Em que medida somos colonizados pela linguagem?

Esta questão foi levantada no meu post Saussure, língua, xadrez e gerou debates antes mesmo que eu tentasse respondê-la – tentativa que farei agora. Vejamos: o que disse no tal post, e que de modo algum é uma ideia original, foi o seguinte: dado que a língua tem como elementos irredutíveis os fonemas (no caso da linguagem falada) ou letras (no caso da linguagem escrita), e dado que os fonemas e as letras existem em número limitado, as combinações possíveis entre tais elementos são finitas, de tal modo que seria possível – como faz Borges em A Biblioteca de Babel – imaginar uma biblioteca na qual estivessem compiladas todas as combinações possíveis das letras do alfabeto. Ora, em tal biblioteca estariam, assim, todos os textos possíveis de serem escritos: este post, a bíblia, o texto ganhador do prêmio Jabuti do ano que vem etc. Ler mais deste artigo

O que é um “modelo”?

3210838977_26d9efb96e_oA suposição é a seguinte: superada a consciência da morte e o pavor de colocar moedas em um bolso furado e perdê-las para sempre, provavelmente um dos maiores medos que ainda resta a ser enfrentado pelo homem é o de ser impossibilitado de comunicar seus pensamentos de alguma forma. O  caminho longo e tortuoso que separa o emaranhado dentro da cabeça de um ser humano até o papel (ou a atmosfera, ou o arquivo digital, ou um show de mímica) é um fantasma conhecido e já espremido por diversos filósofos e estudantes de mestrado mundo afora.

Um deles, chamado Ludwig Wittgenstein, parece ter ficado tão assombrado diante de tal fantasma que motivou-se a publicar seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, dissertando principalmente sobre o fato da linguagem ser apenas um “disfarce” para os reais pensamentos, e que portanto ela era o verdadeiro problema que deveria ser solucionado pelos filósofos. O teor de sua obra, em síntese, era a busca por uma linguagem científica precisa o suficiente para transpor essas barreiras e então dar um fim à maioria dos problemas que ela causava para a filosofia – que poderia, então, tornar-se uma área voltada para a exploração de soluções que realmente importassem para as pessoas – saúde, educação etc. Basicamente, o que ele queria provar era que todos os circulóquios e ensaios filosóficos eram mera questão de linguagem. A partir da publicação de seu Tractatus, uma nova filosofia poderia começar. Ler mais deste artigo

Sob a ótica semiótica

Compreender o design como um tipo singular de linguagem é uma das poucas relações relevantes, senão a única, que vejo entre semiótica e design. Primeiro, há uma série de “códigos gramaticais” (composição, cores, linha, volume etc.) que precisamos dominar de forma quase automática na criação e desenvolvimento de projetos. Depois há uma espécie de acordo consensual que nos permite compreender uns aos outros através de imagens e objetos.

Por fim, há um nível de sentido que, embora nunca possamos consolidá-lo e “segurá-lo” nas mãos, só existe na medida em que agimos como se ele existisse: o olhar que fundamenta nossas escolhas e interações. Leia mais…»

Subversivos Designers: entrevista com Rétrofuturs

Acredito que uma das mais interessantes e recorrentes conexões entre filosofia e design acontece através da subversão. Subverter nunca é um ato imediato e radical; ao contrário, é quando entendemos muito bem os mecanismos e lacunas de um contexto a ponto de intervir sobre ele sem que ninguém perceba diretamente.

Como já falei um pouco sobre isso antes, agora quero levantar alguns exemplos de designers subversivos – mas ao invés de montar uma simples lista de links, pretendo fazer uma série de mini-entrevistas.

Vamos ver se dá certo, estou super aberto a sugestões.

Nosso primeiro subversivo é Stéphane Massa-Bidal, 40 anos, semioticista e designer gráfico francês. Também conhecido como Hulk4598 e Rétrofuturs, tem desenvolvido, desde 2008 em Lyon (França), uma iconografia digital através de interações “acidentais” entre imagens e textos. Leia mais…»

arte não é língua

A arte não é linguagem.

Essa afirmação é obviamente falsa em muitos sentidos.

O primeiro, claro, é que algumas artes são feitas de palavras: A literatura é feita de frases. A canção é feita de versos. O teatro de falas. Nesse sentido, dizer que elas não são linguagem é como dizer que uma canoa não é madeira, o que é muito diferente de dizer que ela não é só um pedaço de madeira.

Uma obra de arte pode usar a linguagem tanto quanto quiser, e até mesmo expandir e aperfeiçoar essa linguagem enquanto a usa. Mas o que nos toca numa obra é aquilo que não se coloca em palavras. O que é significativo e valioso nela pode ser justamente o que não é articulável.

Mas nosso título é falso em um outro sentido, um sentido mais complicado. Toda obra de arte precisa resolver uma dualidade entre sua execução e seu propósito. E o par «execução/propósito» é similar ao par «sinal/significado»que é o mecanismo fundamental da linguagem.

Assim, o vocabulário da teoria da linguagem (sinal, código, referência, redundância…) facilita falar sobre arte e, imagina-se, estudar linguagem ajuda a entender arte. E parece que de fato é assim. O risco é que por desenvolver demais a comparação acabemos forçando a arte a se tornar linguagem mesmo naquilo em que não é. Leia mais…»

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