso que há por detrás disso, isto é, aquilo que dá sentido à nossa relação imediata com as coisas (materiais ou imateriais, objetos ou pessoas). O paradoxo é que o próprio sentido dado pelo consumo se auto-consome: um sentimento abstrato (o desejo) se materializa em algo ou alguém (gerando prazer), anulando-se e renascendo ao mesmo tempo. Isso porque não são as coisas que são consumidas, mas sim as ideias. Logo, o que sustenta o consumo é o vazio de nunca conseguirmos saciar uma ideia por completo. Leia mais…»

O paradoxo da Funcionalidade por Jean Baudrillard

* trecho retirado do livro O Sistema dos Objetos, de Jean Baudrillard [tradução de Zulmira Ribeiro Tavares, 5ª edição, São Paulo, Perspectiva, 2008, p. 69-71].

Ao termo desta análise dos valores do arranjo e da ambiência, observamos que o sistema inteiro repousa sobre o conceito de funcionalidade. Cores, formas, materiais, arranjo, espaço, tudo é funcional. Todos os objetos se pretendem funcionais como todos os regimes se pretendem democráticos. Ora, este termo, que encerra todos os prestígios da modernidade, é particularmente ambíguo. Derivado de “função”, ele sugere que o objeto se realiza na sua exata relação com o mundo real e com as necessidades do homem. Efetivamente, resulta das análises precedentes que “funcional” não qualifica de modo algum aquilo que se adapta a um fim, mas aquilo que se adapta a uma ordem ou a um sistema: a funcionalidade é a faculdade de se integrar em um conjunto. Para o objeto, é a possibilidade de ultrapassar precisamente sua “função” para uma função segunda, de se tornar elemento de jogo, de combinação, de cálculo, em um sistema universal de signos. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVIII – a Sombra de Baudrillard

* texto originalmente publicado no Design Simples.

De modo semelhante ao post sobre o Flusser, hoje apresentarei um pouco do pensamento de Jean Baudrillard (1929 – 2007), “a primeira sombra de dúvida ou negação em face da inexorabilidade racional e afirmativa do desenho industrial” (Zulmira Ribeiro Tavares in BAUDRILLARD, 2008, p. 230). Refiro-me àquela que é considerada sua magnum opus, “O Sistema dos Objetos”, que trata do discurso que os objetos de design manifestam ao serem consumidos, isto é, aquilo que escapa de essencial ao designer e que, nos objetos, adquire (simbolicamente) vida própria.

O termo “sistema” carrega consigo uma ideia de dimensão fechada, independente, de autonomia da área estudada, de imanência. No entanto, embora Baudrillard adote o estruturalismo como perspectiva teórica, no intuito de garantir o rigor da sistematização do tema, reconhece o risco de cair em uma análise forçada, na qual o foco de estudo passe demotivo a mero pretexto frente ao instrumental adotado. Isso porque há uma nítida preocupação com o nível conotativo, ou mesmo inconsciente, que sinaliza uma dimensão maior e de organização simbólica: “além de um certo tamanho, qualquer objeto, mesmo o fálico de uso (carro, foguete) torna-se receptáculo, vaso, útero – aquém, faz-se peniano (mesmo se for vaso ou bibelô)” (BAUDRILLARD, 2008, p. 33). Leia mais…»

Livro-Objeto-que-Deseja [1]

No último post sobre Design e Nonsense, comentei rapidamente sobre o meu TCC, no entanto, acho válido explorar também um pouco do processo do trabalho, considerando que ele pode servir como exemplo concreto desenvolvido numa metodologia sem muita hierarquia (como é de praxe na maioria dos projetos da faculdade: “uma etapa de cada vez”).

Na medida em que o TCC foi sendo desdobrado, percorrendo aproximadamente cinco meses, fui somando assuntos como estudos pertinentes e, a cada vez, o trabalho se encontrava em um estado diferente, isto é, ele foi escrito em uma trajetória de múltiplos devires, pois “a escrita é inseparável do devir: ao escrever estamos num devir-mulher, num devir animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11). Leia mais…»

O Ilusionista e seu Autômato – Jean Baudrillard

* trecho retirado da obra O Sistema dos Objetos de Jean Baudrillard (São Paulo: Perspectiva, 2008), capítulo sobre “O Sistema Funcional ou o Discurso Objetivo”, p. 62-63.

Citamos como apólogo uma estória curiosa. Estava-se no século XVIII. Um ilusionista muito entendido em relojoaria havia fabricado um autômato. E este era tão perfeito, seus movimentos tão flexíveis e naturais que os espectadores, logo que o ilusionista e sua obra apareciam juntos em cena, não podiam discernir qual o homem e qual o autômato. O ilusionista viu-se pois obrigado a mecanizar seus próprios gestos e em um assomo de talento a alterar ligeiramente sua própria aparência para conferir sentido ao espetáculo, pois os espectadores com o tempo haviam ficado muito angustiados por não saberem qual o “verdadeiro” e seria preferível que se tomasse o homem pela máquina e a máquina pelo homem. Leia mais…»

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